|
Rio Preto, dos nossos primeiros anos. O rio que corre, às vezes tão magro que lhe podemos ver as entranhas, às vezes tão gordo que reclama mais espaço, aqui, bem no meio de nós, parece, às vezes, tão perto, que o confundimos com alguém da família. Vem, não se sabe, de onde e vai para, sabe-se lá, que lugar. Afinal, que importa? Indo ou vindo, ele sempre está aqui, junto de nós, todo dia, tão certo quanto o sol de cada manhã. Dizem que vem de bem perto do céu. Do Pico das Agulhas Negras, desce até nós, aos quatrocentos, mais de dois mil metros, e segue seu caminho, até entregar suas águas ao mar, a Cota Zero. Recebendo, até lá, outros nomes, Paraibuna e Paraíba, dá-nos a lição da força que vem da união. Paraibuna não devia ser, porque sendo maior e desviando o curso do outro, devia continuar com seu nome, até chegar ao maior, o Paraíba do Sul. Mas – que importa? – o que vale é chegar lá. Dizem, também, que não vem só de um lugar. Que vem, também, do Chora, do Funil, de Conservatória, das Três Cruzes, de Ipiabas e de Juiz de Fora. Sabe lá Deus de quantos e quão diferentes lugares. É verdade. Como todos os seres vivos, vem de muitos lugares, mas, depois da união de todos, acaba em só um. Tão perto de nós, parece um de nós. Mesmo que grite e chore, ainda que peça e implore, não lhe damos ouvidos, não lhe damos atenção. É explorado, para nos dar o que tem de melhor – a água, os peixes, a areia, a beleza – e recebe de nós o que temos de pior – nossas fezes, nossa urina, nosso lixo, nosso desprezo – e leva tudo, sem protesto, para longe de nós. Tão perto de nós, ainda assim, vem de longe. Se leva para outros lugares o que não queremos perto de nós, traz pra cá o que não querem os outros perto deles. Nem assim nos damos conta de que, se nos agride, vez ou outra, invadindo nossas ruas, nossas casas, não é vingança, não é revide; ele só está ocupando o lugar, invadido por nós, que lhe pertence, por ordem da natureza. Nem assim nos damos conta de que, roubando dele o agasalho que dá alento às suas mil fontes, estamos minguando, a olhos vistos, sua seiva. Da mesma forma, se tivesse onde se agarrar, em suas bordas, se lhe aplacaria a raiva; mas lhe pelamos os cílios protetores. Dizem os entendidos que, um dia, por aqui, havia tantas, mas tantas, matas, que elas, desafiando o poder do sol, se debruçavam sobre minas e cursos d’água, na ânsia de protegê-los. Os nativos, integrados ao, até então, protegido e preservado ecossistema, deram ao rio o nome que a eles parecia: rio preto. O rio Preto, de ontem, era claro, transparente, inocente. Preto, de tão limpo. O rio Preto, de hoje, está sujo, poluído, incompreendido e desprotegido. Preto, de tão sujo, poluído pelos nossos esgotos, pelos nossos últimos anos, pelas nossas últimas letras, pelos nossos últimos medos, pelas nossas últimas aventuras, pelos nossos últimos amores. O nosso Rio Preto pede socorro! Precisamos ouvir o seu grito de SOCORRO!!!!!!!! Precisamos salvá-lo, antes que ele morra!!!
|