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LIMA SANTOS, MINHA ALEGRIA Eu, menino, e ela, já idosa, cinqüentona. A Banda, alegria da minha vida. Ali, na fila do gargarejo, eu fazia dela a minha festa. Festa sem ela não era minha. Nos dobrados, marchas e valsinhas, eu me embalava. E sonhava...a vida era boa, valia a pena. Eu era feliz! “Seu” Antônio Pinto era o maestro, a festa, de Santa Terezinha. O leilão, animado por si só, ganhava importância e atraía mais público, com a banda ao lado. E a renda para a igreja aumentava. Na pausa para um gole limpa-goela, que ninguém é de ferro, o leiloeiro dava espaço à Banda. Era brilho puro. Emoção e magia. A festa de Santa Terezinha, daqueles tempos, com leilão, banda, barraquinhas na rua e os foguetes que me metiam medo, tinha até missa, de manhã (das Filhas de Maria e do Apostolado da Oração), de tarde (da Liga Católica Jesus, Maria e José) e de noite (campal, festiva, com procissão e tudo). Em Rio Preto, a Semana Santa, do Padre Correia, a cada dia uma nova emoção, uma renovação da fé. Nas celebrações tristes, lamentando a paixão e a morte, e nas alegres, comemorando a vida e a ressurreição, lá estava a Banda, a postos, nas procissões contritas, ou na praça festiva. Nada seria, para mim, tão bonito, tão comovente, sem ela. Da marcha-fúnebre pungente ao dobrado estimulante, era ela a estrela, a minha estrela. Gordos e magros, brancos e pretos, jovens e velhos, homens e mulheres. Eles eram - e continuam sendo - a Banda, a garbosa, valorosa e orgulhosa Corporação Musical Lima Santos. Gente do povo, amantes da arte, dedicados a todos. Do meu tempo de criança, deles tenho saudades e guardo lembranças: do Maestro Antônio Pinto ao Pedro Anão, do Geraldo Parafuso ao João Raimundo. Muitos passaram, outros vieram. Muitos morreram, outros tantos continuam. A todos eles, admiração, respeito e gratidão. Assim, renovando-se, lá vem ela, aqui está, nas festas, nas paradas, nos enterros. Eu, passando dos cinqüenta, e ela, centenária. Deus queira, eterna. Do religioso ao profano, do clássico ao popular, seu repertório demonstra vigor artístico, determinação de sobrevida. Em Parapeúna e em Rio Preto, é parte da nossa existência, essência da nossa cultura, da nossa história um patrimônio. Nossa alma. Ao progresso e à tecnologia, benvindos, sobrevive a tradição, bendita. Depois de tanta vida, doada por Deus, de tantos amores, dados pela vida, e de ausências por ela vividas, seguimos nós, eu e ela, eu e a Banda, estrada afora, como agora. |