O CAFÉ, O LEITE E AS ENCHENTES

    As enchentes do rio Preto estão sempre nos preocupando, a mais comentada é a de 1945...Dizem que foi a maior, levou até a ponte de ferro. Também ocorreram as enchentes de 1996, 1978 e 2005, entre várias outras. Mas, e antes de 45, será que não houve outras grandes enchentes? Provavelmente aconteceram, talvez não com tanta freqüência e com seus níveis tão elevados quanto o das citadas.
Mesmo que não venham com tanta intensidade, ficamos sempre alertas e preocupados se as águas vão entrar nas casas e bloquear estradas.
     Mas por que elas acontecem aqui, tão freqüentes e ultimamente com seus níveis tão elevados? Na verdade, os níveis realmente estão altos, mas não porque o rio está mais cheio, e sim porque seu leito está mais raso. Outro fato é que não existe quase mais vegetação para absorver ou reter as águas que escorrem pelos morros...Veja como isso aconteceu!
    No século 19, em nossa região, entramos no ciclo do café, e para cultivar essa planta foi necessário à abertura de áreas para o plantio, o que significou a derrubada das matas aqui existentes. De forma devastadora queimavam-se as matas virgens, depois vinham limpando o que restava para o plantio, e de forma rudimentar plantavam as sementes com um pau de cavoucar, morro acima. O aproveitamento das madeiras também era insignificante.
Após as queimadas, o solo apresentava-se rico em nutrientes e o rendimento do plantio era bom, mas quando a terra se esgotava e já não tinham a mesma produtividade, outras áreas de matas eram abertas, e da mesma maneira. Quanto às terras que já “não serviam mais” para plantar o café, estas eram ocupadas com cabeças de gado leiteiro ou de corte.
     Houve um grande desmatamento da Mata Atlântica para o cultivo do café e para a criação de gado. Mata essa que ainda temos aqui, muito pouca, mas que ainda restam fragmentos nos topos de morros ou em grotas.
A Mata Atlântica está distribuída por mais de 17 estados brasileiros, e tem um tipo de vegetação importante para a proteção de escarpas e encostas dos morros. Hoje, restam aproximadamente 7,0% do total encontrado pela turma do Cabral quando chegou ao Brasil no ano de 1.500. Em nossa região vemos que esse percentual não é muito diferente, e o que ajudou a não perdermos toda a mata foi o tipo de topografia que encontramos aqui...O relevo é muito acidentado, possuindo muitos morros, locais estes de difícil acesso e mecanização.
Com os solos dessa região empobrecidos, os cafeicultores buscaram outras áreas mais produtivas, e o que nos restou foi uma maior exploração da pecuária, já que as pastagens não eram tão exigentes como a cultura anterior, e para tal exploração o custo era menos dispendioso, portanto, ainda rentáveis.
    No novo ciclo, o “do leite”, foram abertas novas áreas de pastagens, exigindo mais desmatamentos e mais queimadas, e após essas era realizada a aração. Inicialmente era com o arado movido por uma junta de bois, descendo os morros em zigue-zague...Em linhas quase horizontais, era a forma usual do trabalho. Posteriormente, com o avanço da tecnologia a aração ficou facilitada pelos tratores, máquinas potentes que, apesar do serviço por eles prestados ser de custo elevado, no início de sua utilização, promoviam resultados mais rápidos.
     Os tratores podem subir ou descer facilmente os morros, em linhas bem inclinadas, porém, com esta facilidade, as conseqüências são graves. Esse tipo de aração cria canais de drenagem para as águas das chuvas, facilitando, assim, o escoamento das águas. Desta forma, levam parte das terras com seus nutrientes, que sem a proteção vegetal das matas, e estando soltas, são carreadas pelas enxurradas. Diferente do que acontece em uma aração à moda antiga, onde os degraus formados na terra, pelo arado, reduzem a velocidade da água em sua descida, dificultando assim o carreamento.
     Na região, também ocorreu o desmatamento de várias matas ciliares, isto é, aquelas que margeiam os rios e ribeirões. Estas, além de reter grande quantidade das águas das chuvas, são importantes para a permanência dos cursos d’água. Também funciona como barreiras para as terras que descem após uma aração.
Como o preparo do solo ocorre em períodos anteriores às chuvas, já que os produtores precisam realizar o plantio das sementes ou mudas de capins, e aproveitar as águas das primeiras chuvas, para o bom resultado, a terra fica exposta à ação das águas.
     Quando chove, as terras são escorridas com as águas e carreadas para o leito dos diversos córregos, depois, direcionadas e depositadas no leito do rio Preto, tornando-o mais raso. Fenômeno este conhecido como assoreamento. Já nos terrenos pode ocorrer outro fenômeno, as erosões: grandes sulcos nas terras escavadas pelas águas em seu percurso morro abaixo.
     Não existindo mais a mata para absorver ou reter as águas das chuvas e com o leito do rio raso, você já pode imaginar o que ocorre quando vem o período chuvoso...As águas do rio saem do leito com facilidade, não é? E é isso que ocorre, como podemos observar entre os meses de novembro a março.
Atualmente, um fato importante que podemos constatar é que existe uma maior concentração populacional no meio urbano, desta forma, a enchente fica na nossa canela, literalmente...Não tem como não vê-la, como não reclamar dela. Diferente dos “tempos antigos”, onde a maior parte da população ocupava as áreas rurais, e de forma dispersa.
      Hoje, observamos apenas as conseqüências do que foi feito em outras épocas, e, por incrível que pareça, ainda ocorre na atualidade, apesar de já vivermos em “outros tempos” da exploração leiteira, e de sabermos que provocando degradações ambientais, como as citadas, poderemos ter conseqüências indesejáveis, como essa que nos aflige.
    Este é apenas um dos preços que estamos pagando por sugarmos tanto a terra. Mas, “o leite, não está totalmente derramado”, temos técnicas e técnicos que podem tentar reverter a situação das áreas desmatadas e, em conseqüência, minimizar, em um período não muito curto, o problema das enchentes.

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