I N C U L T U R A E D E S M E M Ó R I A

 Os mineiros são o melhor exemplo, no Brasil, de um povo que tem orgulho do seu Estado, do seu presente e do seu passado. Minas Gerais se orgulha de seu justo título de maior celeiro de riquezas naturais do País: do farto ouro aos raros diamantes, do delicado cerrado à preciosa mata atlântica. Minas Gerais se orgulha de seu justo título de maior patrimônio artístico e cultural do País: do barroco Aleijadinho ao moderno Drummond (Poeta Maior), da Ouro Preto ameaçada ao Velho Chico descuidado. Minas Gerais se orgulha de seu justo título de povo mais hospitaleiro e acolhedor do País: da Capital planejada e pujante ao despojado e decadente arraial bandeirante, do desconfiado matuto das alterosas ao elegante executivo internacional. Minas enche o peito e encharca os olhos dos mineiros!
      Minas tem coisa demais para a gente se orgulhar, tem coisa demais para o povo cuidar. E Rio Preto também tem. Minas tem coisa demais para o povo lembrar, tem coisa demais para a gente guardar. E Rio Preto também tem. Mas Rio Preto tem pouca gente se orgulhando das coisas que amou, tem pouco povo cuidando das coisas que herdou. Rio Preto tem pouco povo lembrando das coisas que ganhou, tem pouca gente guardando as coisas que achou. Mesmo já passando de 200 anos de história, continuamos incultos e desmemoriados.
     Após – ambiciosos e desinformados – exaurirmos nossas montanhas e rios do dourado metal e das preciosas pedras, rapidamente destruímos a outrora exuberante mata atlântica – a mesma que, em 1822, foi decantada por Saint Hilaire e que deu nome à região em que estamos encravados, a Zona da Mata. Derrubadas, para dar lugar ao café e ao boi, ou queimadas, para abastecer de carvão as indústrias, nossas florestas viraram umas poucas, pobres e ralas capoeiras, que continuam sendo violentadas pelo fogo criminoso ou pelo raivoso urro da motosserra. Quem sabe o que foi feito das matas ciliares que, de tão densas, escureciam com suas sombras as águas do nosso, agora agonizante, Rio Preto? Alguém sabe onde foram brotar muitas minas d’água que por aqui secaram? Para onde fugiram os bichos? Se não temos parques nacionais ou estaduais, o que fazemos para recuperar o que se perdeu ou para preservar o que sobrou? Quantas APA’s (Áreas de Preservação Ambiental) temos em nosso município? Nenhuma! Quantas RPPN’s (Reservas Particulares do Patrimônio Natural? Uma só? Já é um começo.
      Diante da avalanche de informações vindas de fora, pela mídia ou via internet, nossa própria história, nosso próprio passado, vai-se perdendo, sem remorsos, em nossa pobre incultura e desmemória. Quem sabe, por exemplo, quem foi o Dr. Esperidião que dá nome à nossa bonita Rua Larga? Esmagado pela decadência financeira ou por pura ignorância de herdeiros, nosso precioso patrimônio arquitetônico se deteriora e, sem cerimônia e sem vergonha, vai dando lugar ao barato, frio e feio concreto. Quem fez sumirem as pinturas e imagens barrocas da nossa Matriz? Porquê deixamos cobrirem de cimento o calçamento original (de lajes coloniais de pedra) da Ladeira Comendador Theresiano? Até o casario do paredão já começa a ruir. Na praça, das antigas cem palmeiras, só três, coitadas, resistem. E as sedes da maioria das antigas fazendas coloniais já caíram ou estão caindo.
     Trocando os mineirismos da nossa terra por maneirismos de outros povos, inclusive do estrangeiro, abandonamos nossas tradições culturais, artísticas e até mesmo religiosas e adotamos “tradições” alheias, como se nossas fossem. Se não, por onde andam nossos seresteiros e foliões, quem se lembra das cantigas de ninar e das brincadeiras de roda? Quem dá importância às Folias de Reis, aos saraus ou à Semana Santa? Afogados pelas novas tecnologias, perdemos nossos seleiros, ferreiros, cesteiros, alfaiates e sanfoneiros. Nós continuamos hospitaleiros e acolhedores. Mas, precisamos nos deixar invadir e violar por hordas de desordeiros que avacalham nosso melhor carnaval? Tudo isso é mero saudosismo barato?
      É necessário raciocinar que: 1 – o turismo é a atividade lícita que mais cresce e que mais empregos e renda gera em todo o mundo; 2 – sendo uma das únicas alternativas econômicas que restaram a este “rincão viridente”, o turismo não se viabiliza num lugar sem história, artes, cultura e natureza preservadas, ou com um povo sem cultura e sem memória. Afora alguns monumentos mantidos à força da lei ou por puro amor, nossa incultura e desmemória nos roubam o passado e acabam nos levando a perder a própria noção de futuro. Estamos legando, assim, aos nossos filhos, uma única e desesperada alternativa viável de progresso econômico: fugir daqui, para ganhar a vida em terras estranhas, renegando, por vergonha ou por raiva, a nós e à incultura e desmemória que lhes estamos deixando. Ai deles! Ai de nós!
      Precisamos, urgentemente, nos conscientizar de que somente a união de esforços, na restauração e preservação de nosso patrimônio histórico, artístico, cultural e natural, poderá nos ajudar a reverter esse triste quadro, para atendermos ao sábio chamamento do nosso belo hino: “Caminhemos, unidos, avante, / para um dia, viris, conseguir / que o Brasil seja um templo gigante, / a mais bela nação do porvir.”

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