CARTA A UMA MULHER

À
Cássia

   Aproveitando o pretexto da carta do Tiago para a Maria do Carmo, chego até você para lhe devolver algo pessoal (anexo), deixado dentro do livro que, gentilmente, me deu.
   A intenção verdadeira é lhe dizer que, apesar de nosso tão breve contato, senti que temos interesses comuns: a leitura. Eu sempre me achei – e ainda acho que sou –, digamos, diferente. Mas, que fosse um feiticeiro... nunca tinha imaginado. Foi você quem disse que aquele livro tinha tudo a ver comigo (ou algo que o valha). Adorei o livro: me descobri, por ele, um feiticeiro; ou talvez um aprendiz.
Por outro lado, relendo uma velha antologia literária, dos meus tempos de faculdade, encontrei este poema do alagoano Ledo Ivo:

A VÃ FEITIÇARIA

Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho
que a torna testemunha desta aurora.
Invento o espelho e, mais que o espelho, o amor,
onde eu me vejo, vivo, num sarcófago.
E a vida, este galpão de sortilégios,
deixa que eu a invente com palavras
que são dragões vencidos pela mágica.
E não me espanta que eu, sendo mortal,
sujeito à injúria de tornar-me pó,
crie uma rosa eterna como as rosas
inexistentes nesta flora efêmera.
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se,
em vãs lembranças. Minha rosa morre,
por ser eterna, sendo o mundo vão.

   Diante da beleza de um poema, criação de um feiticeiro, concluo: não sou um feiticeiro; nem sequer um aprendiz.

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