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“Quem conta um conto aumenta um ponto.” Não sei de onde vem esse ditado; se tem origem remota, o que é mais provável, ou se é recente. Mas que é a pura verdade é. É verdade, também, que quem ouve um ponto verdadeiro pode fazer dele um falso conto inteiro. Lá atrás, nos meus tempos de ginásio, o “Seu” Maia, ex-combatente (enfermeiro), na Itália, na II Guerra Mundial, nosso herói e professor de educação física, já ensinava: nenhuma frase com mais de vinte palavras resiste a uma fila de dez pessoas; muito menos uma história inteira. E ele nos obrigava a, enfileirados, irmos passando adiante, um a um, uma frase curta, contendo uma mensagem simples, como: “Por ordem do comandante do exército, General Souza, o sargento Silva levou sua patrulha ao sítio conhecido como Chácara da Represa e destruiu, há dois dias, a ponte que o Comandante do Batalhão, Major Santos, mandou construir.” Sem nenhum envolvimento emocional nosso, pois sabíamos que era uma história inventada na hora e que não tinha nada a ver conosco, íamos passando adiante a frase. No meio da fila, a Chácara da Represa já tinha virado Sítio da Ponte e o general Santos já tinha destruído o sargento que mandou construir a represa. No final do conto, sobrava pouco da fila. Ou melhor, no final da fila, sobrava pouco do conto. Não é privilégio de nossa cidade ou de outras cidades pequenas nem é defeito só das mulheres, como querem os machistas, mas o fato é que, por todo lado, sobram mestres no boato e professores de fofocas. Ninguém nem nada escapa de nossa imaginação, de nossas vistas e de nossas línguas ferinas. Fato ou boato, tudo serve para um comentário maldoso. É uma falha muito humana, afinal. Um pecado comum a quem sente, pensa e pode falar. Se não aumentamos um ponto no conto que nos contaram, omitimos uma letra ou trocamos de lugar uma vírgula, podendo não só modificar como até inverter o sentido do contado. Por descuido, incompetência ou displicência, ou até com as melhores intenções, sem nos preocuparmos com as conseqüências da nossa maledicência, ou, ainda, por pura maldade, quando consciente e deliberadamente pretendemos prejudicar alguém, volta e meia nos pegamos na incerta. Às vezes “vendemos como compramos”, sem nos preocuparmos em verificar se é tudo verdade; por outras, simplesmente inventamos nossas próprias histórias. Mesmo que por brincadeira, sempre adicionamos um toque de veneno. As conseqüências, porém, independem da intenção, pois nenhuma ação fica sem reação. As estatísticas do Inferno não deixam dúvidas: de bem intencionados o inferno está cheio. Vovó Maria (ou Vovó Marica) costumava contar uma história que eu gosto de lembrar, sempre que se faz necessário um exame de consciência: As penas de São Felipe Neri. Suspeitando que pudesse conter algum dos pecados de qualquer outro conto, fui procurar essa passagem numa biografia do santo, escrita por um certo vigário da paróquia de São Felipe Neri, da cidade de Santo André, em São Paulo. E lá estava, no livro, a mesma história, com alguma variação – é claro – mas fiel, na sua essência, à versão da minha “Vovó Marica”. Da mesma forma, ao repeti-la, aqui, provavelmente eu adicionei algum tempero ou modifiquei algum peso ou medida, adaptando-a mais ao meu gosto e meu estilo. Não pretendo atirar pedras em quem quer que seja, muito menos para cima, pois, nesse particular, temos que admitir que não há ninguém que não tenha lá seus pecados. E quem de nós, eu ou você, leitor, nunca foi vítima da maledicência? Todos – e cada um de nós – têm sua história de sérios danos, morais e materiais, sofridos em decorrência desse pecado de outros. Fiel ou não à original, aí vai a história que Vovó Marica contava: “Felipe Neri era um dedicado estudioso da Bíblia e uma espécie de professor (autodidata) de filosofia e teologia. Cristão fervoroso, extremamente inteligente e muito querido pelo povo, atuava, porém, independente da estrutura formal da igreja. Era um verdadeiro militante, um subversivo, dos tempos modernos. Pregava, preferencialmente, nas periferias e nos bolsões de pobreza e prostituição de sua cidade – a Roma, de exatos 1.000 anos atrás. Sua fama se espalhava pela cidade e logo começou a incomodar as autoridades da Igreja. Naquela época, em plena Idade Média, um comportamento como o de Felipe era considerado heresia, pois só os padres e demais oficiais da Igreja podiam estudar a Bíblia e fazer pregações. “Chamado às falas pelo Papa, não se rendeu, porém: não podia abrir mão de sua pregação. Como não havia alternativa, diante das insuportáveis pressões, visto que o Papa, naquela época, mandava mais que o próprio rei, foi convencido, para poder continuar sua missão, a se tornar padre. ‘Tudo bem – disse ele. Mas com uma condição. Só padre. Nada de ser bispo ou cardeal. Papa, então, nunca!’ Já passava dos 40 anos de idade quando foi ordenado. Como padre, logo se destacou no ofício de confessor pois, além de bom ouvinte, era incomparável conselheiro. Era procurado por todo tipo de gente. A todos acolhia, piedoso. E, ao invés de repreender e condenar, aconselhava e perdoava, no que ao Divino Mestre imitava. “Certa vez, foi procurado por uma mulher, já idosa, que lhe confessava não um pecado mas um verdadeiro vício: durante a sua vida inteira tinha sido a gazeteira, a candinha, a fofoqueira – a repórter – da cidade. Nenhum fato ou boato lhe escapava; nenhum comportamento, nenhum indício, nenhum sinal, nenhuma suspeita, nenhum comentário. No “trabalho” da maledicência, ela entendia e praticava todas as possíveis variações. Assim, num doloroso rasgo de consciência e num profundo e sincero arrependimento, resolveu procurar o padre Felipe. E o piedoso homem, ao ouvir sua longa e comovida confissão, teve que reconhecer que, realmente, os pecados daquela mulher eram muitos e, todos, muito graves, principalmente em se levando em conta suas incalculáveis e irreparáveis conseqüências. “Então, profundo conhecedor que era da doutrina cristã e convicto da infinita bondade e suprema sabedoria de Deus, o sábio confessor não teve dúvidas e sentenciou: ‘Se a senhora reconhece que pecou e está arrependida de seus pecados e, além disso, promete não repetir, em hipótese nenhuma, qualquer um deles, vá em paz, que seus pecados estão perdoados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.’ Em cumprimento ao ritual e para aplacar a sofrida consciência daquela infeliz pessoa, o padre Felipe lhe aplicou uma penitência, determinando que ela rezasse três pai-nossos, três ave-marias e três glórias-ao-pai. Inconformada e incrédula, ela argumentou: ‘Não, seu padre, eu preciso de uma penitência pesada; pesada o suficiente para que eu possa pagar por tantos e tão graves pecados.’ Diante do absurdo, o padre reagiu, argumentando que a penitência é uma forma apenas simbólica de reparação dos pecados, porque, na verdade, nenhum pecado pode ser, definitiva e completamente, reparado, muito menos os prejuízos decorrentes dos pecados da maledicência, e que somente o perdão emanado da infinita bondade divina era capaz de tão prodigioso milagre. ‘Bastam, por parte do pecador, o reconhecimento da falta, o sincero arrependimento e a honesta e determinada intenção de não pecar de novo’ – ensinou. “Incapaz de entender tão grande mistério, a mulher voltou a insistir na penitência reparadora. Vencido pela insistência, o padre disse: ‘Tudo bem! Então, vá para casa e só volte aqui num dia em que estiver ventando bastante, trazendo uma daquelas galinhas que a senhora cria soltas em volta de sua casa.’ Dias depois, numa manhã de muita ventania, chegou a mulher, demonstrando muito cansaço, e entregou ao padre uma galinha. Ofegante, ela admitiu: ‘Padre! Graças a Deus, paguei todos os meus pecados! O senhor não imagina o quanto foi difícil, na minha idade, pegar essa galinha. Estou quase morta, de tanto correr atrás dela.’ Ao ouvir isso, porém, o padre retrucou que a penitência dela ainda não estava cumprida e ordenou que ela, aproveitando a ventania, percorresse as ruas da cidade e, arrancando uma a uma, por elas espalhasse as penas da galinha, ao sabor do vento, e voltasse à igreja. Resignada, a mulher obedeceu. “Voltando, horas depois, exausta, com a galinha toda depenada, deu por cumprida sua missão: ‘Obrigado, senhor padre, por me dar essa oportunidade. Agora, sim, paguei todos os meus pecados! Estou quase morta de cansaço!’ ‘Ainda não! – insistiu o confessor – Agora volte e recolha todas as penas que a senhora tirou dessa galinha e recoloque cada umas delas no seu devido lugar.’ Espantada, ela reagiu, argumentando que isso era impossível. ‘Que bom! – festejou o santo – Agora a senhora entende o que eu lhe disse! Realmente, é impossível encontrar e recolher cada uma das penas espalhadas por aí pela senhora e recolocá-las no lugar de onde foram arrancadas. Da mesma forma, é impossível lembrar o que foi que a senhora contou e a quais e quantas pessoas. Pior ainda: as pessoas, a quem a senhora contou aquelas histórias, certamente as contaram para outras pessoas e estas a outras. E é impossível saber a quais e quantas outras pessoas elas contaram suas histórias e que versões delas foram passadas adiante. Por isso, é impossível desmentir as falsas – ou confirmar as verdadeiras – versões de todas as histórias que a senhora espalhou por aí e resgatar todos os prejuízos que sua maledicência causou a outras pessoas. A solução seria encontrar todas aquelas pessoas que a senhora prejudicou e delas conseguir o perdão. Vá e peça perdão a todas que puder. O problema é que, mesmo vivendo o resto de sua vida pedindo perdão, será impossível encontrar a todas elas; muitas até já morreram, outras podem até negar o seu perdão. Então, só o perdão de Deus pode reparar todos esses pecados. Vá em paz e não volte a pecar!’ E a mulher se dirigiu, em prantos, ao altar e, finalmente, aceitando o perdão de Deus, cumpriu sua penitência: rezou três pai-nossos, três ave-marias e três glórias-ao-pai.” Assim termina a história que Vovó Marica contava. No verso da moeda, entretanto,
o sofrimento não é menor. Incapaz de perdoar e na ânsia
de se ressarcir de eventuais prejuízos sofridos pela maledicência
alheia, o ignorante e incrédulo ser humano apela para a justiça
com as próprias mãos e à vingança pessoal.
Não raro, a vítima passa a agressor e tenta arrasar a
fama do outro. Acreditando ser esta a definitiva solução
para a sua mágoa, por ser o caminho mais curto e mais rápido,
a pessoa, ao contrário do que espera, acaba mergulhando, cada
vez mais profundamente, na escuridão da frustração,
da insatisfação, do desespero e do abandono. No melhor
das hipóteses, recorre à justiça humana, levando
o agressor aos tribunais, processando-o, por injúria, calúnia
e difamação, pleiteando, em dinheiro, ou em público
pedido de desculpas, a reparação pelos danos morais e/ou
materiais eventualmente sofridos. Também nesse caso, nenhuma
indenização material ou execração pública
do agressor pode reparar um dano moral. Restará ao ofendido a
eterna sensação de que a justiça não foi
feita. Novamente, São Felipe Neri tinha razão: só
o perdão de Deus pode reparar tais danos. Assim, também,
tornando-se portador do perdão divino, o homem só poderá
aplacar seu coração sofrido se perdoar ao seu agressor,
mesmo que este nunca lhe venha a pedir o perdão.
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