NÃO APRENDEMOS, MESMO!!!
(José Antonio Maia)


Cetra vez, quando eu fazia o Curso Normal, recebi da D. Cidinha Rubião, nossa professora de Didática, a incumbência de dar uma aula-prática, valendo nota. O tema que eu propus, porque – como morador da roça – julgava dominar, era "Animais". Planejei com cuidado e preparei uma "senhora" aula: levei cartazes, recortes de revistas, bichos vivos (passarinhos na gaiola, pintinhos na caixa de sapatos, peixinhos no aquário, insetos num vidro grande com tampa de véu de tule e até meu cachorrinho, Peri, na coleira) bichos mortos (cobras, escorpião e aranha), futuros animais (ovos) e pedaços de ex-animais (ossos, couros, cascos e chifres). Só para levar tudo aquilo, do sítio até a escola, o vovô Tonico lotou a charrete. E ficou lá fora, esperando a aula acabar para levar tudo de volta. E lá fui eu para a frente da turma. Confiante, dei um "show". Era dez, na certa.

No dia seguinte, muito discretamente, a D. Cidinha me chamou a um canto e me deu a notícia que mais me surpreendeu em toda a minha vida de estudante: "te dei ZERO na aula prática." E completou, explicando: "sua aula foi magistral; teria dado DEZ; mas você se lembra que você disse que a baleia é o maior PEIXE do mundo? Por esse inaceitável absurdo, sua nota é ZERO". O pior é que eu me lembrei de ter dito aquilo. Só não imagino com que cara eu fiquei; só sei que ela – a minha cara – começou a querer ficar mais perto do chão. Morrendo de vergonha, aprendi mais uma lição: a educação envolve muito mais do que simplesmente aprender, vai muito além de apenas conhecer a matéria, transforma o "saber das coisas" em mero instrumento. O que parecia fim, passa a ser meio. A sorte é que parece que só ela percebeu a minha burrice. E meus colegas nunca entenderam porque é que eu tive que dar uma outra aula-prática. Ninguém percebeu que era a chance que ela me deu de escapar daquela horrível nota no meu Histórico Escolar.

Essa mesma professora, citando não me lembro qual famoso educador, marcou a minha vida com a seguinte sentença: "Ensinar é como vender; não se pode dizer que se vendeu, se ninguém comprou, da mesma forma que não se pode dizer que se ensinou, se ninguém aprendeu. Não faz o menor sentido um professor ralhar com o aluno dizendo 'seu burro, eu te ensinei isso ontem!'. Se o aluno não aprendeu, o professor não ensinou. Se o professor tivesse ensinado, o aluno teria aprendido". Aí eu concluo: "se o sistema de ensino, hoje, está fracassado, diplomando analfabetos, não é por burrice de quem deveria ter aprendido, mas por incompetência de quem deveria ter ensinado". Pior é que, em muitos casos, a escola nem ensina nem educa.

Mais tarde, no Curso de Comunicação, um professor de sociologia, dentro da mesma linha de raciocínio, porém indo um pouco mais além, alertava que a comunicação só se completa se houver a educação do indivíduo alvo dela, ou seja, a comunicação eficaz é a que tem o poder de mudar o comportamento, os hábitos, as atitudes e as práticas das pessoas a quem se comunica algo. Com essa afirmação, o professor abria espaço para se estabelecer uma diferença entre ENSINO e EDUCAÇÃO. Assim, ENSINAR é levar alguém a aprender os SINAIS, introduzir o indivíduo à linguagem dos signos. EDUCAR é, além de ensinar, fazer com que alguém MUDE seu comportamento, seus hábitos, suas atitudes e suas práticas no dia-a-dia.

Embora muito diferentes em sua essência, esses dois conceitos, não raro, são confundidos: usa-se um quando se deveria usar o outro. Seria, entretanto, uma discussão acadêmica sem conseqüência, se não se estivesse colocando em jogo o próprio objetivo da escola: ensinar ou educar? Temos um Ministério da Educação mas temos um Sistema de Ensino. A confusão, porém, se desfaz quando se reconhece que se pode ensinar sem educar, mas não é possível educar sem ensinar. Por outro lado, é possível ensinar deseducando e, às vezes, para educar é preciso desensinar os conceitos errados e reensinar tudo, dentro de conceitos certos. Ensinar – só - é um ato neutro. Como dizia o Professor Vitorino, pode-se encher de livros os balaios de um burro. Ao carregar a preciosa carga, esse burro não se diferencia daquele que tem seus balaios cheios de estrume. Educar, porém, pode ser para o bem ou para o mal (aí é deseducar), depende do objetivo e do método de quem educa e da boa ou má intenção ou índole do educando. Mas, sempre, educar vai pressupor mudança de comportamento, de hábitos, de conceitos, de paradigmas, de valores. Essa é a nobre missão de famílias e de escolas, entre outras instituições.

Na prática, vamos citar um exemplo só: mesmo sabendo – porque aprendemos – que fumar é prejudicial à nossa saúde, muitos de nós continuamos fumando (aprendemos, mas somos mal educados); ensinamos aos nossos filhos e/ou alunos que fumar é prejudicial à saúde (eles aprendem isso) mas, se continuamos fumando perto deles, eles absorvem o ensinamento, mas não são educados, e a tendência é que venham a fumar no futuro. Então, estamos deseducando, porque falamos uma coisa e fazemos outra. Para educá-los precisamos, antes, nos educarmos a nós mesmos.

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