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Canto na Gaiola
Poleiro de cima...Poleiro de
baixo...Pular para um lado, para o outro...Beber água...Comer alpiste,
jiló ou ovo...Depende do dia. O banho, quando tem água limpa...Quando
tem! Ciscar a areia do piso e ingerir grãos, eu preciso!...Mas
estes vêm misturados com minhas fezes, não são bons.
Quarenta centímetros de comprimento, por 20 de largura e 40 de
altura...E tem gente que ainda vende essa prisão!
À noite sou recolhido, de dia vou para
o prego na parede de fora, sempre encostado à parede...Meu mundo!...Que
mundo!? Todos os dias é a mesma coisa, todos os anos isso se repete.
Maldito dia que caí naquele alçapão, há três
anos. Quantos anos ainda eu vou viver aqui? Antes voava pelo mundo, agora
passeio de pernas, mas não com as minhas...E sair, é raro!
E sempre coberto por um pano que envolve a gaiola.
O olhar do marmanjo me observa...Menino grande que teve
a infância perdida em algum ponto, e agora, está preso em
seu mundo...Em seus poleiros, mas quer retornar. O dedo aponta, e me mostra
como raridade...Não sou! Sou apenas o que deu azar...Mas é
que tinha outro atraindo, por isso fui lá! Agora estou aqui!
A parede de dentro é branca, a de fora amarela...Igual
ao sol, que já nem avisto mais. Nela tem buracos de outros pregos
arrancados. O poleiro é de pau, o bebedouro é de plástico,
já o cocho de madeira é para o alpiste, e fica no piso...Perto
da areia. As grades são de madeira, mas já morei onde eram
de metal, por sinal, muito frias no inverno.
...Poleiro de cima...Poleiro de baixo...Beber água...Ciscar! De
noite é dormir...De manhã acordar. Meu mundo é pequeno...O
dele, também! Eu estou preso pelo corpo...Ele, pela mente. Criaram
poleiros que ele aceitou, e se acomodou!....Os meus foram impostos, fui
obrigado a ficar aqui...Não pedi!.
Troca à água, coloca o jiló, assopra o alpiste, completa
o cocho...Sua rotina!...A minha também! Mais um dia?...Não!
Menos um!...Menos uma semana...Menos um mês...Menos...
...Poleiro de baixo...Poleiro de cima...Banhar-me...Comer jiló...Que
vida amarga é essa. Ah! Se não tivesse caído no alçapão...Mas
como ia saber? Lá tinha comida. Caímos no alçapão...Eu,
no dele!...Ele, num visgo que não vê saída. Ele está
preso também...Estamos presos!
Isso tudo lamento em pranto...Que parece canto!.
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