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Passados o impacto e a comoção
provocados pela tragédia que se abateu sobre nossa comunidade,
com o assassinato dos auditores-fiscais do Ministério do Trabalho,
entre os quais, desastradamente, um querido filho de nossa terra, um
amigo nosso, um de nós - o Nelson “Leocádio”
- sinto-me compelido a compartilhar, com quem se dispuser a pensar,
uma reflexão. Mas, a verdade é que não existe crime perfeito. Alguma pista sempre será deixada. Basta que não se abandone a busca. No caso, uma das vítimas, o estóico motorista, sobreviveu, apesar de mortalmente ferido, por algumas horas. As informações que ele forneceu, entre seus últimos suspiros, levarão, certamente, à identificação dos mandantes e autores desse bárbaro e covarde crime. O mínimo que se pode exigir das autoridades é que os culpados sejam identificados e, exemplarmente, punidos. É direito e obrigação da sociedade, como um todo, e de cada um de nós, em particular, como integrantes dessa sociedade, exigir justiça e lutar por ela, que é a nossa derradeira esperança de um mundo melhor, mais igualitário. Sob a alegação de que a prolongada greve da Polícia Federal, à qual compete a investigação, dificultou as diligências, o fato lamentável é que, até agora, ninguém foi preso. Será que, sem a devida e exemplar punição, esse crime compensará aos seus autores, aos seus mandantes, às autoridades incompetentes e à sociedade conivente, a todos esses covardes vivos? Podemos aceitar isso, passivamente, sem protestar? Não! Não! E não! Esse é o grito de todos nós, cidadãos: “queremos, exigimos, justiça!” É preciso - insisto - que não nos esqueçamos
daquele fato (o assassinato do Nelson e seus companheiros), que tanto
nos comoveu, e insistamos na cobrança de que a justiça
seja feita. Devido às circunstâncias em que as mortes aconteceram, um ditado popular, entretanto, apesar de velho, voltou a ser lembrado, por muitos, por ocasião da morte do Nelson: “antes um covarde vivo que um herói morto”. Tanto eu quanto, tenho certeza, muitos outros de nós ouvimos, ou até fizemos, comentários do tipo: “Coitado! Se ele não fosse tão honesto, se tivesse proposto ou aceitado um “acerto” (suborno), certamente estaria vivo, ainda”; “Não vale a pena enfrentar esses bandidos (os políticos, os donos do poder)”; “Ou a gente entra na deles ou acaba como o Nelson”; “Eu, no lugar dele, teria entrado no esquema”. Eu, porém, um simples “zentonho” da vida, afirmo: assim pensam e agem os covardes. Além da certeza da impunidade, outra motivação do crime é a intimidação: “Se fizeram isso com eles, que os desafiaram, poderão fazê-lo com qualquer outro que, também, ousar desafiá-los”. E eu repito: assim pensam e agem os covardes. É compreensível que qualquer ser humano, diante de uma grave ameaça, se refugie em seu medo e na sua covardia e nada faça para impedir a injustiça. Se pensarmos bem, veremos que não há nada mais insensato, nada mais doido e covarde, do que assumir tal atitude. Entre o “lutar ou fugir”, os covardes preferem a fuga. Ao fugir, porém, deixam o terreno ao domínio do mal, condenam-se ao eterno exílio, ou sucumbem ao jugo do opressor, do explorador. E é aí que o crime começa a compensar! É aí que começamos a perder a nossa liberdade. É aí que começamos a abrir mão da nossa felicidade, da nossa salvação. Ai, do povo que não tem Deus! Mal comparando, eu diria: ai, do povo que não tem heróis! Que seria da Índia, sem Ghandi? Que seria dos Estados Unidos, sem Lincoln? Que seria da França, sem Joana d’Arc? Que seria do Brasil, sem Tiradentes? Que seria do mundo, sem Jesus? Mundo afora, história adentro, os exemplos se repetem, intermináveis. Mesmo amados por muitos, foram odiados por uns poucos. Mesmo ameaçados de morte, não renegaram seus ideais; recusaram-se a compactuar com os covardes. E acabaram por oferecer suas preciosas vidas, por amor a seus irmãos que amavam. Se o mundo ainda não acabou em guerras e caos total, é porque, apesar de mortos por seus próprios irmãos, os exemplos e ensinamentos desses heróis, homens e mulheres, são seguidos por muitos que, com coragem e determinação, na defesa de seus princípios e crenças, ousaram desafiar os poderosos, ainda que isso lhes tenha custado a própria vida. À morte desses poucos devemos, todos nós, as nossas vidas Não querendo endeusar nosso conterrâneo mas, apenas, emprestar dele o heróico exemplo, ouso afirmar que, como indivíduos, como cidadãos, conscientes, devemos repudiar aquela máxima do senso comum, tantas vezes repetida: “antes um covarde vivo que um herói morto”. Bem pensada, ela não faz o menor sentido. Pois, sem nossos heróis, mesmo que mortos, seríamos, todos, alistados no contingente dos covardes vivos. Imaginemos o mundo cheio de covardes! Covardes que corrompem, que se deixam corromper, que matam e que se deixam intimidar. Mesmo não morrendo fisicamente, sucumbem moralmente. Sem os nossos heróis, mesmo que mortos, sem seus exemplos, o mundo estaria cheio de mortos vivos. Vivos, biologicamente, porém mortos, moralmente. E, então, eu pergunto: haverá morte mais indigna, mais degradante e mais covarde do que a morte moral? Que o nosso amigo Nelson, de lá do céu – que é o lugar dos heróis mortos – nos abençoe e nos ilumine a não nos deixarmos levar, por emoções passageiras, a atitudes e práticas covardes e desonestas. Que a coragem e a honestidade vençam! Mesmo que seja para o benefício de quem sequer conhecemos. Que a coragem e a honestidade vençam, para o bem de todos, para a salvação do mundo! Nelson, obrigado pelo exemplo! Você não morreu inutilmente! Sua morte resgatou e dignificou as nossas vidas! Que Deus o tenha! |