Francisco de Assis Menezes

SOBRE RIO PRETO

OU

PERIGA DAR BODE

FRASME

ORELHA FRASME POR ELE MESMO

 

         Nasci em 1963, filho de FRancisco de ASsis MEnezes. Trabalhei um ano no “O VALENCIANO” como auxiliar do colunista social Carlos Resende. Meu pai sempre me explorou utilizando o meu trabalho para freqüentar o “socyate”, os clubes, as piscinas, e até os salões de snooker. Depois trabalhei cinco anos no saudoso “O MUNICÍPIO” onde assinava a coluna FATOS DA SOCIEDADE com o pretensioso epíteto de “Frasme observa”. Claro que meu pai, também naquela época, muito me explorou freqüentando bailes, quermesses, festas de formatura e bocas livres de uma maneira geral, tudo as minhas custas. Mas não foi por isso que deixei o colunismo (disse colunismo, pois apesar de certa tendência à esquerda nunca fui filiado a nenhum partido comunista). No fundo mesmo fui sempre um poeta bissexto - já li em algum lugar que a poesia faz a gente se sentir menos canalha - um cronista de uma crônica só sem fim e sem finalidade.

        Nunca me envolvi em negócios (muito menos em negociatas), bolsas de valores, mercado imobiliário, commodities, jamais comprei coisas loisas e bichos. Que gorassem todos os ovos, que enferrujassem todos os carros, que quebrassem todas as bolsas. Pouco deveria me importar se a mula (mesmo quando chamada de muar) mancasse (ou claudicasse), se a cabritinha amasse ou traísse. Deveria, apenas, narrar os fatos, contar os fetos, provocar desafetos, acreditar nos cépticos, chorar com os hilários e rir das tragédias. Assim meu pai jamais voltaria a me explorar. Agora, neste “livrin”, sei não... A tentação é grande:
- “Compre um livrinho e ganhe um queijinho”. É, periga “dar bode”!

 

O AUTOR

      Francisco de Assis Menezes nasceu em 1945, na localidade de São Cristóvão, nos arrabaldes da Serra de São Lourenço, Município de Rio Preto. Pelo lado materno é aparentado com quase todas as famílias Riopretanas em compensação, pelo lado paterno, tem parentesco com pouquíssimas pessoas. Vive na cidade do Rio de Janeiro desde os 19 anos e tem uma concepção interessante a respeito do FRASME: - “É apenas um agnóstico bobo, cheio de recordações ginasianas que, atualmente, vive em São Cristóvão, num modesto tugúrio, junto com Teseu – o seu gato, amigo e confidente”.

APRESENTAÇÃO

     Um texto quando chega as nossas mãos, ele tem que se submeter à nossa idiossincrasia valorativa. Adoro Borges. Não suporto Paulo Coelho. Meu Deus como Guimarães Rosa é tão idolatrado pela fina flor da crítica intelectualista ! Adoro Machado de Assis, mas só o Quincas Borba e As Memórias Póstumas! Assim vai: qualquer leitor ou consumidor de arte não tem gosto mas cultiva gostos. Retalha aqui, recorta ali, inclui, exclui, aceita, tolera, rejeita e concilia a particularidade de seu prazer estético com a universalidade da beleza. “Ó belo é aquilo que visto, agrada” no feliz dizer de Tomás de Aquino lá no Século Treze.
      Feito todo esse rodeio, empunhemos as crônicas do Frasme para os riopretanos, ou Francisco de Assis Menezes para os mais distantes. Lê-lo é um exercício de nostalgia. È experimentar este agridoce das coisas retidas na memória, das boas, porque recordados, das ruins porque ficaram lá no passado. Frasme é o candieiro de nossas recordações, temperando-as aqui com o humor, ali com o sarcasmo leve, em conta gotas, tudo está sustentado por uma inteligência aguda, punctual, ferina aqui, indulgente acolá.
Eu diria mesmo que FRASME é um jogador que merece uma oportunidade num clássico, pois suas jogadas de futebol ultrapassaram o gênero da crônica e demandaram a construção de um elenco de personagens, que se concertassem num romance de crítica social. Faça isto Frasme ! Julgo que você já dispõe daquele ócio desejável para um feito deste porte.Talento não lhe falta.
Com admiração,

do velho amigo Trogo

FÁBULAS

       Algumas eu as pari, outras concatenei. Eu não ganhei nada com isso, nem camioneta, nem fazenda, nem boi branco. Apenas o prazer de vê-las como filhas de verdade, crescerem, ganharem identidade própria e saírem por aí contando um pouco da nossa história, do nosso tempo e, sobretudo da nossa cidade.  Poderiam muito bem ser alcunhadas de “Augustinianas” ou “Augustinas”, pois aconteceram quando a governança desta cidade estava entregue ao Augustinho. Eu disse que saíram por aí, mas, não foi bem assim não. A “A HORA E A VEZ DO TATU CANASTRA” coitadinha, não chegou a sair. Garanto que não houve aí o dedo (ou tesoura) do Augustinho. Foi coisa, mesmo, do bom, honesto, brilhante, meticuloso, laborioso e, sobretudo cauteloso editor do vibrante jornal AQUI. Outras, de certa maneira mais coitadinhas ainda, saíram com cortes e alterações como, por exemplo, todas as fábulas com participação do “bicho hipopótamo” viraram fábulas do bicho “Peso Pesado”. Nada significativo, nada que tirasse o sentido da fábula, mas, devemos lembrar que o editor vive disso. Ele precisa comer. Às vezes ele, acho que propositadamente, deixava passar alguma coisa como da vez em que escrevi: - “hipopótamo ou peso pesado, conforme o Bajonas quiser”. E aquela passou, mas quando enfiei um “meritíssimo ou seria meritíssima”, na fábula “O Filhote do Rasputim” ele, o Grande Bajonas, quase morreu de medo. Achava que a Juíza poderia decretar nossa prisão. Bons tempos aqueles...
        As primeiras que ousaram sair pelo mundo foram rotuladas de “fábulas que ninguém entende, publicadas em um jornal que ninguém lê”. Depois, lá pela fabula 7, para minha surpresa, descobri um leitor, depois outro e mais outro enfim cheguei ao fantástico número de 11 (onze) fiéis, seletos, inteligentes e conscienciosos leitores. Então elas passaram ser “fábulas que quase ninguém entende, publicadas em um jornal que quase ninguém lê”. Devo informar que, quando a última fábula foi publicada, o número dos meus leitores havia aumentado em mais de 100% chegando, segundo uma pesquisa, mais do que fidedigna, ao inacreditável número de 26 (vinte e seis) leitores.
      Assim para a alegria e o gáudio destes fiéis, seletos, inteligentes e conscienciosos leitores todas as fábulas estão aí, na integra, do jeito que nasceram. Antes de qualquer mal entendido esclareço que também desta vez não estou ganhando nada, sequer uma queijadinha. Só mesmo o prazer de ver minhas “filhas” lépidas e faceiras andando pela aí.
Aliás, para ficar bem claro a minha posição, informo que todos os direitos autorais foram cedidos APAE de Rio Preto e todos os rendimentos decorrentes da venda ou de qualquer outra utilização deste livro deverão ser, integralmente, repassados a referida entidade.
      No “Jogo do Bicho” não tem bode. Tem cabra e carneiro, mas, não tem bode. Aqui, no entanto, periga dar bode. Agente nunca sabe até onde vão os melindres humanos.
Por isso, como prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, é bom deixar bem claro que:
FATOS, ACONTECIMENTOS, NOMES E SITUAÇÕES QUE APARECEM NESTAS FABULAS SÃO ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE PRODUTO DA IMAGINAÇÃO (DOENTIA), DO AUTOR. QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS (VIVAS OU MORTAS) E COM INCIDENTES REAIS É MERA COINCIDÊNCIA, PELA QUAL O AUTOR PODE (ATÉ) SER ELOGIADO, MAS JAMAIS DEVE SER RESPONSABILIZADO.

1 -  O SACRIFÍCIO DA RAPOSA

      Num tempo anterior aos motores de dois tempos, fazendo já um tempão, havia um circo parecido com aqueles que se instalavam (também já há um tempão) na Rua de baixo, na beira do rio, próximo ao “cristalino” córrego que vem (ou vinha) do Morro da Safira. Naquele tempo os Morros da Safira, do Pinto e do Atalaia, ainda não haviam sido “favelados” pela demagogia (1) dos chefetes de plantão.
      Era daqueles circos que você olha para cima e vê uma linda lona com um céu negro cheio de belas estrelas que na realidade são apenas buracos na sujeira de uma lona completamente destruída pelas intempéries temporais. O circo tinha o nome pomposo de “CIRCO TEATRO RIO NEGRO” e o que mais costuma ter nos circos de sua categoria, isto é:
A ausência do equilibrista que fugiu com a mulher do anão;
A ausência do anão que morreu de tristeza não só pela falta da amada, mas principalmente pelo fato de achar que estava crescendo. É que antes da fuga o equilibrista vinha, maldosamente, cortando a ponta da bengala do infeliz;
A ausência do contorcionista que havia quebrado a coluna. Na realidade ele não era contorcionista, mas sim sobrinho do dono do circo que além de perdulário (2) era um praticante fervoroso do nepotismo (3);
A ausência do mágico (nos melhores dias do circo, fôra milagreiro, curador e cirurgião capaz de operar até no banco do jardim) que com a globalização se transferiu para o Circo Le Soleil uma vez que, graças a uma veneranda tia, dominava perfeitamente o idioma Francês;
       A ausência da bandinha de música que por um punhado de moedas foi tocar nos, muito mais animados, forrós de certo comerciante Veneziano (ou seria Fenício?);
Finalmente contava também com a ausência do dono do circo que completamente endividado no banco do Brasil (e também com outros agiotas) picou a mula para Tocantins.
       Dessa maneira ficou no circo apenas a bicharada (no bom sentido), todos chefiados pelo Augusto Leão, que por puro acaso se chamava Augusto César. Aliás, bicharada era maneira de dizer, pois, além do leão, havia apenas a Raposa Cremalina e o lobo Guará que às vezes acudia pelo nome de Igor e outras pelo nome de Néscio conforme o papel que estava desempenhando.
Então, com a situação mais preta que asa de urubu, com a negra fome rondando o que restava do circo e a miséria estendendo o manto da escuridão sobre as almas da bicharada, (tudo isso naturalmente sem menor conotação racial), Cremalina propôs encenarem uma tragédia que havia escrito chamada o “Sacrifício da Raposa”.
Assim, num dia (era um Sábado), a peça foi encenada em um ato de cena única no palco montado no centro do picadeiro, para a alegria do povo que lotou (pela primeira vez) as dependências do “Circo Teatro Rio Negro”:

Sacrifício da Raposa
Lobo Igor: - Agora é a minha vez!
Leão Augusto César: - Como sua vez se é a mim que o povo quer?
Raposa Cremalina: - O povo quer o que damos a ele.
Lobo Igor: - Estou esperando há muito tempo...
Leão Augusto César: - Acho que você deve esperar mais um pouco.
Burro Néscio: - (Levanta-se, e nervosamente bate a pata no chão). O lobo tem razão. A vez é dele.
Raposa Cremalina: - Senta Néscio, que o leão é manso!
Leão Augusto César: - Manso sim, mas não sou burro!
Raposa Cremalina: - (Em tom conciliador quase em off). Se brigarmos todos perdemos. Soube que o Tigre de Bengala anda querendo nosso circo. Assim me ofereço humildemente para o sacrifício já que o Lobo, o Leão e o povo gostam de mim...
Pano rápido. O povo emocionado chora copiosamente. O pano levanta. Os aplausos explodem estrepitosamente. Sucesso absoluto! O “Circo Teatro Rio Negro” está salvo.
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Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura:

(1)   - Demagogia, s.f. Governo ou preponderância das facções populares; anarquia; política de aproveitamento pessoal pela excitação das paixões populares.
(2)   - Perdulário, adj; e s. m. Que ou aquele que gasta excessivamente; dissipador, estragador; extravagante.
(3)   - Nepotismo, s. m. Autoridade que os sobrinhos e outros parentes do Papa exerciam na administração eclesiástica; favoritismo; patronato. Vem de Nepote que era o nome do sobrinho do Papa.

2 –   O LEÃO, O LOBO E A RAPOSA

       Após o retumbante sucesso alcançado pela encenação da peça “O Sacrifício da Raposa”, a troupe do “CIRCO TEATRO RIO NEGRO” em memorável deliberação resolveu tomar as seguintes providências:
Mudar o nome do circo para “CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES” para melhor se adequar à realidade da globalização e fazendo ao mesmo tempo homenagem aos cantadores de guarânias paraguaias.
Convidar o Tigre de Bengala para fazer parte da troupe uma vez que se perigoso ele fosse não precisava de bengala.
Encenar uma nova peça.
      Para mudar o nome do Circo bastou acrescentar “Solimões” ao letreiro já existente.  O Tigre que não é de mar, mas sim da Silva (digo da Selva) aceitou gostosamente o convite fazendo apenas duas exigências: 1 – ser chamado de Sylvio, seu nome de batismo; 2 - Incorporar também a troupe dois companheiros seus, o touro gersey chamado Gwylmar e o pingüim conhecido como Zé Camacho.
O burro Néscio ficou tão emocionado com os novos companheiros que chegou às lágrimas. O leão Augusto Cessar urrou desconfiado assustando os novos integrantes do circo, que foram devidamente acalmados pela raposa Cremalina: - Sentem-se que o leão é manso. O lobo Igor apenas sorriu desdenhosamente.
       Difícil mesmo foi arranjar uma nova peça para apresentação. A raposa não foi capaz de criar nada novo. Nenhum dos outros componentes tinha cabeça para criar alguma coisa capaz fazer sucesso.
Assim a troupe resolveu refugiar-se na nova pousada do Betim Fom-Fom, (atenção Betim, depois eu vou cobrar pela propaganda) na serra do Funil para, em um seminário de criatividade (brainstorm) (1), elaborar uma nova peça.
E elaborou? Não, minha cara leitora, não elaborou. Foi debalde (de balde e de pàzinha) o esforço da troupe. Nem uma chuvinha fina, quanto mais uma tempestade. Também pudera esta troupe não consegue nem entender esta porcaria de fábula quanto mais criar uma.
      No terceiro dia a raposa Cremalina (sempre ela) vendo que daquele mato não saia coelho isto é ninguém criava nada, saiu para um passeio pelas redondezas e acabou entrando na famosa gruta. Estava ela, embevecida, contemplando os maravilhosos escritos rupestres (mais do que um burro olhando uma igreja era um jegue olhando uma catedral) sem entender nada, quando por um milagre, destes que nem o Chico Xavier seria capaz de psicografar, abaixou ali o espírito de Champollion (2) e ela conseguiu ler claramente os misteriosos sinais. Era uma linda fábula do inigualável Esopo (3). Então, já que não se consegue criar o negócio é copiar.
       Assim, num dia (era um Sábado), a peça foi encenada em um ato de cena única no palco montado no centro do picadeiro, para a alegria do povo que lotou (pela segunda vez) as dependências do “Circo Teatro Rio Negro e Solimões”:

- O Leão, o Lobo e a Raposa
    O leão está deitado em uma cama, no centro do palco, com uma compressa de água quente na cabeça. A sua direita o lobo e ao lado uma cadeira vazia destinada ao burro. À esquerda o tigre sempre com seus fiéis seguidores, o touro e o pingüim, sentados respeitosamente, atrás do seu querido mestre e senhor.  Um pouco distante da cama estão os demais bichos. Apenas a raposa está ausente. 
Lobo: - A raposa não é confiável. Veja, V. Majestade doente e ela não deu sequer ao trabalho de vir visitá-lo. (O lobo levanta-se e rápido e senta-se na cadeira do burro)
Burro: - A raposa merece um castigo. (O burro levanta-se e rápido senta-se na cadeira do lobo)
Tigre: - Nós sim, somos seus fiéis súditos.
Touro: - Muito bem, senhor tigre!  
Pingüim: - Maravilhoso, senhor tigre!
Lobo: - V. Majestade ou o Magnífico Tigre, melhor ainda, os dois deveriam devorá-la.
Neste momento entra a raposa. O Leão enfurecido atira longe a compressa de água quente e urra de ódio. A raposa, humildemente, ajoelha-se aos seus pés.
Raposa: - V. Majestade me perdoe. Demorei a vir porque estava visitando todos os curandeiros do reino, procurando, incansavelmente, um remédio que pudesse curar o meu bondoso rei.
Leão:- E encontrou o remédio?
Raposa: - Encontrei sim, amado soberano, e é muito simples. V. Majestade deve vestir a pele, ainda quentinha, do saudável lobo para ficar completamente curado.
Imediatamente o leão mata o lobo para tirar a sua pele e se enfiar dentro dela.
Tigre: - Moral da História: “É melhor apelar para a bondade do leão do que atiçar a sua fúria”
Raposa: - É melhor ser vice vitorioso do que titular derrotado.
Pano rápido. O povo emocionado chora copiosamente. O pano levanta. Os aplausos explodem estrepitosamente. Sucesso absoluto! O “Circo Teatro Rio Negro e Solimões” está começando a fazer sucesso... ...
Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura

(1) Brainstorm, (inglês) corresponde, em português, a “tempestade de idéias”.
(2)Champollion, Jean-François Champollion (1790-1832). Professor de história da universidade de Grenoble, decifrador dos hieróglifos.
(3) Esopo viveu na Grécia no séc. VI a.C. foi grande orador e nos legou maravilhosas Fábulas como esta aqui publicada.   

3 - LUPUS ET AGNUS (1)

       O CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES está na contramão da história. Enquanto todos os seguimentos de nossa fragilizada economia passam por dificuldades ele vive sua época de ouro. Enquanto se ouve choro e ranger de dentes de empresários e assalariados, de banqueiros e de bancários ele tem o peito em festa e o coração a gargalhar. Enquanto o preço do leite despenca ladeira abaixo nem tanto pela falência da PARMALAT mais, muito mais, pela ganância (e ignorância) dos “queijeirinhos” de plantão (eles terão perdido sua galinha dos ovos de ouro quando morrerem de fome os pequenos produtores de leite), o circo tem até dinheiro em caixa.
        Instalado na Rua de baixo, na beira do rio, próximo ao córrego que vem do Morro da Safira, tudo são flores na administração do CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES. Tudo? Nem tudo! Apenas para justificar a regra das exceções (ou seria das excreções) uma multa da prefeitura, aliás, uma pesadíssima multa, vem tirando o sono do leão Augusto César o “big boss” (2) do Circo. Razão da multa: Despejar esgoto “in natura” (3) no córrego.
- Ora, rugiu o leão, o córrego que vem do Morro da Safira há muito tempo foi transformado em esgoto pela demagogia dos chefetes (4) dessa mesma prefeitura e agora devemos pagar o pato, digo o leão? Se eles querem pagar a conta daquele cabide de empregos com multas absurdas, que tratem de tratar (ôpa!) os esgotos da cidade e depois pensem em nos multar.
- É verdade, disse a raposa Cremalina, se Prefeita fosse a primeira coisa que faria era implantar uma usina de tratamento de esgoto.
- Não vamos pagar nada, reiterou o Tigre que não é de mar, mas sim da Silva (digo da Selva), doidinho para firmar sua posição.
- Por outro lado, obtemperou (5) a esperta Raposa, se não pagarmos eles podem proibir nossas apresentações e perderemos muito mais.
- Que propõe então honorável colega, perguntou o Lobo Igor.
- Encenaremos uma nova peça. Tenho em mente a fábula do imortal Esopo (6) o “Lobo e o Cordeiro”. O Touro gersey chamado Gwylmar, faria o papel do cordeiro. O lobo Igor faria o papel dele mesmo. O povão lotaria as dependências do circo, ficaria feliz com o espetáculo e mais uma vez (como sempre) pagaria a conta.
A proposta da raposa foi aprovada por unanimidade.
Assim, num dia (era um sábado), a peça “O Lobo e o Cordeiro” (adaptação da fábula do imortal Esopo feita pela raposa) foi encenada em um ato de cena única no palco montado no centro do picadeiro, para a alegria do povo que lotou (pela terceira vez) as dependências do “Circo Teatro Rio Negro e Solimões”:
O Lobo e o Cordeiro
O Cordeiro está cavando uma fossa e o Lobo se aproxima.
Lobo: - Qual a finalidade desse buraco que cavas?
Cordeiro: - Pretendo fazer uma fossa.
Lobo: - E para que a fossa?           
Cordeiro: - Para não poluir o rio como faz o queijeiro e o criador de porcos.
Lobo: - Quer dizer, você se acha melhor do que eles, mas antes estava também poluindo o rio?
Cordeiro: - Não, antes eu ainda não tinha nascido.  
Lobo: - Se não foi você foi seu pai ou seu avô.
Dizendo isso o Lobo sacou o talonário de multas destacando para o infeliz Cordeiro uma multa mais pesada do que seria a do queijeiro e do criador de porcos juntas.
Pano rápido. O povo emocionado chora copiosamente. O pano levanta. Os aplausos explodem estrepitosamente. Sucesso absoluto! O “Circo Teatro Rio Negro e Solimões” pagará facilmente a sua multa.
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(1) Lupus et Agnus: (latim), O lobo e o Cordeiro.
(2) Big boss: (Inglês), Grande Chefe.
(3) In natura: (latim), em estado natural. 
(4) Chefetes: chefes de estabelecimentos pequenos e sem importância. Chefes sem prestígio ou autoridade.
(5) Obtemperou: Disse em resposta com modéstia e humildade; ponderou.
(6) Esopo: viveu na Grécia no séc. VI a.C. foi grande orador e nos legou maravilhosas Fábulas como esta aqui publicada.

4 - O LOBO E AS UVAS

      O CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES chamava-se, simplesmente, CIRCO TEATRO RIO NEGRO. SOLIMÕES foi aposto (1) para melhor se adequar à realidade da globalização, tão em moda nos dias de hoje, e para fazer uma pequena homenagem aos cantadores de guarânias paraguaias (v/ fábula fabulosa 2).
Uma coisa puxa a outra. Com um nome pomposo destes, com a burra abarrotada de dinheiro devido ao grande sucesso das encenações das fábulas fabulosas “O SACRIFÍCIO DA RAPOSA”, “O LEÃO, O LOBO E A RAPOSA” e “LUPUS ET AGNUS”, todas devidamente publicadas neste vibrante hebdomadário (2) (ou quase), com um “big boss” da têmpera do Leão Augusto César, patronal (3) ou paternalista (4) (quase isso ou nada disso:- está mais para pai - gonçalo (5)), O CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES precisava de um endereço, digamos, mais nobre do que a Rua de Baixo que, convenhamos, serve somente para um “cirquinho” qualquer. Uma coisa puxa a outra e o Leão Augusto César voou alto:
- Vamos alugar o salão nobre da Cooperativa Agropecuária de Rio Negro!
- Como?!  Perguntou a temerosa Raposa Cremalina.
- É fácil, eles estão alugando tudo mesmo. Vão pular de alegria! Disse o Tigre que não é de mar, mas sim da Silva (digo da Selva).
- Sei não... Murmurou o Lobo Igor lembrando suas origens.
- Vou pendurar meu retrato no lugar do retrato do Dr. Alberto Espanha! Sonhou logo o Tourinho gersey Gwylmar.
- E se o aluguel for muito caro? Obtemperou a Raposa Cremalina.
- Caro? Eles alugaram as lojas por menos de vinte litros de leite ao dia, como o leite não vale nada... Ensinou o tigre.
- Nós vamos alugar! Decretou o Leão. 
       Assim, toda troupe mudou-se, de malas e cuias (mais cuias que malas) para o Salão nobre da Cooperativa Agropecuária de Rio Negro, alugada pela módica quantia de R$15,00/dia, (quinze reais por dia), mais ou menos trinta litros de leite, o que não é nada para qualquer “queijeirinho” de plantão e menos ainda para uma potência como O CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES. Apenas para se ter uma idéia uma única entrada para um espetáculo do circo já dava para pagar o aluguel. Quem ficou um pouco chateado foi o Tourinho gersey Gwylmar, pois o Leão Augusto César foi taxativo:
- Enquanto rei quem manda sou eu e quero “meu” retrato no lugar do retrato do Dr. Alberto Espanha. Quando terminar o meu reinado vocês procedem da maneira que acharem melhor.
E, para comemorar a efeméride, num dia (era um sábado), a peça O “LOBO E AS UVAS” (a fábula do imortal Esopo “a Raposa e as uvas”, devidamente adaptada pelo Tigre) foi encenada em um ato de cena única, no palco montado junto às janelas que dão para o rio, no salão nobre da Cooperativa Agropecuária de Rio Negro, (digo do Circo Teatro Rio Negro e Solimões), para a alegria do povo que lotou (pela primeira vez) aquelas instalações.
O lobo e as uvas
O Leão está saboreando um suculento cacho de uvas. O lobo aproxima-se:
Lobo: - Faz já quatro anos que você vem saboreando estas uvas.
Leão: - E daí?
Lobo: - Também queria saborear.          
Leão: - Mas nós fizemos um acordo!
Lobo: - Ainda bem que você se lembra. Pelo acordo, agora é minha vez.
Leão: - Grrrrrrrr. Mas eu sou muito mais forte que você!  
Lobo: - Bem, sendo assim continue com as uvas. Na verdade elas estão verdes.
Dizendo isso o Lobo abaixa a cabeça e sai “de fininho”
Pano rápido. O povo emocionado chora copiosamente. O pano levanta. Os aplausos explodem estrepitosamente. Sucesso absoluto! O “Circo Teatro Rio Negro e Solimões” ficou mais rico.
Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura:

(1)       - Aposto: adj. Que se apôs: posto sobre.
(2)       - Hebdomadário: s. m. Semanário.
(3)       - Patronal: adj. Relativo a patrão.
(4)       - Paternalista: adj. Que procede como pai.
(5)       - Têmpera: s. m. (fig.) Índole; feitio.

5 - O LEÃO O LOBO E O TIGRE

       O CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES, agora muito bem instalado no salão nobre da Cooperativa Agropecuária de Rio Negro, estava em polvorosa. Havia um estrupício (1) entre os animais do circo. Também, o fim do mandato (digo reinado) do leão Augusto César vinha, como escreveu Charles Bukoviski (2), “chegando como um arpão”. O bicho urrava por qualquer motivo. Foi-se o tempo em que a raposa Cremalina vivia dizendo: - “Senta que o leão é manso!”.
Aboletado (3) em seu trono, encimado (4) pelo majestoso retrato de sua realeza, (onde nos bons tempos da Cooperativa Agropecuária de Rio Negro ficava o retrato do Dr. Alberto Espanha), ele mal disfarçava o nervosismo. Era a famosa TPE (tensão pré-eleitoral) que assola todos os “políticos” em vésperas de eleições.
O lobo Igor, a cada explosão do big boss, ficava mais e mais apavorado. Um dia, passando por cima de antigas mágoas, chamou o Tigre, que não é de mar, mas sim da Silva (digo da Selva), em um canto e, em off, segredou-lhe:
- Se nós não fizermos nada, o leão Augusto César vai acabar comendo (no bom sentido) a gente.
­- Que podemos fazer?  Perguntou o curioso tigre.
- Contra a força a força. Estou pensando em trazer para o nosso meio um animal de peso. Soube que no sul do Estado do Rio, acho que em Barra Mansa, tem um hipopótamo disponível.
- Já ouvi falar, o nome dele é Alvarez, mas será que ele vai querer vir para o Circo Teatro Rio Negro e Solimões? E, o mais difícil, será que o Big Boss vai aceitar?
- Vai vir sim. Ele gosta de circo. Quanto ao leão, vou pedir a Raposa Cremalina que, numa hora em que o bicho estiver mais calmo, ela fale da importância do Alvarez para o nosso circo.
- Você não teme que, no futuro, um “peso pesado” como o hipopótamo, possa ser uma ameaça para nós?
- De maneira nenhuma. Farei com que ele sempre me seja fiel.
- Fiel a você não quer dizer que seja bom para mim.
- Ora, meu amigo tigre, no futuro também eu serei sempre fiel a você.
        E assim, em um dia de sol, era uma quinta feira santa, Alvarez, o hipopótamo, foi apresentado ao leão Augusto César pela raposa Cremalina. Mesmo devidamente “amaciado” o leão não resistiu à oportunidade de mostrar para o neófito (5) toda força do seu poderoso urro. Vidraças partiram-se, o majestoso o retrato de sua realeza despencou da parede e Alvarez, paralisado pelo medo abriu sua imensa bocarra. O leão (mais burro que leão) pensou que ia ser engolido e tratou de consertar a lambança:
- Perdoe-me amigo, foi uma brincadeira boba!
Daquele dia em diante o poderoso leão passou a temer e respeitar Alvarez e, por tabela, também ao lobo Igor. Coisas da política, (digo da atividade circense) que nós pobres mortais não entendemos.
E, para comemorar a efeméride, num dia (era um sábado), a peça “O LEÃO O LOBO E O TIGRE” (a fábula do imortal Esopo “O LEÃO O URSO E A RAPOSA”, devidamente adaptada pelo lobo) foi lida por Alvarez, o hipopótamo, no palco montado junto às janelas que dão para o rio, no salão nobre da Cooperativa Agropecuária de Rio Negro, (digo do Circo Teatro Rio Negro e Solimões), para a alegria do povo que lotou (pela segunda vez) aquelas instalações:
O LEÃO O LOBO E O TIGRE
Um leão e um lobo capturaram um cervo (6), e disputavam sua posse em feroz luta. Após terem lutado e já muito feridos e fracos, eles caíram no chão completamente exaustos. Um tigre, que estava nas redondezas e a tudo observava a uma distância segura, vendo ambos estirados no chão, e o cervo andando entre eles, correu entre os dois, e agarrando o cervo desapareceu no meio do mato. O leão e o Lobo vendo aquilo, mas incapazes de impedir, disseram:
- Ai de nós, que nos ferimos um ao outro apenas para garantir o jantar do Tigre!
Moral da Estória:
Algumas vezes acontece de alguém ter todo trabalho pesado, e outro todo o lucro.
Pano rápido. O povo emocionado chora copiosamente. O pano levanta. Os aplausos explodem estrepitosamente. Sucesso absoluto! O “Circo Teatro Rio Negro e Solimões” ganhou um componente de peso.

Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura:
(1) Estrupício: s. m. motim, algazarra, alvoroço, conflito.
(2)  Charles Bukoviski:. Escritor e poeta nascido na Alemanha em 1920 e radicado nos EEUU onde morreu em 1994.
(3) Aboletado adj. : alojado.
(4) Encimado: adj. Posto em cima, colocado no alto.
(5) Neófito: adj. Indivíduo admitido a pouco em uma corporação.
(6) Cervo: s. m. Quadrúpede ruminante da família dos cérvidas.

6 - O FILHOTE DO RASPUTM (1)

        Quando os animais chegaram para mais uma jornada de trabalho no CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES, agora muito bem instalado no salão nobre da Cooperativa Agropecuária de Rio Negro, depararam com o leão Augusto César, sentado no meio fio da calçada, debaixo da marquise do armazém da Cooperativa, com sua juba toda desgrenhada e chorando como um bezerro desmamado.
- Que houve? Perguntou a preocupadíssima raposa Cremalina.
- Que houve dona Cremalina? Houve que fomos despejados! Aqui está o despacho do meritíssimo (ou seria da meritíssima). Bastou um maldito cooperado entrar com um mandato de segurança e... estamos na rua da amargura. Nessa hora o retrato do Dr. Alberto Espanha já deve estar no lugar do meu retrato.
- Talvez pudéssemos nos abrigar no salão paroquial. Afinal agora somos “sem teto”. Disse o tigre, que não é de mar, mas sim da Silva (digo da Selva).
- Nem pensar, respondeu a raposa Cremalina. Você talvez pudesse, mas da gente o abade não gosta!
- Êpa, que a hora não é de cizânia (2) - atalhou logo o lobo Igor - precisamos achar uma solução para o caso. Que tal se fossemos para a Santa Casa, é como se estivéssemos doentes.
- De jeito nenhum rugiu o tigre. Lá sou eu quem manda!
- Mandava murmurou baixinho o fuinha (3) Lwigui Keis, de modo que, felizmente, o tigre não escutou. (O fuinha era o ajudante de ordens do leão Augusto César, aliás, era também secretário, tesoureiro e eminência parda, enfim, um filhote do Rasputim, que só agora veio a aparecer nesta fabulosa fábula).
- Eu não tenho cabeça para mais nada choramingou o leão. Vocês decidem.
- É melhor ser omisso do que déspota (4) ou energúmeno (5), mas, eu tenho uma idéia disse Alvarez, o hipopótamo. O leão nada respondeu; primeiro por medo, depois por não conhecer o significado das palavras de Alvarez. Afinal ele poderia estar sendo até mesmo elogiado...
- Então? Indagou esperançosa a raposa.
- Eu não sou daqui, mas sei que o Sindicato dos Pires (digo dos Pratos) dispõe de um salão quase tão bom quanto este, do qual do qual fomos despejados.
- Desculpe - retrucou a raposa - mas não resisto o trocadilho, como alugar aquele salão se estamos de “Pires” na mão?
- E nem temos um lugar para encenar uma peça para angariar (6) fundos, emendou o lobo.
- Eu sei – disse o fuinha – faremos um leilão de gado já que isto aqui é moda. Qualquer coisa é motivo para leilão de gado: - Catapora, empresa falida, eleição, operação de estômago, hospital quebrado, caminhão rodado e até espinhela caída. Agora faremos um leilão para “circo despejado”.
- Muito bem - disseram em uníssono, todos os bichos.
       Assim, num dia (era um sábado), graças à boa vontade dos dirigentes do Clube do Cruzeiro, que emprestaram as dependências da agremiação para o evento e graças também ao coração caridoso dos pequenos criadores de gado (sempre os mesmos), foi efetuado com o maior sucesso o grandioso leilão de gado em benefício do CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES.
O fuinha Lwigui Keis contabilizou o lucro, naturalmente descontando seus costumeiros trinta por cento (uma vez que dez por cento é gorjeta de garçom) e providenciou logo o contrato (mais faturado que obra do Maluf) com o Sindicato dos Pratos. E o aluguel devido à Cooperativa? Hem? Não, minha querida leitora, do aluguel do salão nobre da cooperativa o infeliz nem ao menos se lembrou.
Dessa maneira toda a troupe do circo foi acomodada no salão do Sindicato dos Pires (digo dos Pratos) e todos ficaram muito felizes ensaiando mais uma fábula fabulosa do fabuloso Esopo que será devidamente apresentada na próxima edição deste vibrante hebdomadário (ou quase).

Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura:
(1)  Rasputim: Monge Russo que tratou da doença (hemofilia) do príncipe Aléxis no início do séc. XX. Ganhou grande influência sobre a família imperial dos Romanoff. Diz-se que contribuiu para a queda do Tzar Nicolau II, deposto e fuzilado pelos bolchevistas em 1917.
(2)  Cizânia: s.f. Desarmonia, rixa, discórdia.
(3) Fuinha: s.f. Pequeno carnívoro da família dos mustelídeos.
(4) Déspota: s. m. Senhor absoluto e arbitrário, tirano, opressor.
(5) Energúmeno: s. m. Endemoninhado, fanático, possesso.
(6) Angariar: v.t.d. Obter, pedindo a um e outro.

7 - A NOITE DO IGUANA

       O CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES, por enquanto muito bem instalado no salão do Sindicato dos Pires (digo dos Pratos), promoveu uma importante reunião para estabelecer premissas básicas e, porque não dizer, regras de civilidade para as eleições que, como já foi dito em uma fábula anterior, “vinham chegando como um arpão”. Conforme o estatuto do circo as eleições deviam acontecer a cada quatro anos. Resultante da última eleição havia um acordo entre o leão e o lobo para que o último fosse o primeiro, isto é, seria esta a vez do lobo.
A noite anterior ao dia da reunião foi a “noite do iguana” para todos os bichos do circo e também para os esquilos trabalhadores, (digo voadores) que, mesmo não pertencentes à troupe oficial, foram gentilmente convidados pelo leão, pois era sabido e havido que almejavam assumir (ao menos uma vez) o comando geral do espetáculo.
Aqui ouso abrir um parêntese para tentar explicar o que vem a ser a “noite do iguana” embora reconheça ser totalmente desnecessário, pois meu seleto grupo de 11 (onze) leitores pode me dar aulas sobre o assunto.
O iguana é um grande lagarto do gênero dos sáurios cuja carne é muito apreciada. Em Oaxaca, no México, os nativos têm o estranho hábito de, na véspera do dia do sacrifício, amarrar o bicho com uma corda pouco resistente. Não sei por quais desígnios o lagarto pressente que vai ser sacrificado e sabe que tem uma chance de escapar. Passa então sua última noite tentando arrebentar a corda e fugir. Dizem que é assustador o seu desespero. Fecha parêntese.
Deve ter sido mais ou menos assim para os bichos do circo:
       A noite do leão:
- “É verdade, fiz um acordo com o lobo, mas todo mundo sabe que acordo em política não vale nada nem que seja redigido com sangue, constando CPF, carteira de identidade e devidamente registrado em todos os cartórios da cidade. O povo me quer de novo. Posso ganhar fácil. Porque entregar a rapadura? Mas e se perder? Se o lobo se juntar com o tigre? Se hipopótamo me bater? E o emprego dos meus amigos?”?
A noite do lobo:
- “Se o leão não cumprir o acordo eu acabo com ele. Onde já se viu uma coisa dessas? Sou capaz até de fazer um acordo com o tigre para acabar com a raça do leão. Fui leal com ele, ele tem que ser leal comigo”.
A noite do tigre:
- “Será que o leão e o lobo vão seguir juntos? Se eles se separarem um dos dois (ou os dois) vão me procurar. Aí vai ser mole. Mas se não quiserem acordo comigo? E os e esquilos trabalhadores, (digo voadores) será que vão me apoiar como sempre fizeram? Será que consigo novos companheiros”.
A noite do fuinha:
- “Eu não posso perder esta mamata. Só a hipótese remota do leão seguir sozinho e ganhar é que salva o meu emprego. Qualquer outro, até mesmo o lobo, me bota no olho da rua. Estou frito”.
A noite da raposa:
- “O leão e o lobo não podem brigar. Ganhar eu ganho, mas como cumprir minhas promessas se um dos dois não ganhar? Como realizar minhas obras sem ajuda do chefe maior”?
A noite do tourinho:
- “Ah se o tigre ganhar recupero meu emprego. Ah, meu Deus que saudade daquele tempo bom”!
A noite do hipopótamo:
- “Vou obrigar o leão e o tigre a seguirem juntos. Eu vim para ganhar. Vale tudo menos perder”.
A noite dos esquilos:
- “Esquilinhos paz e amor nós vamos arrebentar! Acordo nem pensar”.
É, dizem que a “noite do iguana” é terrivelmente assustadora...

8 - QUI REFRESCAT...

      Eu imaginava que ninguém iria gastar seu precioso tempo lendo estas modestas e despretensiosas FÁBULAS FABULOSAS, frutos em parte da minha imaginação (diria doentia) e em parte da inspiração nas maravilhosas fábulas de Esopo, La Fontaine e Hans Christian Andersem.
Para minha surpresa descobri um leitor, depois outro e mais outro enfim cheguei ao fantástico número de 11 (onze) leitores “et pour cause” sinto-me na obrigação de fazer, para os retardatários, um pequeno resumo da estória (com “e” mesmo) que venho contando neste vibrante (quase) hebdomadário, que (quase) ninguém lê.
No princípio era apenas um cirquinho vagabundo, de lona furada, instalado na rua de baixo, próximo ao córrego que vem (ou vinha) do Morro da Safira, no tempo em que o Dr. Guilherme Espanha ainda não tinha loteado o referido morro nem construído o prédio do Curso Vocacional (já demolido) e o prédio do Sindicato Rural, hoje Sindicato dos Pratos, no Morro do Atalaia, atual Favela (digo Bairro) do Atalaia. O cirquinho tinha o pomposo nome de O CIRCO TEATRO RIO NEGRO.
        O dono do circo, um turco safado, trambiqueiro, mau pagador e, sobretudo burro, (enfim diferente em tudo do nosso turco), completamente endividado no Banco da Argentina, no Crédito-Ribeirão e também com mais meia dúzia de outros agiotas, fugiu para a localidade de Lagoa da Confusão, no norte de Goiás, hoje Estado do Tocantins.
Só ficaram no circo os poucos bichos do circo. Alguns amestrados outros nem tanto, mas, todos na pior das pindaíbas, passando fome mesmo. Lá estavam (pela ordem alfabética para não melindrar ninguém) o Burro, o Leão, o Lobo, e a Raposa. Os bichos fizeram então uma espécie de Cooperativa e passaram a encenar algumas fábulas do imortal Esopo para tentar manter viva a tradição circense e (principalmente) para comprar comida.
       O negócio deu tão certo que compraram lona nova, mudaram o nome do circo para CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES, contrataram novos artistas (também pela ordem alfabética) como os Esquilos Trabalhadores (digo Voadores), o Fuinha, o Hipopótamo, o Pingüim, o Tigre e o Tourinho.
Infelizmente, como em todos os negócios percalços ocorreram.
Multados pela Prefeitura por poluir o rio, foram obrigados a vender até a lona do circo. Conseguiram alugar o Salão nobre da Cooperativa de Rio Negro, mas não conseguiram pagar o aluguel. Foram despejados, fizeram um leilão de gado e... Glória suprema:- Conseguiram alugar o Salão do Sindicato dos Pratos.
       No momento os bichos do circo estão às voltas com as eleições que, conforme o estatuto do circo devem acontecer a cada quatro anos. Existem quatro grupos distintos. Um liderado pelo lobo que deve (ou deveria) ser apoiado pelo leão. Outro liderado pelo leão que deve (ou deveria) apoiar o lobo. Um terceiro liderado pelo tigre que, calmamente, espera para ver qual dos dois primeiros grupos (ou até mesmo os dois) que vai (ou vão) pular no seu colo. O quarto grupo é composto pelos esquilos trabalhadores (digo voadores) últimos a serem incorporados à troupe do circo, mas que querem ser os primeiros. Espero que o meu seleto grupo de 11 (onze) leitores tenha entendido essa confusão. Como? Não entenderam? Não se preocupem, é confuso mesmo. Só lá por julho é que vamos ter uma idéia mais clara sobre esta eleição. Aguardemos, pois!

9 - A QUASE CIZÂNIA (1)

        O CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES, ainda muito bem instalado no salão do Sindicato dos Pratos, e com o aluguel rigorosamente em dia, estava feèricamente (2) iluminado no dia da reunião (ou convenção). Tinha que ser assim, tudo bem às claras, para evitar os conluios (3).  Aliás, a noite anterior, a tal NOITE DO IGUANA, fora cheia de falácias (4). O Lobo Igor falara biblicamente citando até capítulo e versículo: - “Melhor é morar no campo do eirado (5), do que com a mulher rixosa, numa casa ampla. Provérbios 25, 24”.  O Leão havia copiado o falecido Collor de Melo dizendo para quem quisesse ouvir:- “Não passarão! Vou ser candidato duela (6) a quem duela.” O fuinha havia tido um enfarto e estava internado no CTI (Canto Tenebroso Interno) da Casa Santa. Todos os candidatos renunciaram em favor do Tigre. O Tigre renunciou em favor dos Esquilos Voadores. Os Esquilos voadores pularam no colo do Leão. O Tigre e o Lobo foram devorados pelo Leão. O Tigre arregimentou (7) o lobo Rogi (8), (irmão do lobo Igor), portanto originário da mesma alcatéia (9).
Tudo, excetuando-se a estória do Lobo Rogi, besteirol puro! Tudo mentira! Tudo apenas falácias para amenizar a terrível tensão da NOITE DO IGUANA!
       Na hora da reunião (digo convenção), cessou-se a cizânia e a VERDADE apareceu clara e cristalina como água de regato (naturalmente tratada na ETA da Fazenda da Grama) com a ajuda, imprescindível, do hipopótamo que abrindo sua terrível bocarra acabou de vez com as pretensões do Leão.
Dessa maneira aprontaram-se na linha de partida, para a grande corrida atrás da cadela da sorte, (por ordem alfabética para não melindrar ninguém), os seguintes grupos:
1 -   ESQUILOS VOADORES (digo trabalhadores) apoiados apenas nas asas dos seus sonhos.
2 -   LOBO IGOR apoiado pelo Leão (meio a contragosto), pela Raposa, pelo Hipopótamo (com muito gosto), e pelos Camaleões (10) do grupo arco-íris. 
3 -   TIGRE (que não É de mar, mas sim da Silva, digo da selva) apoiado pelo Lobo Rogi, pelo Sindicato dos Pratos e pelos camaleões do grupo arco-da-velha (11).
Finda a reunião (digo convenção), a Raposa, emocionadíssima, pediu a palavra, pela ordem, e leu para os presentes, assim como uma espécie de aviso, a Fábula do imortal Esopo, “O CABREIRO E AS CABRAS”:
- Certo Cabreiro reparou que algumas cabras selvagens acompanhavam as cabras domésticas que ele apascentava.
Chegada a noite, levou todas a sua gruta. Na manhã seguinte caiu uma forte tormenta (12) e não podendo levá-las ao campo cuidou lá mesmo. Porém, enquanto dava a suas próprias cabras um punhado de forragem, às selvagens servia muito mais, com o propósito de ficar com elas.
        Terminou por fim o mau tempo, e saíram todas ao campo, porém as cabras selvagens escaparam para a montanha. Acusou-as o pastor de ingratas, por abandoná-lo depois de tê-las atendido tão bem, mas elas lhe responderam:
- Maior razão para desconfiar de ti, porque se a nós, recém chegadas, nos tratou melhor que as tuas velhas e leais escravas, significa isto que se logo vierem outras cabras, tu nos depreciarias por elas.
Moral da Estória: - Nunca confies em quem troca uma amizade antiga por uma nova.
Os aplausos ecoaram por mais de 20 minutos após o que todos foram, felizes e satisfeitos, para suas casas.

Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura:
(1)   Cizânia: - Desarmonia, rixa.
(2)   Feèricamente: - Maravilhosamente.
(3)   Conluios: - Combinações entre duas ou mais pessoas para prejudicarem outrem
(4)   Falácias: - Falatórios.
(5)   Eirado: - Espaço descoberto sobre uma casa.
(6)   Duela: - (Castelhano), doa.
(7)   Arregimentou: - Alistou, associou.
(8)   Rogi: - Anagrama de Igor.
(9)   Alcatéia: - Bando de lobos
(10) Camaleões: - Nome de um gênero de sáurios capaz de mudar de cor camuflando-se de acordo com o meio ambiente ou com seus interesses.
(11) Arco-da-velha: - O mesmo que arco-íris
(12) Tormenta: - Temporal violento

10 - A HORA E A VEZ DO “AMARRA-CACHORRO”

       Enquanto os ungidos (1) disparam atrás da cadela da sorte (ou atrás dos leilões de gado) a vida segue. O show não pode parar. Ah sim, e os problemas continuam acumulando. O Leão, coitado, praticamente mais um desempregado (meu Deus, um não, mais 301 desempregados nesta Pátria amada) não sabe se tenta resolver ou se joga logo a toalha. O maior problema é o arranjado pelo Tatu Canastra, um dos “Amarra-Cachorros” do Circo Teatro Rio Negro e Solimões. Ah, minha querida professora, você não sabe o que são “Amarra-Cachorros”? Vou explicar:- São os que ajudam a montar e desmontar o circo, que tratam dos animais, que limpam as privadas, enfim, imprescindíveis para o espetáculo. O Tatu Canastra é um Senhor “Amarra-Cachorro”, Ele é tão bom que, diferentemente dos outros, tem uma tarefa bem definida. Ë o operador do trator de esteira, aliás, um excelente operador. Profissional de ilibada (2) carreira, é muito respeitado e amado por todos os colegas e artistas do circo. Sendo assim onde está o problema do atormentado Leão? Sua pergunta procede, minha querida professora. Mais uma vez vou explicar:- Acontece que nas horas vagas (ou até mesmo em horas ocupadas) o Tatu Canastra, com máquina do circo, com o óleo do circo, presta serviços para a comunidade. Mas isso é muito bom, ajudar os necessitados não faz mal a ninguém! Seria querida professora, seria se ele não cobrasse. Alega que ganha pouco no circo e que precisa cobrar para melhorar o seu salário. E cobra caro. “Por menos de R$100,00 (cem reais) não saio de casa” justifica ele a cobrança. Observe bem querida professora, que não se trata de uma gorjeta, de um agrado do tipo “dá o que você quiser ou puder”, é cobrança mesmo assim sutil como carreta de dezesseis rodas: - “Cadê o dinheiro do Tatu Canastra”?
         O Leão sentindo-se incapaz de resolver o problema promoveu uma reunião com o estado maior do circo.
- Você tem que acabar com essa vergonha, atacou o Tigre.
- Essa vergonha vem do seu tempo, respondeu o Lobo Igor, em defesa do Leão.
- Não era bem assim, retrucou o lobo Rogi, defendendo o Tigre.
- O Tatu Canastra é um operário mal remunerado ponderaram (3) em uníssono (4) os esquilos voadores defendendo, como sempre, a classe trabalhadora.
- Se o Tatu Canastra ganha pouco que procure outro emprego, disse o hipopótamo, para firmar sua presença.
- E quando a máquina quebra quem paga o conserto, perguntou a Raposa.
- Na minha vez não vou deixar que isto aconteça, assegurou o Lobo Igor.
- Eu tenho a solução, acudiu o Fuinha sempre muito prático. Nós faremos uma tabela contendo os preços a serem cobrados, levando em conta todos os insumos (óleo, operador, manutenção, inclusive os meus 30%), organizaremos uma escala de prioridades (amigos em primeiro lugar) e dividiremos o lucro entre nós.
Ah, minha querida Professora, acabou a reunião nesse ponto, pois sendo todos os bichos honestos, íntegros (5) e probos (6) caíram de pau no inocente Fuinha por apresentar uma proposta tão estapafúrdia (7), ficando o problema a ser resolvido na próxima gestão pelo ungido que conseguir alcançar a cadela da sorte.
Mas, querida Professora, saiba você que o Fuinha não deixava de ter certa dose de razão. Poderíamos até citar Stanislaw Ponte Preta, o saudoso Sérgio Porto (8), que para ridicularizar situações como esta dizia:
- OU RESTAURE-SE A MORALIDADE OU LOCUPLETEMO-NOS (9) TODOS.

Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura
(1) Ungir: - Investir em autoridade ou dignidade.
(2)Ilibada: - Sem mancha; limpa.
(3) Ponderar:- Alegar; observar.
(4) Uníssono:- Concomitância de sons de igual altura.
(5)  Íntegro: - Completo; perfeito; inatacável.
(6) Probo: - Justo; honrado.
(7) Estapafúrdia:- Extravagante; esquisita; excêntrica.
(8) Sérgio Porto: - Jornalista, cronista, humorista, escritor, inventor do FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que assola o País). Usava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Ah que falta nos faz! No próximo número, se Deus quiser e o Bijona deixar, o CTRNS vai apresentar uma de suas fábulas intitulada “ÖS DOIS LEÕES”.
(9) Locupletar:- Enriquecer-se; encher-se; saciar-se; fartar-se.

11 - OS DOIS LEÕES

       Respeitável público (digo 26 leitores):    
- O CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES - CTRNS, por enquanto ainda muito bem instalado no salão do Sindicato dos Pratos, e com o aluguel rigorosamente em dia, tem o prazer, o orgulho e a satisfação de apresentar a sensacional, a maravilhosa, a incomparável “Fábula dos Dois Leões”, criação do imortal Stanislaw Ponte Preta (1), devidamente adaptada pelo Tigre a estes modernos tempos de aldeia global, já previstos por McLuhan (2). No papel de um dos Leões o próprio, no do outro um dos Lobos (tanto faz uma vez que lobo é lobo até em pele de carneiro) do CTRNS. Esperamos que seja para o gáudio (3) de muitos e desespero de poucos.
OS DOIS LEÕES
Diz que eram dois leões que fugiram de um Circo, que estava instalado na rua de Baixo, na cidade de Rio Negro. Na hora da fuga cada um tomou um rumo, para despistar os perseguidores. Um dos leões foi para as matas da Serra do Funileiro e outro foi para a Rua de Cima, no centro da cidade. Procuraram os leões de todo jeito, mas ninguém encontrou. Tinham sumido, que nem o salário mínimo do bolso do trabalhador.
Vai daí, depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o que fugira para as matas da Serra do Funileiro. Voltou magro, faminto e alquebrado (4). Foi preciso pedir a um deputado que arranjasse vaga para ele no Circo, porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão carcomido (5) assim. E, como deputado arranja sempre colocação para quem não interessa colocar, o leão foi reconduzido à sua jaula.
Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrava do leão que fugira para Rua de Cima no centro da cidade, lá um dia, o bruto foi recapturado. Voltou para Circo gordo, sadio, vendendo saúde. Apresentava aquele ar próspero do hipopótamo, (ou Peso Pesado conforme o Bijona quiser) que para certas coisas, também é leão.
Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para as matas da Serra do Funileiro disse pro coleginha:
— Puxa, rapaz, como é que você conseguiu ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com essa saúde? Eu, que fugi para as matas da Serra do Funileiro, tive que pedir arrêglo (6), porque quase não encontrava o que comer, e vivia correndo dos cachorros dos desgraçados caçadores de paca (e como tem caçador de paca!), como é então que você... vá, diz como foi.
O outro leão então explicou:
— Eu meti os peitos e fui me esconder no prédio da Prefeitura de Rio Negro. Cada dia eu comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.
       E por que voltou pra cá? Tinham acabado os funcionários?
Nada disso. O que não acaba nunca são funcionários naquela Prefeitura. É que eu cometi um erro gravíssimo. Comi um Secretário, idem um Vereador, uma porção de Enfermeiros, um montão de “Amarra-Cachorros”, funcionários diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho... me apanharam.
O Respeitável público (digo 26 leitores) aplaudiu de pé (7) por mais de duas horas. Também, pudera, para uma fábula, criação do imortal Stanislaw Ponte Preta, foi até pouco.
Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura:

(1)   Stanislaw Ponte Preta: - Pseudônimo de Sérgio Porto. (V/ FÁBULA FABULOSA 10)
(2)   McLuhan: - Professor e Pensador Canadense (1911/1980) que profetizou o poder da mídia nos tempos modernos.
(3)   Gáudio: - Júbilo; folgança; troça alegre.
(4)   Alquebrado: - Fraco; abatido.
(5)   Carcomido: - Gasto; minado; desfeito.
(6)   Arreglar: - Ajustar alguma coisa com alguém.
(7)   Aplaudiu de pé: - Não tirou o pé para aplaudir.
(8)   Bronze: - Para se eleger, um Vereador necessita ganhar medalha de ouro.

12 - A CONSULTORIA DO LEÃO DESEMPREGADO – CLD

       A situação do outrora todo poderoso Leão indubitavelmente não era das melhores. Se ficasse o bicho matava, se corresse o bicho pegava, se juntasse com o outro o bicho comia os dois. Quase um desempregado (ele mais outros trezentos), parecia ter chegado ao final de sua carreira. “Dura coisa é recalcitrares (1) contra os aguilhões (2)”. (Atos 26:14). Sim, minha querida Professora, nestes últimos dias à frente do CIRCO TEATRO RIO NEGRO E SOLIMÕES – CTRNS, o Leão vivia lendo a Bíblia. Foi assim que, tal qual Fênix (3) o Leão começou a ressurgir das cinzas quando, num laivo (ou seria resquício) de lucidez, teve a idéia esplendorosa de criar a CONSULTORIA DO LEÃO DESEMPREGADO – CLD.                   
A CLD seria sua tábua de salvação. Manteria uma ocupação e em conseqüência uma fonte de renda. Evitava o ostracismo (4) e possibilitava manter as esperanças para outras eleições.
       Ainda com plenos poderes conferidos pelo seu mandato (digo reinado) o Leão tratou de dar vida a CLD. Ela deveria funcionar nas dependências do CTRNS como uma espécie de subsidiária. Porque nas dependências do CTRNS? Ah, minha querida Professora, porque o CTRNS, apesar de instalado provisoriamente no salão do Sindicato dos Pratos, (que é território no mínimo suspeito), por estar com o aluguel rigorosamente em dia e também por não dever nada a ninguém, nestes dias de Comícios, Showmícios, e Leilões de Gado é o único território realmente livre e democrático no vale do Rio Negro.
E assim foi criada a CLD com seu estatuto estabelecendo no primeiro parágrafo que a presidência deveria ser ocupada pelo Leão, em caráter vitalício. Depois é que vinha àquelas coisas de pouca importância tais como melhoria contínua da qualidade dos serviços prestados através de inovação tecnológica e aperfeiçoamento dos recursos humanos, buscar constantemente atender às necessidades dos clientes em todos os relacionamentos e serviços prestados etc. Claro que levou o Fuinha para Tesoureiro e Secretário Raticular (digo Particular).
         Para testar sua influência o Leão convocou os bichos do CTRNS bem como os Amarra-Cachorros e simpatizantes para sua primeira, digamos, “consulta” onde ele tencionava ensinar a todos como deviam votar nas eleições que se avizinhavam.
Todos compareceram, pois sendo o Leão (ainda) rei e quem é rei (mesmo desempregado) jamais perde a majestade. Na hora aprazada o majestoso Leão deitou sua fala para uma platéia educada, atenta e ávida pelos seus conselhos e/ou ensinamentos:
- Meus amigos estas palavras não são minhas.  São do sábio Esopo (5), através do não menos sábio Aristóteles (6). Na realidade quero que vocês entendam o que vou dizer como se fosse uma parábola (7) (ele realmente andava lendo a Bíblia). Aristóteles relatou, em 330 AC, como Esopo defendeu um político corrupto ao contar a estória da raposa e o ouriço. Uma raposa - disse Esopo - estava sendo atormentada por pulgas e um ouriço perguntou se poderia ajudar a removê-las. A raposa respondeu: “Não, essas pulgas estão cheias e já não sugam tanto sangue. Se você tirá-las, novas e famintas pulgas virão”. “Então, cavalheiros do júri” - Esopo teria dito - “se vocês condenarem meu cliente à morte, outros virão que não são tão ricos e irão roubá-los completamente”.
Todos entenderam perfeitamente o recado do Leão. Agora sabiam em quem votar. A sua consultoria estava destinada ao sucesso. Aplaudiram até a exaustão e depois foram para suas casas rezando baixinho para não tropeçarem em nenhum leitãozinho desavisado, ou numa cesta básica perdida por algum incauto, ou até mesmo numa perigosa nota de cinqüenta reais...

Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura:
(1)   Recalcitrar: - Insurgir-se; Revoltar-se.
(2)   Aguilhão:- ponta de ferro; ferrão.
(3)   Fênix:- Na mitologia grega, ave fabulosa que era única na sua espécie. Quando sentia avizinhar-se a morte, construía um ninho de plantas aromáticas, que os raios do Sol incendiavam, e nele se deixava consumir. Da medula dos ossos nascia então um verme que se transformava em outro fênix.
(4)   Ostracismo:- Desterro por dez anos, a que eram condenados os Atenienses por crimes políticos; Esquecimento.
(5)   Esopo:- Escritor grego viveu no séc. VI a.C.
(6)   Aristóteles:- Filósofo grego viveu no séc. IV a.C.
(7)   Parábola: - Alegoria que encerra doutrina moral.

13 - A VÍBORA E O ELEFANTE

       Minha querida professora, você deve lembrar muito bem das apreensões do nosso querido e majestoso Leão, nos tempos que já vão longe, quando as eleições “vinham chegando como um arpão”. Pois bem, elas vieram e passaram. Habemos Papam, (1). O Circo Teatro Rio Negro e Solimões - CTRNS tem um novo Big Boss (2). Disparam os homens atrás da cadela da sorte a vida inteira. Do nascimento até a morte, disparam os homens atrás da cadela da sorte. Cavaleiros Templários (3) atrás do Santo Graal (4). Indiana Jones atrás da Arca perdida. A bola em busca da búlica. Alguns poucos, talvez os ungidos do Senhor, conseguem alcançá-la.
Nessa corrida apenas o ouro tem valor. Não existem medalhas de prata nem de bronze. Aut Caesar aut nihil (5). Somente os eleitos conseguem alcançar a cadela da sorte.  Aos perdedores resta tão somente lamber as feridas, e tentar arranjar um outro emprego. Todos? Nem todos, minha doce professora, nem todos! Nosso querido e majestoso Leão está com seu burrico na sombra. É o presidente vitalício da CLD - CONSULTORIA DO LEÃO DESEMPREGADO que, como é do seu conhecimento, funciona nas dependências do CTRNS, como uma espécie de subsidiária.
        Em assim sendo, para firmar definitivamente sua presença, o Leão convocou os bichos, bem como os Amarra-Cachorros e simpatizantes, para uma palestra onde ele pretendia não só analisar os resultados das eleições, mas também “deitar cátedra” (6) para os vencedores e perdedores.
Assim, num dia (era um sábado), todos os bichos reunidos na CLD deleitaram-se com as sábias palavras do Leão que, humildemente, ousamos aqui reproduzir:
      - Meus amigos como disse São Paulo (Atos 26:14) “Dura coisa é recalcitrares (7) contra os aguilhões” (desde a fundação da CLD ele não largava a Bíblia nem para dormir). Uma coisa qualquer, se mexer, pertence à Biologia. Se feder, pertence à Química.  Se não funcionar, pertence à Física. Se ninguém entende, é Matemática. Se não faz sentido, é Economia ou Psicologia. Se não mexe, não fede, não funciona, ninguém entende e não faz sentido, então é a Política. Como explicar que o Lobo Igor, mesmo empurrado por trinta e dois ajudantes, quase perdeu?  Porque o hipopótamo (ou Peso Pesado conforme o Bijona, nosso bom e nobre editor, quiser) é muito peso para ele arrastar ou porque o Tigre tinha muito mais cacife do que se imaginava ou ainda o Lobo Rogi ajudou muito mais do se esperava? Tem gente até dizendo que, vejam vocês, não ajudei como devia. A Raposa perde para espanto até mesmo do seu concorrente direto. Os Esquilos voadores não pagaram nem o placê (8). Alguém pode explicar uma coisa dessas?  Ninguém explica, entende ou acha sentido. É a Política. É o imponderável (9). Por isso informo ao distinto público que estou me retirando da vida pública. De agora em diante só darei consultoria sobre MELHORIA CONTÍNUA DA QUALIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS ATRAVÉS DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA E APERFEIÇOAMENTO DOS RECURSOS HUMANOS.          Après moi le déluge (10). Depois de mim o Delúbio (11), como poderia traduzir nosso amado Presidente Lula. Agora quero apenas ver o circo pegar fogo. Literalmente. Adios muchachos (12)!!!
Finda esta arenga (13) o Leão retirou-se para seu ostracismo (14) voluntário. Ah, minha querida professora, houve então, entre os presentes, um grande constrangimento. Alguns choravam, outros aplaudiam, muitos rasgaram suas vestes. Uma cena deplorável
Na porta de saída o Fuinha, secretário raticular (digo particular) do Leão entregou, para cada um dos participantes, uma espécie de “santinho” (destes que os políticos popularizaram) contendo uma fábula da lavra do seu chefe.
A VÍBORA E O ELEFANTE
Uma víbora vendo que o elefante se preparava para vadear (15) um caudaloso rio pediu, com a maior humildade, que a levasse em seu dorso (14). Ele, conhecendo bem a fama da víbora, disse que não, pois ela poderia picá-lo durante a travessia.
- Como picá-lo? Só se fosse burra ou louca, pois assim morreria afogada.
Convencido pela argumentação o elefante levou o réptil consigo. Bem no meio do rio a víbora inoculou (15) seu poderoso veneno na nuca do elefante. No estertor (16) da morte ele ainda teve forças para dizer:
- Porque você fez esta maldade? Não sabe que também vai morrer?
- Que fazer, esta é a minha natureza! Retrucou o ofídio.
MORAL DA HITÓRIA: - UMA VÍBORA É, E SEMPRE SERÁ, UMA VÍBORA.
Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura
Desta vez não vou explicar nada. As expressões estrangeiras qualquer universitário do Silvio Santos (ou das Faculdades de Valença) traduz com a maior facilidade. Quanto às palavras que não são do conhecimento do meu seleto grupo de 26 leitores recomendo o uso do velho e bom dicionário. Com medo de perder o trocadilho (infame) vou abrir uma exceção para: (11) Delúbio: - sobrenome do tesoureiro do Partido dos Trabalhadores.

14 - APOCALIPSE NOW

      O Circo Teatro Rio Negro e Solimões – CTRNS já era. É, o circo pegou fogo. Kaput. Consumatum est. Finito. Que Deus o tenha.
Curto-circuito, sabotagem, combustão espontânea, Terroristas da al Qaeda, podem escolher. A verdade, a verdade mesmo nós nunca saberemos. Uma coisa, no entanto, é correta. O Leão é um profeta. Todos lembram muito bem as suas palavras: - “Agora quero apenas ver o circo pegar fogo. Literalmente”.  Pois bem, ele viu.
Não, não pensem besteiras. Ele é inocente. Apesar de ter sido visto tocando harpa e entoando cânticos de guerra, exatamente como Nero durante o incêndio de Roma, ele é inocente. Apenas teve, digamos, uma premonição. Deu uma de pitonisa e acertou.
       O incêndio não poderia ter vindo em pior hora. Foi uma lástima. Logo agora que o Lobo havia conseguido adquirir uma lona nova e montado o circo na Rua de Baixo, livrando-se, portanto, do escorchante aluguel cobrado pelo Sindicato dos Pratos, acontece uma tragédia dessas. Foi terrível. As labaredas crepitavam, o hipopótamo passava por cima de quem corria na sua frente. Uma cena dantesca. Os bichos e amarra-cachorros corriam, gritavam e choravam (não exatamente nesta ordem) enquanto o Leão tocava a harpa e tentava impor seus urros (cânticos?) sobre a balbúrdia. APOCALIPSE NOW. Francis Ford Coppola e Marlon Brando ao vivo e em cores.
        Felizmente entre mortos e feridos salvaram-se todos. O IBAMA agiu com presteza e eficiência. Mandou recolher todos os bichos para, após a devida readaptação, serem devolvidos ao seu “habitat” natural. Assim os Esquilos Voadores foram para as florestas do Canadá, o Tourinho Gwilmar para as pastagens verdejantes do Mato Grosso, a Raposa para os bosques cinzentos da Grã-Bretanha, os Lobos para as montanhas rochosas nos EEUU, o Hipopótamo para os pântanos de Barra Mansa. Enfim cada qual no seu no seu cada qual. Apenas três animais lograram escapar dos bem treinados técnicos do IBAMA:
- O Leão por ser presidente vitalício da CLD.
- O Tigre, através de tráfego de influência de sua veneranda tia, que domina com perfeição o idioma francês, conseguiu arranjar uma vaguinha no Cirque du Soleil e agora, pasmem, está morando Quebec, no Canadá. (É interessante notar que o Tigre e os Esquilos Voadores seguindo caminhos diferentes foram, coincidentemente, dar com os costados no Canadá. Pode até ser que um dia, quem sabe, voltem juntos de lá).
- O Fuinha espertamente conseguiu escapar dos técnicos do IBAMA, mas coitado, foi morto pelos caçadores de peles. Infelizmente, por ocasião da publicação deste vibrante (quase) hebdomadário já faz parte do casaco de peles de uma deslumbrada qualquer. 
E assim se conta esta história, que é do povo a maior glória. E a vida segue enquanto os ungidos vão “colhendo os frutos da boa semeadura do passado e da correta jardinagem do presente” como disse nosso mamado (digo amado) ex-presidente FHC.

Enriqueça seu vocabulário ou FRASME é cultura:
Desta vez também não vou explicar nada. As expressões estrangeiras qualquer vereador eleito, da cidade de Porciúncula, traduz com a maior facilidade uma vez que todos têm boa escolaridade e muita cultura. Quanto às palavras que não são do conhecimento do meu seleto grupo de 26 leitores recomendo a consulta aos vereadores de Ivaiporã, todos léxicos de alto gabarito.

15 - O RETORNO DA BICHARADA
 
O Circo Teatro Rio Negro e Solimões – CTRNS já era. É, o circo pegou fogo e isto lá se vão quatro longos anos. Como devem lembrar-se os meus fiéis, seletos e inteligentes leitores (pena sejam tão somente dezessete) todos os bichos, “entre mortos e feridos salvaram-se todos” (1), mas, infelizmente, foram condenados a um degradante ostracismo. Mas, como tudo na vida tem um fim, um belo dia - era um sábado de sol - assim, como atendendo um chamado de São Francisco de Assis (2), retornaram todos a nossa eterna, amada e linda  Floresta Encantada.
O Tigre, que estava fazendo um bico no Cirque du Soleil, no Canadá chegou trazendo a reboque os esquilos voadores que durante este tempo todo estiveram escondidos nas florestas geladas daquele país.
O hipopótamo, que estava escondido nos pantanais de Barra Mansa, chegou trazendo uma grande mala cheia de dólares americanos (3)
O Lobo saiu de sua toca nas montanhas rochosas dos EEUU e chegou “trepado” em uma imponente caminhonete Land Rover (4) .
O Leão abandonou presidência da  CLD (consultoria do leão desempregado) para juntar-se aos seus, digamos, pares.
E assim todos os bichos, que faziam parte da antiga troupe do Circo Teatro Rio Negro e Solimões,  saíram das negras sendas do ostracismo (5) e vieram para a grande reunião. Sim, chegaram justamente no dia da grande reunião que acontecia, rotineiramente, a cada quatro anos para a escolha dos candidatos a REI desta feliz floresta encantada..
Ainda no paddock (6), já na abertura dos trabalhos a Raposa, mais felpuda ainda depois da estadia involuntária nos  bosques cinzentos da Grã-Bretanha, propôs fossem feitas as devidas alianças  para escolher os candidatos. Segundo ela, não haveria alternativa, pois “se corressem o bicho pegava mas, se juntassem o bicho corria” (7).
Os esquilos, sem o menor escrúpulo, trataram logo de pular no colo do tigre. Afinal viveram juntos no Canadá os dias negros do ostracismo.
O Leão exibindo, orgulhoso, uma pesquisa de opinião pública que lhe conferia 45% da preferência popular, não quis sequer falar no assunto.
Os demais bichos passaram a trocar impropérios, de maneira que não houve a menor possibilidade de alianças. 
E assim , no frigir dos ovos, aprontaram-se para a grande corrida atrás da cadela da sorte, em ordem alfabética para não melindrar ninguém, os seguintes líderes grupais: - Caxinguelê, Leão, Lobo, Tamanduá, Tigre.
A Raposa deu por encerrados os trabalhos e, apesar de demonstrar claramente a sua decepção pelo desenrolar dos acontecimentos, desejou boa sorte a todos os candidatos.
Neste momento o Burro, que além de burro era meio surdo e não entendeu trufas nem chufas do que ali havia ocorrido, perguntou bem baixinho para a Raposa:
- Para quando mesmo que foi marcada a posse do Tigre???
Notas esclarecedoras (pretensas) ou FRASME é cultura:

  1. Ver fábula APOCALIPSE NOW publicada pelo jornal “AQUI”, número 37, em dezembro de 2004.
  2. São Francisco, o “pobrezinho de Assis”, tinha o miraculoso dom de conversar com os bichos.Se fosse esperto mesmo seriam Euros, já que o dólar virou “ouro dos tolos”.
  3. Só Deus sabe em quais falcatruas se meteu para poder comprar a tal caminhonete.
  4. Desterro estabelecido pelos Atenienses, por tempo determinado, e que não acarretava o confisco dos bens.
  5. Recinto dos hipódromos onde ficam os cavalos antes da largada.
  6. Na opinião do sorumbático e pessimista Burro se juntassem era muito mais provável que o bicho comesse os dois

16 - O SOLILÓQUIO DA RAPOSA

“O pensamento é uma coisa à-toa mas como é que a gente voa quando começa a pensar” Este versinho (ou versão) serve como uma luva  para a presente situação da felpuda Raposa.  Arrependidíssima de ter aberto mão de sua candidatura à Câmara dos Comuns e ainda pasma pela resistência dos candidatos a qualquer coligação, desgraçou a pensar. Para que seus pensamentos não “voassem à-toa ” tratou de colocar no papel  (para a posteridade) o seguinte solilóquio (1):

  • Aqui na floresta encantada temos cerca de cinco mil votos. O Lobo (2) sozinho, na eleição anterior, demonstrou sua força com aproximadamente mil e oitocentos votos. Agora, considerando que seus votos são mais ou menos “cativos” e com os esquilos a seu lado sua votação, é bem provável, atingirá a casa dos dois mil e trezentos votos. Dessa maneira sobrariam uns dois mil e setecentos votos para os outros quatro candidatos. Imagino que o Leão e o Tigrão consigam a “expressiva” votação de quatrocentos sufrágios (3). Neste caso sobrariam, apenas, dois mil e trezentos votos para o Caxinguelê e o Tamanduá. Ora, se um deles tiver pelo menos um voto o outro ficaria com um mil e duzentos e noventa e nove votos, perdendo, fatalmente, para o Lobão(4).
  • Eu, que sou mais boba, sei disso então o que estaria levando o esperto Caxinguelê a cometer esse, digamos, “suicídio eleitoral”? Ora, é simples. Primeiro porque matemática é matemática, eleição é eleição e uma coisa nada tem a haver com a outra. Depois, estou lembrada de que ele, o “Lobão”, em um passado ainda bem recente, perdeu uma eleição para um outro concorrente, de certa maneira até mais fraco do que o caxinguelê. Por outro lado o Caxinguelê conseguiu uma boa votação para dois ou três deputados eleitos. Então deve vir por aí uma gorda verba para a campanha. Dinheirinho bom e certamente “não contabilizado”. Mas esta verba só viria se ele fosse candidato. Então, com a grana na mão (ou no bolso) ele poderia renunciar a favor do Tamanduá ou quem sabe até mesmo a comprar a renúncia do bicho. Dessa maneira teria até uma pequena chance de ganhar do Lobão.
  • E o Tamanduá, o que motivaria a resistência do Tamanduá? Também essa é simples. Se acontecesse a coligação o Tamanduá herdaria toda a rejeição que persegue o infeliz Caxinguelê. E mais, como sabia da verba dos deputados talvez esteja esperando que sobre alguma coisa para ele. Afinal o sol nasce para todos, mas a sombra é sempre para os mais espertos.
  • Porque a candidatura (natimorta) do Hipopótamo (ou Peso Pesado conforme o Bajonas quiser), a câmara dos comuns, nem com todo poder da mídia (5), foi capaz de decolar, apesar do sistema de cotas (6) e de todas prerrogativas de sua afro-descendência? Ah isso não tem mesmo explicação a não ser que os Esquilos Voadores temessem o surgimento de um Barack  Ojonas nestas paragens.
  • O Bagre Africano, (ah desgraçado) também usufruindo do sistema de cotas, graças a sua, também, a afro-descendência, acabou único e exclusivo herdeiro de um belo quinhão da floresta encantada . Maldita seja a hora da desistência do Tourinho e, meu Deus, onde eu estava com a cabeça quando abri mão da minha candidatura?
  • E o Leão e o Tigre? O que os estaria motivando? Picuinha, ambição besta, vaidade pura, doce ilusão, inocência desmedida, esperteza oculta. Ë, é  impossível fazer qualquer conjectura de quem é capaz de imaginar valer a pena tirar leite de vaca morta.

Quando terminou suas anotações, pegou o solilóquio e levou para o Burro dar uma “espiadinha”.
O Burro, que além de burro era meio míope, depois de ler (ou tentar ler) e não entender nada de  nada, para espanto e arrependimento da Raposa, perguntou inocentemente:
- Para quando mesmo que marcaram a posse do Lobo?

Notas esclarecedoras (pretensas) ou FRASME é cultura:
1 Solilóquio: - Mesma coisa que monólogo
2 Temendo possíveis represálias, os nomes dos bichos, nesta fábula, foram espertamente embaralhados pelo editor deste jornal, objetivando evitar qualquer semelhança com pessoas, coisas ou fatos do mundo real
3 Sufrágio: - Voto; votação; ato de piedade ou oração pelos mortos.
4 Tigrão, Lobão, Leão, ...  Tudo no aumentativo para não melindrar ninguém.
5 O Hipopótamo era diretor proprietário de um jornal que, vez por outra, circulava pela floresta encantada
6 Pelo sistema de “cotas”, por causa da afro-descendência, muitos entram nas universidades. O mesmo sistema poderia e deveria ser utilizado na política.

17 - AS  O O O...LIM LIM LIM ....PÍADAS DA FLORESTA ENCANTADA


       A felpuda Raposa via na televisão o noticiário das Olimpíadas de Pequim quando teve a feliz idéia de, também na.floresta encantada, organizar uma Olimpíada que pudesse ficar para a história.
Se lá na China (que é longe como “lá na China”) dá o maior ibope, aqui (que é aqui mesmo) vai ser um sucesso. Cantarolando a música do grande Lupicínio Rodrigues “felicidade foi embora e a saudade no meu peito inda mora”, naturalmente em homenagem aos bons tempos em que o Leão era o “todo poderoso” da floresta e ela era assim uma espécie de seu primeiro ministro, tratou logo de tomar seus providenciamentos.
Pegou o telefone rural e ligou para o Lobão convidando-o para uma reunião no sábado seguinte. Claro que não ligou para mais ninguém, sabedora que todos ouviam a sua conversa. A telefonia rural tem essa vantagem, era como se tivesse anunciado no “alto-falante” do vendedor de móveis da floresta. Teve apenas o cuidado de arrematar a conversa com: “Ah, sim, todos os demais bichos considerem-se convidados”.
        O tal sábado da reunião, é claro, (sem nenhum trocadilho) era de sol. Tinha que ser de sol, pois se de chuva fosse nenhum bicho poderia ir, tendo em vista o estado miserável em que se encontravam todas as estradas da floresta, não só pelo abandono e descalabro dos responsáveis, como também pelo estrago das grandes carretas dos madereiros fantasmas.
Quando a raposa “vendeu” a idéia, o Tigrão foi o primeiro a se manifestar:
- É até bobagem fazer uma Olimpíada, pois ninguém, ninguém mesmo, vai quebrar meu recorde. Eu salto 1800 metros, e ainda tenho a torcida dos esquilos que vale no mínimo uns quinhentos metros.
- Mas eu posso saltar muito mais que isso com o hipopótamo me empurrando, respondeu, prontamente, o Lobão.
- Eu tenho uma pesquisa, que me dá quarenta e cinco por cento de chance saltar mais do que vocês dois juntos e com todo mundo empurrando, rugiu violentamente o Leão.
- Eu salto qualquer altura que me der vontade e se alguém ousar duvidar de mim eu processo, reagiu o Caxigelão.
- Sou como a tartaruga da outra fábula. Todos duvidavam que eu vencesse o coelho e deu no que deu. Ganhei mole, lembrou o Tamanduazão. (1).
- Vocês não entenderam nada o importante é não é vencer e sim competir (2), tentou ensinar a sábia Raposa.
- Você é que não entendeu nada, o importante é COMPETIR E VENCER, decretou o Lobão (3).
Neste momento, o burro que além de burro (nunca entendia nada de nada) era meio surdo e inteiramente gago, gritou cheio de empolgação:
- Hip... A bicharada respondeu em uníssono:
- Hurra!!!! E o infeliz burro, dessa vez mais alto:
- Hip... E a bicharada, também, mais alto ainda:
- Hurraa!!!! E o burrico, mais uma vez:
-Hip.... E a bicharada alucinada:
- Hurraaaaaaa!!!!!!
Então, o HIP... POPÓ ... TAMO veio em disparada e atropelou, impiedosamente, toda a bicharada.
Felizmente, entre mortos e feridos (afinal isto é apenas uma fábula) como sempre, salvaram-se todos.
O burro, coitado, cheio de escoriações, ainda teve forças para perguntar a raposa que, coincidentemente, estava caída ao seu lado:
-Qua..qua..quando fo...foi me..me..mesmo que ma...ma...marcaram pa...pa...para en...en...tre...gar a me...me...da...da...lha de ou...ou..ro ao Ti...ti...grão???.
- Ah burro, vai te ca...ca...tar!!!!!!!!!!!!

Notas pretensamente  esclarecedoras ou FRASME é cultura:
(1) Tamanduazão, Lobão, Leão......  Tudo no aumentativo para não melindrar ninguém.
(2)O importante não é vencer, mas competir. E com dignidade.” Esse era o lema do educador francês Pierre de Frédy, mais conhecido como Barão de Coubertin. A frase, entretanto, não é de sua autoria: teria sido pronunciada pelo bispo de Londres, em um ato religioso, antes dos Jogos de 1908.
(3)Por favor, senhor editor, desta vez não embaralhe os nomes dos bichos. Afinal isto é apenas uma fábula e não pode fazer mal a ninguém. Quando muito vão me obrigar a beber uma dose de cicuta que, felizmente, não é detectada por nenhum bafômetro, nem interfere no sistema de cotas por causa da afro-decendência.

                                     18 - O DISCURSO DA POSSE

     A grande corrida atrás da cadela da sorte chegou ao seu final. Contrariando a todas as expectativas, pesquisas, previsões, adivinhações, ilações, dinheirama (não contabilizado, é claro) para comprar votos, o velho Caxinguelê chegou à frente de todos os outros participantes. Ele, usando e abusando do critério de cotas, por causa das prerrogativas de sua afro-descendência (1) acabou chegando em primeiro lugar. Agora é rei da Floresta encantada. E como rei pode tudo. Pode subfaturar e super faturar. Pode comprar fazendas e bois, casas e chácaras, automóveis e caminhonetes. Pode empregar e demitir. E, por que não? Pode até fazer o discurso da posse. E assim, em um sábado de sol, (havia de ser de sol, pois se de chuva fosse ninguém poderia comparecer por causa do estado miserável das estradas da Floresta Encantada), ele deitou sua falação com pompa, glamour e eloqüência:
“Concidadãos, eleitores, bons amigos, concedei-me atenção (2). Nunca antes na história desta Floresta Encantada houve uma eleição sequer parecida com esta que honrosamente ganhei (3). Vim para a posse merecida e não para falar mal dos meus antecessores (4). Eles foram, são e serão sempre probos, íntegros e honestos. Qualquer sombra de dúvida sobre a honra deles não cabe a nós, míseros mortais, investigar e punir. Para isso existe o Ministério Público com todas as prerrogativas da Santa Lei. Vou falar de nosso futuro que começa hoje. Vou administrar para todos e por todos com parcimônia e probidade. Eu não vou comprar fazendas e bois, casas e chácaras, automóveis e caminhonetes com o dinheiro público e, principalmente, vigiarei noite e dia para que meus auxiliares também não o façam. Nenhum funcionário público deste reino irá locupletar-se usando os privilégios de sua função”.
        E por aí afora foi sua arenga, mais demorada que os famosos pronunciamentos de Fidel Castro. Todos os bichos apupavam gritando mais impropérios que as infelizes torcidas do Vascão e do Fluzão, juntas (5). Todos?? Não, lá no fundo, meio encoberto pelo hipopótamo, o Burro aplaudia freneticamente. O Caxinguelê deu por encerrado o seu discurso, mandou seus seguranças dispersar a bicharada (6) e levar o Burro a sua presença, pois pretendia agradecer-lhe, afinal era o único a aplaudir.
- Obrigado, Burro, pelos aplausos. Deve ter gostado muito do meu discurso.
- Meu rei, eu além de burro sou meio surdo e não ouvi quase nada do que falou, mas sou muito velho e estava aqui quando o antecessor, do antecessor, do seu antecessor foi eleito Rei. Ele fez o um discurso muito parecido todos vaiaram e eu também vaiei. Aí veio o seu sucessor que era pior do que ele e as vaias tornaram acontecer; e veio outro pior ainda e nós vaiamos. Agora veio você e eu aplaudi, pois sei que seu sucessor, com certeza, será pior, muito pior, que você.

Notas pretensamente esclarecedoras ou FRASME é cultura
(1)- Seus inimigos diziam que ele tinha a alma negra.
(2)- Quando Brutus assassinou Julio Cesar, Marco Antônio pronunciou o famoso discurso onde começou elogiando Brutus e execrando Julio Cesar para depois jogar toda a plebe contra o assassino. Ver “Julio Cesar” de William Shakespeare, ato III, cena II.
(3)- Este último parágrafo o Caxinguelê, espertamente, copiou do discurso do nosso admirável guia.
(4)- Até por ele ser antecessor dele mesmo.
(5)- Juntas e já com um pé na “segundona” .
(6)- Gás mostarda e bordoadas, afinal eleições só daqui a quatro anos. 

                                     19 - VAE VICTIS


Finda as eleições, o marasmo tomou conta da Floresta Encantada. Como um imenso monstro pré-histórico estendeu seus tentáculos por todo o reino e a pasmaceira era geral. Foi então que o Gineto (l) teve a feliz lembrança de criar uma ONG cuja a finalidade fosse a “inserção social dos excluidos”.  Assim foi criada a “ASSOCIAÇÃO PRATOS DE SOPA MONSENHOR PEDREIRA”, uma instituição beneficente para trabalhar junto à população de rua, procurando diminuir ou erradicar os cruéis efeitos da miséria. O Tigre, logo que leu o estatuto declarou a Associação como de “utilidade pública” conferindo-lhe o devido “Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social” .
 No início, por causa do diminuto tamanho dos pratos onde era servida a sopa, a associação passou a ser conhecida apenas como “ASSOCIAÇÃO DOS PIRES”, mas depois da cobrança de escorchantes anuidades dos seus sócios e mais multas por atrasos destas contribuições, mais taxas para a confecção de carimbos e, é claro, com as polpudas verbas do governo, bem como as gordas doções de inocentes bem intencionados (2), aí sim, passou a ser, internacionalmente, conhecida como a “ASSOCIAÇÃO DOS PRATOS”.
Mas quem seriam os excluídos que a ASSOCIAÇÃO DOS PRATOS deveria cuidar? Errou quem pensou no Burro que foi nomeado e excluído pelo Tigre (3) apesar do critério de cotas por causa das prerrogativas de sua afro descendência. Também errou quem pensou nos pobres bichinhos (literalmente pobres) que tiveram suas parcas poupanças escamoteadas no tamborete (4) que faliu criminosamente. Errou quem pensou na infeliz vaca, miseravelmente explorada pelos inescrupulosos queijeirinhos (e queijeirões) sempre e cada vez mais, gananciosos.  Han han, já vi que ninguém sabe! Assim sendo vou contar:
- Pasmem queridos leitores, a Associação pretendia amparar os “excluídos pelos eleitores” isto é os derrotados na última eleição. È bem verdade, justiça seja feita, sem conhecimento da maioria deles. Lá estavam, pela ordem alfabética para não melindrar ninguém, o Caxinguelê, a Cotia, o Hipopótamo, o Leão, o Lobo, o Tamanduá, o Tatu Canastra, o Veado, a Zebra  ... “et caterva” (6) .
Eu disse pretendia pois, Ele, o Tigre que é Onipresente, Onisciente, Onipotente (5) e, sobretudo, o amado timoneiro mor da Floresta Encantada, ao tomar conhecimento desta estapafúrdica pretensão, rasgou o estatuto da Associação e mandou, imediatamente, cancelar o “Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social”.  Ainda tremendo de raiva rugiu para que todos soubessem sua deliberação:
- "Vae victis"! (7)

Notas pretensamente esclarecedoras ou FRASME é cultura

  1. Animal semelhante a raposa.
  2. Deles o inferno está cheio.
  3. Enquanto rei da floresta ele tudo pode. Nomear e destituir o pobre Burro foi coisa de somenos importância.
  4. Pequeno banco, banquinho.
  5. Que está em todo lugar, que tudo sabe e que tudo pode.
  6. Mesmo não simpatizando com a expressão latina “et caterva”, por julgá-la escatológica, temos que nos render às evidências e considerá-la a nominação mais-do-que-perfeita para o grupelho de bajuladoras, apaniguados e assemelhados.
  7. Exclamação atribuída a Breno, célebre comandante Gaulês que invadiu Roma no ano de 390 a. C. Quando os romanos reclamaram da pesagem do ouro, cobrado usado no resgate para libertar a cidade, Breno atirou sua pesada espada na balança e pronunciou a célebre frase: "Vae victis", que significa: "ai dos vencidos"

 

20 - A TÔMBOLA

Certa vez quatro meninos foram ao campo e, por 100 reais, compraram o burro de um velho camponês. Hem?? Fábulas? Cadê os bichinhos?
Rá! Sim, então:
- “Certa vez um filhote de hiena, outro de hipopótamo, mais um de lobo, e por último um de raposa (1) foram ao campo e, por 100 reais, compraram o burro de um velho e experto Gambá.”
O trato era entregar-lhes o burro no dia seguinte.
Mas, quando eles voltaram para levar o burro, o safado do gambá lhes disse:
- Sinto muito, amigos, mas tenho uma má notícia.  O burro morreu.
- Então devolva-nos o dinheiro!
- Não posso, já o gastei todo.
- Então, de qualquer forma, queremos o burro.
- E para que o querem? O que vão fazer com ele?
- Com ele nós vamos fazer uma tômbola (2) em benefício da Santa Casa de Misericórdia que está passando por dificuldades (3).
 - Estão loucos? Como farão uma tômbola cujo prêmio será um burro morto?
- Obviamente, não vamos dizer a ninguém que ele está morto.
Um mês depois, o gambá encontrou-se, novamente, com os quatro bichinhos e lhes perguntou:
- E então, o que aconteceu com o burro?
- Como lhe dissemos, fizemos a tômbola. Vendemos 500 números à 2 reais cada um e arrecadamos 1.000 reais. Doamos 300 reais a Santa Casa e ficamos, a título de “pro labore” (4), com 698 reais.
- Espera aí estão faltando 2 reais!
- Ah, sim, fomos obrigados a devolver os 2 reais do ganhador da tômbola, pois o infeliz não se conformou com o fato do burro estar morto, chegando, até, nos ameaçar com pragas e procom. (5)
Moral (ou amoral) da estória:
Os bichinhos cresceram. Um fundou a maior empresa de lacticínios da Floresta Encantada. Outro foi para os lados de Barra Mansa, enriqueceu-se muito e depois voltou à terrinha para gozo da merecida aposentadoria. O terceiro fundou o banco que veio a ser o maior da Floresta Encantada (6). O último estudou leis, graduando-se brilhantemente em direito tributário, na renomada e internacionalmente conhecida faculdade de Valença, retornado depois a santa terrinha com a finalidade específica de assessorar qualquer rei (que estiver no trono – é claro).

Notas pretensamente esclarecedoras ou FRASME é cultura
1 – Sempre na ordem alfabética para não melindrar ninguém.
2 - Loteria para fins beneficentes, com prêmios não em dinheiro.
3 – Sempre em “dificuldades”, no passado, presente e futuro.
4 –É uma expressão latina que significa "pelo trabalho";
      remuneração do trabalho realizado por sócio, gerente ou
      profissional liberal. Tem recolhimento de 11% para o INSS.
5- Experimentem em qualquer loja. Todos morrem de medo.
6 - Que, infelizmente, faliu fragorosamente.

21- OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE (1)
             


       Sábado de Carnaval.  Sol e praia. Gilmar Flores – o Joaninha- voa com sua motocicleta mágica por sobre as dunas da praia do Pepê, na Barra da Tijuca. Descarga de adrenalina. Um “backflip heelclicker” é algo que só ele consegue fazer. Conquista fácil o tri campeonato da copa Brasil de Moto Cross, estilo livre. Vendo este Joaninha voar é impossível não se lembrar do outro Joaninha, aquele do Morro do Desengano, perto da Saibreira, que nós – (não é mesmo Dr. Anderson?) - conhecíamos como Xico Joana.
Ele não voava, era um anjo que não voava. Suas asas ainda eram pequenas. Afinal ele era um “anjo-criança”. Talvez, se voasse, conseguisse escapar da sanha assassina dos quatro cavaleiros do apocalipse.
E eles vieram em suas montarias. A primeira era branca representando a falsa inocência e paz disfarçada. A segunda era vermelha como o sangue inocente que seria derramado. A terceira era preta representando as almas dos cavaleiros. A última era baia como a pele esverdeada de um cadáver em decomposição, tal qual o do Xico Joana, quando foi encontrado.
       Eles encontraram o Xico Joana, o nosso Xico Joana, e com ele, como velhos e bons amigos, seguiram pela estrada. Então o “Cavaleiro do Cavalo Vermelho, que tem uma Grande Esapada símbolo das guerras sangrentas” (2) desferíriu-lhe uma violenta pancada na cabeça. Xico Joana cai. O cheiro do sangue que esgincha pela ferida excita os outros cavaleiros. Descarga de adrenalina. Eles não usam a piedade. Vomitam palavras obscenas. Nada de tréguas. Subjugado pelo terror do galope dos cavalos - seus cascos são afiados diariamente no saibro das estradas - Xico Joana, o nosso Xico Joana, na poeira da estrada, contorce e retorce. Fígado despedaçado, costelas partidas, olho vazado. Os quatro Cavaleiros do Apocalipse desprezam tudo que é humano. Nada de tréguas. Com a força de suas montarias arrastam aquele monte de carne para fora da estrada.  O arame farpado da cerca rasga a carne, mas não impede a intenção de esconder o que foi feito e eles despejam Xico Joana, o nosso Xico Joana, no buraco a beira do córrego. Acabou. Ei esperem, não acabou não. Xico Joana ainda contorce e retorce. O “começado precisa ser terminado”. Então, o cavaleiro da montaria baia, (da cor do cadáver do Xico Joana quando foi encontrado, três dias após), desmonta e, decididamente, faz o que viu, na televisão, os “Van Dammes” e “Schwarzeneggers” cansarem de fazer: - Uma mão no queixo, outra no alto da cabeça, violenta torção, pronto! Tudo consumado. “O que tinha de ser feito foi feito”.
                                       
Moral da história (afinal é uma fábula):
O Burro perguntou a felpuda Raposa:
- Se esta fábula fosse verdade estes “cavaleiros do apocalipse” seriam condenados a quantos anos? Conhecedora profunda da lei ela respondeu, dona absoluta da verdade:
- Artigo 121 § 2º do Código Penal Brasileiro, Homicídio Qualificado, por motivo fútil, com resquícios de crueldade e ocultação do cadáver. Pena máxima de trinta anos de cadeia! O Burro, coitado, na sua genuína ignorância ousou obtemperar:
- Você viu o crime? Alguém viu? Quer dizer não tem testemunhas. Então eles vão negar até perante a morte. Mesmo que confessem na polícia, para o juiz vão continuar negando, alegando “que confessaram sob tortura”. Mas, considerando a existência de fortes indícios, algumas evidências e imaginando que os parentes da vítima constituem um bom advogado, eles serão condenados sim, mas apenas a seis ou oito anos, no máximo. Então como o julgamento deve demorar cerca de dois anos o advogado deles, exibindo suas calejadas mãos, dirá que são “trabalhadores honrados”. Aparecerá um “patrão” deles (3) e testemunhará perante os 36.000.004 deuses (4) a veracidade dos fatos e dirá, também, que eles têm emprego na sua propriedade e residência conhecida. Então o advogado solicitará que cumpram a sentença em liberdade. Ahn, sim, se o julgamento demorar mais de um ano para acontecer o advogado vai solicitar, pelas mesmas razões, que respondam ao processo em liberdade. Assim é a lei. Dura Lex sed Lex. (5)
- Ah Burro, como você é burro!!

Notas pretensamente esclarecedoras ou FRASME é cultura
1 - Uma fábula sem bichinhos, mas com quatro animais.
2 - Ver a Bíblia Sagrada; Apocalipse 6:4
3 - Que jamais assinou suas carteiras de trabalho - rá, mas isso é apenas um detalhe
4 - Segundo Aravind Adiga, os Muçulmanos tem 1 Deus, os Católicos têm 3 Deuses, os Hindus têm 36.000.000 perfazendo, portanto, 36.000.004 Deuses. Pode jurar à vontade.     
5 - A Lei é dura, mas é a Lei.

22 - VISITANDO O CEREBELO (1)


Ele, o Hipotálamo (2), resolveu visitar o Cerebelo. Todos os seus amigos o avisaram: - “Ah, o cerebelo é muito importante!”. “Cuidado, ele é vingativo”.  “Veja bem, agora ele é o todo poderoso em carne e espírito.” “Tome cuidado, você não é mais a eminência parda do rei.”. “Isto é a mesma coisa que adentrar a toca de um Tigre, desarmado e no escuro”. “Muito cuidado, Hipotálamo, muito cuidado”.
Ele não ouviu ninguém. Talvez por sentir-se ainda a toda poderosa eminência parda – rá, isto não te pertence mais – talvez motivado pela razão maior (e nobre) – ia ele pedir dinheiro para as criancinhas excepcionais – talvez movido pela bufa valentia dos hipotálamos partiu para a glória ou desventura da empreitada hercúlea a que se propôs.

E tudo correu bem. Cerebelo o recebeu com honras, glórias, cafezinhos e charutos. Só faltou mesmo depositar-lhe uma coroa de louro na cabeça. Prometeu atender a todos seus pedidos e o despachou com a promessa de que estaria sempre a sua disposição em qualquer hora de qualquer dia, ou noite, fosse santificado ou não, feriado nacional ou municipal.
Tudo bem, tudo certinho, o hipotálamo faceiro e refestelado despediu-se para levar as boas novas para os seus amigos.

Mas, como diria Carlos Drumond de Andrade (3) “No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho/tinha uma pedra/no meio do caminho tinha uma pedra./Nunca me esquecerei desse acontecimento/na vida de minhas retinas tão fatigadas.”
Não era bem uma pedra, mas sim uma escada. E escada estava empapada de cera, muita cera suficiente para derrubar um elefante que diria um pobre hipotálamo.
E lá se foi o Hipotálamo rolando escada abaixo. Para ficar bem na fita o Cerebelo foi ao primeiro a chegar ao acidentado. Cheio de escoriações e com a perna fraturada, ele apenas balbuciava:
- Foi a cera, foi a cera!
O Cerebelo agiu rápido e oportunamente.
- Oh Deus, que tragédia! Ninguém o toque. Não foi a cera. Foi a infeliz da Hipófise (4) que empapou a escada com cera. Ela será imediata e sumariamente demitida (5). E mais, neste momento estou nomeando meu fiel seguidor, o Bulbo Raquidiano (6), para motorista particular e segurança do Hipotálamo enquanto durar a sua convalescência.
Isto dito mandou imediatamente internar o Hipotálamo.
***
Como, por incrível que pareça, isto é uma fábula aí vai (A) moral da história:
“Jamais se deve cutucar o Cerebelo com a vara curta.”

 Notas pretensamente esclarecedoras ou FRASME é cultura
1 - Parte posterior e inferior do encéfalo.
2 - Região encefálica importante na homeostase corporal dos mamíferos.
3 – Poeta maior das Minas Gerais.
4 – Glândula situada na sela túrcica.
5 – Na realidade a Hipófise foi nomeada, (através de ato secreto - é claro) para Diretora Geral de Enceramento de Escadas.
6 - Segmento inferior do tronco encefálico.

23 - A HIENA DEGOLADORA

Ela, a Hiena (1), movida por razões que até a própria razão desconhece (2), resolveu degolar o infeliz Gambá. O bicho, coitado, dormindo o abandono da vida nos braços aconchegantes de Baco não viu (e acho até que nem sentiu) o afiado canivete cortando sua garganta.. Ela, a Hiena, confessou o crime, mas botou a culpa no Jacaré, cujo único crime era (e continua sendo) o de nadar de costas em rio que tivesse piranha.

Mas, como diria a felpuda Raposa para o néscio Burro, no dia seguinte ao julgamento:
- Os jurados absolveram a Hiena por quatro votos a três.
- Mas, como??!!
- Pois é, quatro dos sete jurados não encontraram nenhuma culpa nos atos dela.
- Então quer dizer que três encontram?
- É, é assim que funciona a Lei.
- Mas, na manhã seguinte ao assassinato do Gambá, ela, a Hiena, não foi vista suja de sangue?
- Sim, mas ninguém apareceu para confirmar.
- Eles não foram intimados?
- É claro, mas então negaram ou não foram inquiridos corretamente, sei lá.
- E o canivete que ele exibia como um troféu?
- Ah, sim o canivete foi encontrado. A Hiena mesma mostrou onde tinha escondido.
- Então ela confessou o crime?
- Sim, na Polícia. Entretanto, diante do Juiz, ela negou tudo alegando que confessou sob      tortura.
- E o canivete?
- Não serviu como prova, segundo o laudo do instituto de criminalística não havia sequer resquícios de sangue na arma.
- E o tal Jacaré que segundo a Hiena havia segurado o Gambá para a degola?
- Rá, aquilo é um coitado, qualquer um vê que a cabeça dele não “funciona” bem. Ademais o mesmo laudo, praticamente, inocentou o infeliz Jacaré, quando descreveu a degola de maneira totalmente diferente da informação da Hiena.
- Então, sendo o Jacaré inocente só o fato de a Hiena acusar o Jacaré já não é crime?
- Verdade, mais aí seria um novo processo.
- Quer saber dona Raposa, acho que a Hiena é mesmo inocente.
- Ah, Burro, tu és mesmo um burro!
- Sim, sou burro, mas, veja bem, alguém degolou o Gambá e isto é um fato incontestável. Pois bem, sabe quem foi este “alguém”? Eu digo, fomos nós! Nós que vimos e não falamos nada. Nós que assistimos a Hiena se gabando de que jamais seria presa. Nós que contratamos advogados.  Nós que não assinamos a carteira de trabalho do Gambá. Nós que temos medo de nos envolver. Nós que queremos logo “dar logo um fim nesta estória”.
- Desisto! Burro, tu és muito mais que um burro, és uma tropa inteira!
***
Em sendo uma fábula eis (A) moral da história:
-“Nós é que somos os culpados.”
Notas pretensamente esclarecedoras ou “FRASME é cultura”
1 – Blaise Pascal (1623/1622) filósofo religioso, físico e matemático francês.
2 – Mamífero carnívoro digitígrado, muito voraz comedor de carne putrefata,
3 – “Nós é” neste caso está absolutamente certo, viu bajonas!

HISTORIETAS INFANTIS, LENDAS URBANAS, LENDAS RURAIS E ATÉ UMA AULA DE CATEQUISMO

        Destinadas especialmente às criancinhas mais ou menos espertas de 8 a 88 anos. Todas (as historietas não as criancinhas) também são minhas filhas queridas. Nomes diferentes para a mesma coisa. O intuito era, apenas, despistar os editores (ou censores). Infelizmente esta tentativa (infantil) revelou-se totalmente inútil, pois poucas, muito poucas, conseguiram ganhar o mundo e, mesmo estas, não puderam bem dizer a que vieram pois, coitadinhas, foram truncadas, espremidas em meia dúzia de parágrafos, distorcidas, e às vezes tão maquiadas que, tronchas, chegavam a parecer “historietas de vida fácil”. Culpa dos editores? Não, com certeza não! Afinal eles têm seus interesses e suas responsabilidades. Culpa do pai? Certamente, confesso aqui, urbi et orbis: - Fui o culpado! Eu deveria ter cuidado melhor destas minhas filhas. Jamais deveria ter entregado aquelas inocentes criaturas à sanha de qualquer aventureiro caçador de dotes (ou de votos), “grupelhos internacionais a serviço de interesses espúrios” como cansou de dizer o nobre engenheiro Leonel de Moura. Oh Deus, como me arrependo do meu desleixo!  
Assim, tentando minha redenção e para a alegria e o gáudio dos meus supostos vinte e seis fiéis, seletos, inteligentes e conscienciosos leitores, também numa gentileza exclusiva do LACTICÍNIO GRUPIARA, ouso publicar estas minhas “filhas”, do jeito que nasceram isto é, nuas e cruas.
Outra vez, também por conta da possibilidade de “dar bode”, apesar do bicho não pertencer ao jogo, cumpro o doloroso dever de informar:
FATOS, ACONTECIMENTOS, NOMES E SITUAÇÕES QUE APARECEM NESTES ESCRITOS SÃO ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE PRODUTO DA IMAGINAÇÃO (DOENTIA), DO AUTOR. QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS (VIVAS OU MORTAS) E COM INCIDENTES (REAIS OU IMAGINÁRIOS) É MERA COINCIDÊNCIA, PELA QUAL O AUTOR PODE (ATÉ) SER ELOGIADO, MAS JAMAIS DEVE SER RESPONSABILIZADO

01 - PRESENTE DE NATAL

      Era uma vez, em uma cidade longe, bem longe, um menino muito pobre e seu pai mais pobre ainda (1). Um dia o menino pediu ao pai um presente de Natal. Queria uma motocicleta. Como era um menino modesto e conformado com a pobreza pediu uma destas porcarias de dois tempos. Especificamente pediu uma DT 180.
- Impossível, filho, mesmo uma porcaria destas custa uma fortuna. Mais de dois mil reais. Depois tem o Ipva, o emplacamento, o seguro obrigatório (muito mais caro que o de um automóvel) e ainda tem a gasolina e a manutenção da moto. E carteira de habilitação? Sem carteira você não pode andar de moto.
- Mas, pai, você paga em prestações...
- Não, filho, o seu pai não tem crédito na praça. Está com o nome sujo no SPC.
     O menino pobre chorou, desistiu e foi dormir. O pobre pai ficou triste, chateado e foi também dormir.
Então, crianças, como o Natal vinha chegando assim como uma carreta desgovernada ladeira abaixo     carregando 25000 litros de soro (que os queijeiros vendem mais caro do que pagam pelo leite in natura) Papai Noel - aquele bom velhinho que gosta de criancinhas mais do que o Michael Jackson - passando pelo local e vendo tamanha desgraça apiedou-se do menino pobre e do seu pai mais pobre ainda.
      Apiedou-se, mas, ao invés de dar o peixe ensinou aqueles pobres de Deus (ou do diabo) a pescar. Tocou-lhes as frontes com sua varinha de condão (2) e ... zap trup ... mágica, milagre, embuste (3) ... foram transportados para uma outra cidade.
Ali, as motocicletas de dois tempos (4) eram quase de graça. É bem verdade que eram roubadas, portanto sem documentos, ou sem as taxas pagas, ou com tantas multas que tornava impossível sua legalização. Mas quem se importava com estes pormenores?  Aliás, carteira de habilitação não era exigida para trafegar pelas ruas daquela cidade maravilhosa; nem sinaleiras, farol e espelhos retrovisores. Tudo apenas detalhes inúteis. A cidade era uma espécie de território livre, uma pista de moto cross sem regras. Capacete sim, era imprescindível (5). Estando de capacete todos os “motoqueiros” (6) estavam legalizados. As “Autoridades” às vezes (muito raramente) organizavam uma “blitz”, mas, dificilmente acontecia alguma apreensão, pois bastava aos infratores evitar a rua da “blitz”. Quando algum incauto era pego aparecia sempre uma “Autoridade Maior” para liberar o veículo e ainda pedir desculpas pelo incômodo. Sabe como é, as eleições (7) vem aí.
      Naquela cidade o menino pobre poderia realizar o seu modesto sonho de comprar a porcaria da motocicleta. Mas, seu pai mais pobre ainda, infelizmente (ou felizmente), era antes de tudo um homem honesto e de princípios:
- Não, filho, isto aqui é um sonho. Um lugar destes não pode existir. Se existisse seria ilegal e seu pai quer ensinar tudo da vida para você menos roubar ou andar na ilegalidade.
- Mas, pai, e o dinheiro “não contabilizado” dos politiqueiros (6) de Brasília?
- Pois é, filho, moto “não documentada” seria como o dinheiro “não contabilizado” dos politiqueiros de Brasília. 
E então o menino muito pobre e seu pai mais pobre ainda foram infelizes (8) para sempre.

A seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:
(1)   - O pai era mais pobre ainda porque vivia da venda do leite e os queijeiros locais haviam feito um cartel para pagar uma miséria pelo leite produzido.
(2)   - Sei que quem usa varinha de condão é fada madrinha, mas, a liberdade poética permite que Papai Noel também use.
(3)   - Mágica é no circo, milagre é na nossa igreja, embuste é na igreja dos outros.
(4)   - E, também, algumas de quatro tempos.
(5)   - Mais um lugar, além do tanque de gasolina, para esconder trouxinhas de maconha e sacolés de cocaína.
(6)   - Motoqueiro é pejorativo. Quem anda de motocicleta é motociclista. Chamar um motociclista de “motoqueiro” é como chamar um médico de “curandeiro”, político de “politiqueiro”.
(7)   - Nas eleições vale tudo, menos perder.
(8)   - Quem falou que toda história de Natal, termina em felicidade?

02 - O MENINO QUE QUERIA UM SANTANA

    Era uma vez, há muitos e muitos anos, em uma aldeola miserável no interior da velha Índia (1), um menino muito pobre e seu pai mais pobre ainda. Mesmo sendo pobre (ou talvez por causa disso) (2) o menino tinha uma vontade louca de possuir um automóvel. Como era modesto, seu sonho de consumo era um Santana (3), aquele carrinho completamente ultrapassado, que um dia o falecido (4) Collor de Melo chamou de “carroça”:
- Impossível, filho, mesmo uma “carroça” destas está custando uma fortuna.
- Mas, pai, você paga em prestações...
- Não, filho, o seu pai não tem crédito na praça. Está endividado com todos agiotas da Índia.
Todo o povo da miserável aldeola murmurou compadecido:
- Que azar do menino pobre queria tanto um Santana e não pode ter!
   O pai, mais pobre ainda, confiou sua longa barba branca e do alto da sabedoria milenar dos seus ancestrais afirmou peremptoriamente:
- Azar, não! Pode ser azar ou sorte, só o tempo vai dizer!
Então, criancinhas, um dia o todo poderoso Marajá Nathuram Godse (5), em diligência para matar um tigre de bengala comedor de gente, por mero acaso, passou pela aldeola miserável.
Sabedor do sonho do menino pobre concedeu-lhe uma bolsa para cursar a faculdade de medicina.
Todo o povo da miserável aldeola murmurou cheio de inveja:
- Que sorte do menino pobre agora estudando medicina vai poder comprar o Santana que tanto queria!
- Sorte, não! Pode ser sorte ou azar, só o tempo vai dizer! Retrucou o pai mais pobre ainda.
Então o danado do menino pobre que era assim, digamos, meio inteligente (6), não conseguiu passar no vestibular para medicina e todo o povo da miserável aldeola lamentou:
- Que azar do menino!
    O pai do menino, com a eterna paciência oriental, voltou a afirmar:
- Azar, não! Pode ser azar ou sorte, só o tempo vai dizer!
Vai daí que o menino pobre tentou então a faculdade de medicina veterinária (7) (afinal era tudo medicina) e foi aprovado com distinção. Todo o povo da miserável aldeola mais uma vez murmurou cheio de inveja:
- Que sorte do menino pobre agora estudando medicina veterinária vai poder comprar o Santana que tanto queria!
- Sorte, não! Pode ser sorte ou azar, só o tempo vai dizer! Contestou mais uma vez o pai mais pobre ainda.
Pois é, criancinhas queridas, o tempo disse. O menino pobre conseguiu terminar o curso de medicina veterinária, aconteceu uma eleição para alcaide-mor da aldeola e ele foi eleito através de sufrágio universal (8).
O menino pobre (ex-pobre) pode então realizar o seu sonho e comprar a porcaria do Santana. Todo o povo da miserável aldeola, exalando inveja por todos os poros do corpo, murmurou (ou rosnou):
- Que sorte do menino ex-pobre!
O pai, mais ex-pobre ainda, confiou sua longa barba branca e do alto da sabedoria milenar dos seus ancestrais não contestou mais nada.

A seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:

(1) Não confundir com uma índia velha.
(2)   - Pobre gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual como disse o filósofo (e coreógrafo de carnaval) Joãozinho Trinta
(3)   - Se pelo menos fosse um Corolla da Toyota, mas este está custando R$90000, 00, ou seja, 360.000 (trezentos e sessenta mil) litros de leite, já que os queijeirinhos estão pagando apenas R$0, 25 por litro.
(4)   - Ele morreu mesmo? Já nem me lembro quando.
(5)   - Nathuram Godse (não confundir com aquele Natam que encheu esta cidade de motos roubadas ou “não documentadas” e que agora esta devidamente guardado) é o nome do assassino de Mahatma Gandhi, um dos maiores pacifistas do século passado que, por dessas ironias do destino, terminou assassinado, a tiros, em Nova Délhi no ano de 1948. Nesta historieta o Marajá era, apenas, homônimo do assassino.
(6)   - Meio inteligente é a mesma coisa que meio burro?
(7)   - Medicina veterinária é a mesma coisa que Zootecnia?
(8)   - Na Índia as vacas são sagradas e podem votar. Vai daí que todas as vacas da aldeola miserável votaram no menino ex-pobre.

03 - O PRÍNCIPE E O ESCRAVO


     Era uma vez, há muitos e muitos anos, em reino longe, bem longe, um príncipe muito bonito e seu pai, o rei, mais bonito (1) ainda. Um dia o príncipe pediu ao pai um presente de aniversário. Queria um escravo. Como era um príncipe bonito e cheio de grandeza, pediu logo um núbio (2) com dentes perfeitos e musculatura de gladiador:
- Impossível, filho, um núbio assim está custando uma fortuna. Mais de dois mil talentos de ouro (3). Depois tem a manutenção do bicho. Eles comem demais.
- Mas, pai, você paga em prestações...
- Não, filho, o seu pai não tem crédito na praça. Está endividado com todos agiotas do reino.
O príncipe bonito chorou, desistiu e foi dormir. O rei, mais bonito ainda ficou triste, chateado e foi também dormir.
Então, criancinhas, Marlin (4) o feiticeiro do reino, que tinha uma vontade louca de se livrar daquele príncipe bonito e de seu pai, o rei, mais bonito ainda, preparou uma de suas poções mágicas (atenção Barjonas não é porções nem porcões é poções mesmo), entrou furtivamente na câmara real e espargiu (5) o líquido sobre os dois dorminhocos.
Vai daí que, assim como a fazenda São Fernando faz o milagre de produzir 10000 litros de leite sem ter nenhuma vaca (e, claro, receber incentivo do governo pela produção), a poção mágica transportou os dois indesejáveis para um outro reino muito distante (6) e muito diferente daquele em que viviam.
Era uma terra maravilhosa para quem gostava de possuir escravos. Lá até um príncipe bonito e seu pai, o rei, mais bonito ainda podia possuir escravos. Bastava acolher qualquer desajustado (alcoólatras, ladrões de galinhas, arrombadores de residências) agregá-los (7) e, apenas por um prato de comida e algumas patacas (8) no final do mês para boa bebedeira (afinal ninguém é de ferro) qualquer um poderia possuir um ou até mesmo vários escravos.
É bem verdade que não se tratava de nenhum núbio com dentes perfeitos e musculatura de gladiador, mas o preço valia a pena. É bem verdade que às vezes era preciso pagar algum rábula (9) para livrar o escravo dos ferros das terríveis galeras turcas, quando o bicho era pego em flagrante transgredindo a lei, mas, mesmo assim, saía muito mais barato do que pagar salário mínimo, férias, décimo terceiro, fundo de garantia, folgas semanais, horas extras e o escambal a quatro.
O príncipe bonito ficou exultante. Naquele reino poderia possuir um escravo. Mas, “como um bando de pássaros que se calam a um ruído brusco, todos os seus sonhos fugiram” (viva o velho Eça de Queiroz!) quando o rei decretou solenemente:
- Não, filho, isto aqui é um sonho. Um lugar destes não pode existir. Se existisse seria ilegal e o meu pai, que foi um rei sábio, justo, rico e competente ensinou-me tudo na vida menos roubar ou andar na ilegalidade.
- Mas, pai, e o dinheiro “não contabilizado” dos politiqueiros de Brasília?
- Pois é, filho, um escravo assim seria um escravo “não contabilizado”. Vamos acordar que isto é apenas um sonho ruim. 
Então acordaram e foram felizes para sempre.

A seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:
(1)   – Desculpem-me as feias, mas a beleza é fundamental. (Vinícius de Morais)
(2)   - Atualmente seria um negão cheio de melanina.
(3)   – Façam as contas, criancinhas: - Um talento de ouro valia mil reais portanto, um núbio valia mais de dois milhões de reais. Como a produção do reino era de apenas quinhentos litros leite por dia e este estava sendo vendido a vinte e cinco centavos eram necessários cerca de oito milhões de litros de leite, ou seja, a produção de quase quarenta e quatro anos. Era impossível comprar um núbio
(4)   - Marlin, o feiticeiro do reino, fazia coisas que até Deus duvidava.
(5)   - Espargiu quer dizer espalhou, borrifou.
(6)   - Graças a Deus distante. Ter vizinhos assim só se for por castigo.
(7)   - Agregá-los quer dizer que eles dormiam com os galos, isto é, no galinheiro.
(8)   - Uma pataca vale um litro de leite, ou seja, R$0,25.
(9)   - Rábula é um advogado chicaneiro, mas, também é ponto de teatro. Escolham o que quiserem.

04 - O CRASH (1) DO BANCO AMBROSIANO
                                                            

Minhas criancinhas, hoje titio Frasme vai contar a história do todo poderoso banco Ambrosiano.
Esta história é relativamente recente e aconteceu na velha Itália, em uma linda cidade chamada Milão, onde o banco foi fundado em 1896 pelo Monsignor Giuseppe Tovínio. Era um banco católico e seu objetivo servir as organizações religiosas e obras de caridade. Digamos que Monsignor fosse uma espécie de Nilton Queijeiro quando fundou o Lacticínio Grupiara (2): - Queria apenas fazer caridade e ajudar os pequenos produtores, mas...
Mas, o Banco Ambrosiano apesar de tão nobres princípios faliu fragorosamente. Paul Marcinkus, o enorme arcebispo de 1,94 m e cem quilos de peso, Literalmente um “Peso Pesado” (3) responsável dezoito anos pelas finanças do Vaticano, não foi apenas o infeliz banqueiro de Deus que ajudou à falência do Banco Ambrosiano. Ele foi o arquiteto da falência.
Quando nomeado para o cargo ele mesmo confessou (no bom sentido) que, até aí, só tinha como experiência de gestão financeira a coleta dominical a seguir à missa, mas, de fato, sempre soube que não se podia gerir as finanças da Igreja a poder de Ave-Marias.
Assim ele chamou Roberto Calvi, um outro “Peso Pesado” do sistema financeiro europeu, diretor-presidente do Banco Ambrosiano, para uma parceria que se revelou promissora e ao mesmo tempo catastrófica:
- Você cria, no banco Ambrosiano, um setor de Cadernetas de Poupança.
- Não, não posso! O banco não tem competência legal para gerir Cadernetas de Poupança.
- Aí é que está o quente do negócio. Nós não vamos recolher o dinheiro das cadernetas ao SFHI (4).  Todos os recursos capitados irão para o nosso “Caixa Dois” e poderemos fazer o que bem entendermos com o dinheiro. Juros subsidiados ou juros extorsivos quem vai saber?
Roberto Calvi topou o negócio e o banco Ambrosiano cresceu mais do que a planificada economia Chinesa (5). Criou companhias off-shore (6) em Flower River, na Austrália, em Conservatory, na Escócia, em Elysabeth Santa, na Irlanda, esta exclusivamente para financiar o IRA. Emprestou dinheiro, na Nicarágua, para o ditador Somonza e para os Sandinistas, seus opositores. Emprestou dinheiro, na Polônia, para o Sindicato Solidariedade e, no Brasil, para o sindicato dos Pires (ou seria dos Pratos?). Financiou o esquema dos sanguessugas, em Singapura e dos leilões de gado no Senegal e também no Cruzeiro da Itaboca.
Enfim, tornou-se uma referência no fantástico mundo dos negócios.
Então, em um dessas companhias off-shore - a de Elysabeth Santa - por causa de um negocinho besta qualquer, que seria assim um grão de areia num porto de areia, aconteceu o início do desastre (7). Um devoto quis sacar sua poupança e não havia meios pagadores. Vai daí que outro e mais outro e mais outro... Pronto aconteceu o famoso estouro da manada e ninguém mais, nem mesmo o Papa, pode segurar o banco Ambrosiano que foi para o beleléu de cabeça para baixo.
O resultado todo mundo conhece: - Roberto Calvi foi encontrado enforcado numa ponte sobre o rio Tamisa em Londres, o arcebispo Paul Marcinkus foi reformado e recolhido aos EUA, sua pátria de origem e os devotos, ah e os devotos, pobres correntistas investidores da instituição, têm pouquíssimas chances (e bota pouquíssima nisso) de recuperar seus depósitos.

A seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:

  1. Crash (Ing) - Falir, ir à ruína.
  2. Grupiara (Esp) - “Engrupir es engañar, decir grupos, grupo es mentira, macaneo”.
  3. Atenção Bajona! Aqui é “Peso Pesado” mesmo. Não é hipopótamo. Favor não alterar.
  4. SFHI - Sistema Financeiro de Habitação Italiano.
  5. Cresce a mais de 10% ao ano.
  6. Livres para operar de acordo com a legislação local.
  7. Em qual iniciou o desastre não tem a menor importância.

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05 - A PRINCESINHA DA SERRA

Houve em tempos que já vão longe uma Princesinha mais bonita que qualquer atriz global. O seu reino era na serra onde, em séculos priscos (1), habitou a poderosa tribo dos índios Coroados (2).
Além de bonita a Princesinha era imensamente rica. Possuía oito fábricas de tecidos, uma poderosa fortificação com cavaleiros mecanizados, uma enorme oficina de reparos de carruagens (3) e imensas fazendas de criação de gado.
No meio de tanta fartura o povo do reino era feliz. Fazia seu footing (4) em duas belíssimas praças púbicas, lotava os dois majestosos cinemas onde eram exibidos filmes de alta categoria e ainda dispunha de sete clubes sociais para o seu lazer nos finais de semana.
Para dizer que não havia nada de ruim apenas conspurcava (5) o céu azul daquele maravilhoso reino algumas nuvens negras de maledicências a respeito das suas águas. Estas maledicências foram criadas pela bruxa Iarip que morava na barra do rio, no sopé da serra. Por pura inveja da beleza da Princesinha a malédica inventou a estória de que a águas do seu reino tinham propriedades estranhas o que era, naturalmente, uma deslavada mentira, fruto uma imaginação doentia.
Nada disso, no entanto, perturbava a paz e felicidade do reino, pois a sua soberana era também encantada. Dispunha ela do dom maravilhoso de rejuvenescer após cada casamento. Era como se renascesse bela, refulgente e jovem quando terminava cada contrato, o que acontecia, impreterivelmente a cada quatro anos.
Porém, aiii, porém, (como cantou Paulinho da Viola) um dia ela fez a besteira de fazer um casamento errado. Não, ela não foi culpada! “Forças ocultas”, “corrupção generalizada”, “eleitores mal informados” empurraram goela abaixo da pobre princesa um “maridão”. Sujeito exemplar, trabalhador, honesto, integro, probo, bem intencionado (6), excelente capataz de fazenda, mas, infelizmente, não preparado para administrar um reino daquela grandeza. Foi um desastre. Findo o contrato, examinadas as contas, analisados os balanços os técnicos concluíram que no período, além de não se verificar nenhum crescimento na economia do reino, duas fazendas de criação de gado faliram (7), uma fábrica de tecidos fechou, e a enorme oficina de reparos de carruagens foi transferida para outro reino. Pior mesmo foi o fato de ter cessado a mágica do rejuvenescimento (8). Castigo dos deuses ou decorrência do efeito estufa o fato é que a doce Princesinha estava mais velha. Apesar disso, como estava escrito na lei orgânica do reino, arranjaram para ela um novo “maridão” exemplar. Mesmo sendo ele um pouco mais preparado que o anterior (tinha até diploma de curso no estrangeiro) conseguiu ser mais desastroso. Três fazendas de criação de gado faliram, duas fábricas de tecidos fecharam e a poderosa fortificação com cavaleiros mecanizados e tudo também foi transferida para outras paragens. O reino mais pobre e a Princesinha mais velha e ... mais um “maridão” depois outro e outro e mais outro. Fazendeiros bem intencionados, excelentes médicos, um dentista e, vida que segue, a Princesinha, coitada (9), cada vez mais acabada e o reino cada vez mais deteriorado.
Então, tudo terminado? Não, tal qual Fênix o reino ressurgiu das cinzas, atualmente é uma progressiva aldeia universitária. Sua riqueza é sua cultura embora a malédica bruxa Iarip não canse de falar que os “universitários” do reino foram recusados até pelo “Show do Milhão”, aquele programa de perguntas do Silvio Santos; que estudantes não têm dinheiro; que são um bando de drogados, e outras maledicências. Puro despeito igual à estória das águas.
A Seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:

(1)   - Prisco quer dizer antigo; relativo há tempos passado.
(2)   - Por isso bruxa malédica Iarip diz que o reino é “terra de índio”. Como se isso fosse ofensa!
(3)   - Empregava mais de duzentos operários especializados.
(4)   - Todo mundo sabe o que é isso.
(5)   - Conspurcava quer dizer sujava, manchava.
(6)   - O inferno está cheio gente bem intencionada.
(7)   - Fazendas de criação de gado são falidas por definição e natureza.
(8)   - Se ao menos pudesse pagar uma operação plástica ao Dr. Pitanguy.
(9)   - Aquela que sofreu o coito.

06 - OS POLÍTICOS SÃO UM BANDO DE LADRÕES

     É lenda. Os Políticos não são ladrões. São honestos, íntegros e probos assim, bem chavão mesmo. Nós é que somos ladrões. Sim, minha querida professora, nós é que somos ladrões. Léxica, gramatical e filosoficamente a afirmação é verdadeira. Nós é que somos ladrões. Admito, minha querida professora, que essa afirmação é um tanto forte e pode indignar os meus 28 leitores que, tenho certeza, nunca furtaram nada na vida. No entanto é bom não abusar muito disso não, como dizia o grande Nélson Rodrigues, “se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém”. E impossível saber com certeza o que os outros fazem. Podemos imaginar ou achar que sabemos muito, mas geralmente não sabemos nada.
    Minha mãe, (sim, minha querida professora, eu tive uma mãe), de grande sabedoria vivia dizendo:- “para conhecer um corpo é preciso comer (1) um porco” (2). Acho que um ano ou uma vida inteira ainda é pouco tempo pois, não conhecemos nem a nós mesmos não sabemos, ou não lembramos, o que fazemos ou fizemos. Falando em mãe nós nunca lembramos que lhe roubamos o leite, o sono e a saúde. E roubamos o leite dos bezerrinhos, as horas de trabalho dos patrões, as horas de trabalho dos empregados, o coração de uma ou outra donzela (3), os ovos da galinha. Os Políticos não, eles não são ladrões. São honestos, íntegros e probos assim bem chavão mesmo. Eu já escrevi isso lá em cima, mas sempre é bom repetir (4). Algumas exceções (ou seriam excreções?) podem existir apenas para justificar a regra, já que toda tem uma cessando apenas após a menopausa (ou durante a gravidez). Um deputadozinho safado é a tal exceção, (ou excreção) dá no mesmo. Também o é (acho bonitinho este “o é”), o “governadorzinho”, o “prefeitinho”, o “vereadorzinho” e principalmente o “auxiliarzinho” em todos os escalões. A mídia não para de divulgar nomes (que por um azar do destino, descuido ou burrice mesmo) destas excreções ou exceções, pegas com a mão na botija. Aqueles, que não são pegos, é bom repetir mais uma vez, para ficar bem gravado na cabeça dos (e)leitores: - São honestos, íntegros e probos.
    Nós é que somos ladrões e descarados. Descarados, procedemos como se não tivéssemos nada a ver com as barbaridades que costumamos denunciar ou ridicularizar. Esquecemos que tudo que comemos, usamos ou possuímos foi roubado ou tomado (também dá no mesmo) da natureza ou de nossos semelhantes. Da semente do girassol ao peixinho do aquário, do cavalo de carroça a motocicleta BMW, do balaústre do berço a tábua do caixão. Tudo roubado ou tomado.
Assim, quando uma exceção, (ou excreção), dá no mesmo é pega com a mão na botija nós nos exultamos:
- Viu, os políticos são um bando de ladrões!
   Isto é bom para nossa famosa auto-estima, mas a sensação que dá, quando a gente fica a par do noticiário, não é a de que aqui absolutamente todo mundo rouba, de uma maneira ou de outra?
Ali Babá, o grande Ali Babá, deveria ser o nosso ícone. Acho até que seria interessante erigir uma grande (monumental mesmo) estátua do venerável larápio em cada praça de cada de cada cidade e ainda criar um dia especial para as merecidas homenagens com direito a feriado nacional. Os Políticos não são ladrões (5). É lenda. Pura lenda...

A Seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas

(1) No bom sentido, é claro.
(2) Naquele tempo AG (antes da geladeira) a comida era temperada a gordura do porco, que era conservada em latões e durava aproximadamente um ano conforme ao tamanho da família e/ou do bicho.
(3) Será que ainda existem?
(4)  São honestos, íntegros e probos.
(5) São honestos, íntegros e probos.

07 - O CARNAVAL DE VENEZA


                                                                                                 
   Minhas criancinhas, Veneza é uma cidade maravilhosa no coração da Itália. Famosa por sua paisagem, suas gôndolas e ... seus bailes de carnaval. Hoje titio Frasme vai contar a lenda de como o carnaval de Veneza antes, saudável, divertido e, sobretudo lucrativo transformou-se em um festival de drogas que faz a alegria dos traficantes e assemelhados.
A lenda, a maldita lenda, começou quando um Sujeito Qualquer (1) doravante designado simplesmente “SQ” andou vendo (ou imaginando) coisas.
   Primeiro viu (ou imaginou) de sua janela um grupo de inocentes garotões brincando com talco. Pronto, sua imaginação doentia o fez pensar que eram imbecis “vaporizando” carreirinhas de cocaína. 
Depois viu (ou imaginou) os mesmos garotões, ou outros, comprando “Anabolizantes” (2) e “energéticos” (3), que são vendidos, (“un passant” legalmente), em qualquer drogaria. Daí, o “SQ” criou a estória de que os inocentes meninos iriam consumir aqueles medicamentos com bebida alcoólica o que os deixaria “ligadões” e achando que eram super-homens por mais de 24 horas.
    Finalmente viu (ou imaginou) os mesmos garotões, ou outros, comprando “fortificantes” para cavalos, que podem ser adquiridos (os fortificantes, não os cavalos), também legalmente, qualquer casa do ramo. Desse corriqueiro fato o “SQ” criou a estória de que, os pobres rapazes iriam desidratar o medicamento em um forno micro-ondas e injetar o produto em suas veias o que os levaria ao nirvana ou para a sepultura (tanto faz, tudo é nome de conjunto de rock).
     Se o infeliz tivesse visto (ou imaginado) estas coisas e as guardasse para si tudo bem, mas, o desgraçado era malédico e saiu por aí contando para todo mundo estas asnices. E, muito pior, além e contar o que imaginava ter visto arrematava teatralmente:
- “Nem carnaval isso é. Em antes pela música que anima os ‘foliões’. Desde quando axé baiano ou funck, tudo de terceira (ou enésima) categoria, é música? O resto é droga, com ou sem enchente, droga. Literalmente droga. O ‘carnaval’ de Veneza é a alegria dos traficantes e assemelhados. Isto de que ‘comercialmente é bom para a cidade’ é mentira, uma deslavada mentira. Os visitantes já trazem em suas mochilas as cestas básicas que ganham dos alcaides (4) de Palermo (Gotardo) e de Capri (Lindberg Farias), portanto, compram pouquíssimo no comercio local. Dão isso sim, uma despesa enorme para a Santa Casa que com seus parcos recursos foi obrigada a atender, só este ano, quase trezentos drogados. Por outro lado certamente espantam aqueles que realmente poderiam trazer algumas vantagens para a cidade. E a imundície que deixam nas ruas? E as cenas de sexo explícito? Porque eu não saí da cidade? Bem que tentei, mas, Veneza é uma cidade de uma gôndola só e, pior ainda, de um canal só. Quer dizer, para sair (fugir) da cidade obrigatoriamente é preciso enfrentar o bando de imbecis drogados que pensam que são super-homens. A turba ignara assustou minhas crianças, danificou minha lancha, sujou minha roupa e, se tivesse reagido, poderia até ser assassinado. Fiquei prisioneiro em minha própria cidade. Era o Festival de drogas de Veneza, o ‘melhor’ do mundo. Carnaval não! Bandidagem, galinhagem, anarquia generalizada. Carnaval não!”.
   É, foi assim que, graças a um “SQ”, muita gente pensa que o carnaval de Veneza “festival de drogas que envergonha seus habitantes”. Mas, felizmente, isso é uma lenda, apenas uma maldita lenda. Objetivando acabar com esta lenda Titio Frasme convoca todas as criancinhas, de 8 a 88 anos, para votar um novo nome para o carnaval de Veneza.
A título de sugestão apresento quatro alternativas. Esclareço que as três primeiras são do “SQ” enquanto a quarta é de minha modesta lavra:
CARNARQUIA
CARNACONHA
CARNAÍNA
CARNAVAL DE VENICE (5)
Estou apostando que a quarta vai ganhar de goleada. Claro que estas sugestões não esgotam o universo de alternativas, portanto outras serão bem-vindas. Cartas para a redação deste pasquim. (Ah se este fosse “O PASQUIM”).

A Seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas

(1)   - Na realidade não era um Sujeito Qualquer, era um Sujeito retrógrado, néscio, míope e, sobretudo malédico, no bom sentido, é claro.
(2)   - Os esteróides anabolizantes, mais conhecidos apenas com o nome de anabolizantes são drogas relacionadas ao hormônio masculino, testosterona, fabricado pelos testículos.
(3)   - Composto energético indicado nos casos de cansaço extremo, desinteresse sexual, falta de concentração e atenção. Deve ser utilizado por pessoas que também desejam aumentar sua libido, disposição e energia.
(4)   - Eles são bons nisso.
(5)   – Venice é Veneza em “Italianês”.

08 - OS DENTISTAS SÃO LOBISOMENS

 

     É lenda. Os dentistas não são lobisomens. São gente como a gente. Eles cutucam nosso nervo exposto com o mesmo prazer de uma criança chupando um pirulito, mas este é o serviço deles. Eles perguntam nossa opinião sobre um assunto qualquer que eles vêem discorrendo, sabendo que com a boca arreganhada e cheia de penduricalhos, só podemos fazer ahn, ahn... Realmente eles fazem estas coisas, mas não são lobisomens. Isso não passa de uma lenda. Marcam hora para nossas consultas e nos atendem (quando atendem) no mínimo uma hora após. Fazem isso, mas não são lobisomens. Se você tiver uma cárie em um dente do siso (o último dos queixais que nasce no adulto) e procurar 100 (cem) dentistas 50 (cinqüenta) deles vão afirmar que o dente precisa ser extraído. Você então diz que pode extrair. Eles vão recomendar um “excelente” cirurgião... Os outros 50 (cinqüenta) vão diagnosticar o tratamento de canal. Você então diz que pode fazer. Eles vão recomendar um “excelente” canalista (endodontista como eufemisticamente eles costumam dizer)... .
    É, eles são assim mesmo, mas não são lobisomens, isso não. São os profissionais que cuidam dos dentes, gengivas e de alguns ossos faciais, como o maxilar. Até bem pouco tempo atrás, o dentista era temido pelo barulhinho amedrontador de seus instrumentos. Hoje, com instrumentos mais modernos, tratar de uma cárie já não assusta tanto. O tratamento pode ser feito até mesmo com laser. No entanto, muitas pessoas ainda preferem ficar longe de um consultório odontológico porque imaginam que eles são lobisomens.
Além de tratar de cáries, o dentista é responsável por realizar a prevenção de doenças da boca e ensinar a correta higiene bucal. Quando especializado em ortodontia, o profissional realiza os procedimentos necessários para corrigir a posição dos dentes por meio do uso de aparelhos ortodônticos e quando necessários, por meio da extração de alguns deles. O dentista é responsável ainda por certos tipos de cirurgias faciais, mas, não são lobisomens.
      Também há dentistas mediúnicos, para os que preferirem tratamentos dentários sem anestesia ou brocas, praticados por um curandeiro qualquer, que recebe um espírito qualquer, de um morto qualquer, da primeira guerra mundial, mas, não são lobisomens.
São capazes de alugar nossos ouvidos como estórias do tipo “o ILS de uma senhora de 40 anos, e linha de sorriso alta, do qual foi removida a coroa de porcelana e núcleo metálico fundido, e durante uma das sessões sofreu uma pequena fratura na mesial do preparo protético de mais ou menos dois a três mm... Se tentar neste caso uma pequena extorsão ortodôntica mais a colocação de um núcleo de fibra de vidro (ao invés de um núcleo metálico) estaria tentando diminuir um pouco a tensão de tração... Qual a melhor opção para esse caso sem ser a extração do elemento?”.
Se a gente fosse da máfia deles e não estivesse com a boca arreganhada e cheia de penduricalhos poderia responder que: - “Se a raiz tem um comprimento adequado para extrusão ortodôntica, seu plano de tratamento está bem adequado. Sugiro apenas como finalização uma coroa cerâmica do tipo vidro ceramizado (ex. IPS Empress dois), que tem boa adesividade, o que lhe permitiria ao final criar uma unidade estrutural bastante adequada para o caso”.
Em assim não sendo podemos apenas grugunhar ahn, ahn... .
Eles são assim mesmos, mas não são lobisomens, isto eu garanto e posso até jurar. É lenda. Os dentistas não são lobisomens.

 

09 - SANTA RITA DE JACUTINGA É UM PÓLO TURÍSTICO

 

     É lenda. Só porque figura na Internet em cerca de 28000 sites (1)? Só porque possui 28 fazendas (1) que já foram cenários de novelas? Só porque tem 72 cachoeiras (1)? Só porque tem 12 pousadas (1). Só porque dispõe de uma pista de MotoCross onde é disputada uma das etapas do campeonato brasileiro? Só porque promove anualmente um encontro de bandas de música? Estas coisinhas não fazem daquela tranqüila localidade um pólo turístico. Agora nossa Rio Preto, essa sim, é um belo Pólo Turístico. Santa Rita não, lá não tem nenhum pólo turístico, isto é pura lenda. Em compensação lá tem muitas estórias como a de Monsenhor Marciano (2), também conhecido naquelas plagas (eu disse plagas, viu Aloísio!) como “padim Marciano”. Era a festa da “descida da Santa” e procissão vinha subindo a Rua (que hoje leva o nome do padre quase santo) entoando os cânticos de sempre. Como um maestro surrealista, padim Marciano seguia na frente do povaréu, todos, invariavelmente, compadres ou afilhados, dando o ponto para a cantoria:
- Queremos Deus! O povo todo continuava:
- “Queremos Deus quénossoreiii, queremos Deus quénossopaiii ...”
-Ave Maria!
- “Aaaaveaaaavê Maria...”
Quando o cortejo passava próxima à descida (ou subida) do “rebenta-rabicho” Monsenhor vislumbrou, despencando ladeira abaixo, o ônibus (“jardineira” (2) como se dizia antigamente) que fazia a linha Santa Rita/Barra Mansa, ali estacionado para facilitar a precária ignição. (3) Assim que monsenhor pressentiu o perigo gritou:
- A jardineira, A jardineira! E o povaréu emendou:
“Ô jardineira (3) porque estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a Camélia ...”
E a jardineira veio e atropelou a metade da procissão.
Santa Rita não é pólo turístico coisa nenhuma (4), isto é outra estória ou outra lenda. Sei lá.

A Seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:

  1. Há muitas controvérsias a respeito destes números.
  2. Jardineira ônibus: - Na França, veículo de duas ou quatro rodas denominado jardinière. Erautilizado pelos agricultores no transporte de sua produção para os mercados das cidades. Quando transportava pessoas, conservou a denominação. Na Itália, virou giardineira. E na Espanha, jardinera. Imigrantes espanhóis e italianos enriqueceram nossa língua com a variante jardineira.
  3. Jardineira música: - Segundo José Ramos Tinhorão, “A jardineira” é considerada a mais antiga marcha-rancho presente em todo o cancioneiro do carnaval, devendo datar do fim do século XIX. Gravada originalmente na RCA Victor em 1938, por Orlando Silva e lançada em discos 78 rpm.
  4. Apesar da Fazenda Santa Clara, do Barão Barra Mansa, situar-se naquele município

10 - O NOVO PAPA EM SÃO CRISTÓVÃO

    E temos um novo Papa em São Cristóvão. Deus, Ele mesmo, desceu lá de cima e nomeou um novo Papa para São Cristóvão. Por que Ele Fez isso eu e ninguém sabe a razão. Afinal quem somos nós para questionar o divino designo. Torto por linhas certas e vice versa não tem a menor importância. Não interessa nem o nome do novo ungido pelo Senhor.
Apesar de também não ter nenhuma importância resolvi, por mera curiosidade, ouvir a opinião do antigo papa, agora levado à condição de um mero devoto:
- Gostava mais do tempo da batina, tinha mais mistério, a gente respeitava mais os padres.
- Tempos modernos.
- Modernos nada, sem-vergonhice pura. Estes padrecos de jeans, cabelão, camisa aberta no peito, tatuagem e amiguinhas não inspiram respeito a ninguém.
- Eles tiveram que se atualizar. A Igreja estava decadente (1).
- Bela atualização! Só falta começarem a pregar a favor do uso da camisinha e da pílula, do casamento dos padres, dos homossexuais (2), do diafragma, do aborto, da ordenação das mulheres.
- E isso não seria bom...
- Que isto? Você esta brincando comigo. Só pode ser. O povo não quer saber destas besteiras, quer ir às igrejas apenas para conversar com Deus e os Santos recebendo de troco bênçãos e milagres. É o ciclo litúrgico (3).
- Era assim...
- Era não, ainda é e vai ser sempre. A Igreja não faz mais mágica, não tem mais mistério Aí o povo vai para a “igreja” evangélica e dá o dízimo na maior felicidade, porque lá tem Jesus, tem milagre, tem combate ao demônio, tem cura, tem uma porção de coisas que antigamente a Igreja tinha e hoje não tem mais.
- Do jeito que você fala parece que a Igreja vai acabar. Falta só a coroa de flores (4).
- E vai. A começar pela Santa Missa que era o carro chefe da Igreja. Acabou. Era aquela coisa bonita, tudo em latim, cheio de mistérios e cantos gregorianos. Agora como é que é? Olha, sem querer desmerecer o Candomblé, que é uma religião que eu até respeito muito, as missas de hoje parecem mais “pontos” de macumba e ainda, para piorar, com musiquinhas do Roberto Carlos.
- Você me desculpe, mas, está parecendo revoltado. Vamos falar do novo Papa de São Cristóvão nomeado diretamente por Deus.
- Que Papa nada. É uma Papisa. A primeira lambança dela foi mudar a data da festa. Todo ano na mesma data e agora ela muda. Resultado não veio ninguém ...
Aí eu não agüentei mais e fui embora deixando aquele devoto falando sozinho.

A Seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:
(1) Decadente: pessoa que possui dez dentes.
(2) Homossexual: tipo de sabão usado para lavar a genitália. Ao usá-lo, a genitália fica muito mais branca.
(3) Ciclo litúrgico: bicicleta de propriedade do pároco. Variantes: quadriciclo litúrgico e monociclo litúrgico.
(4) Coroa de flores: pedido de desculpas post-mortem.

11 - TODOS OS FAZENDEIROS SÃO RICOS E PODEROSOS

   É lenda. Fazendeiro rico e poderoso não é fazendeiro. Ë dono de empresa de mineração, dono de hospital, deputado, dono de montadora de automóvel. Eles têm fazenda por hoby ou então para descarregar o “caixa dois”. Poderia provar facilmente que isto é uma lenda. Poderia mas não é necessário. Basta publicar o “desabafo” do meu padrinho de crisma Pedro Paula Nogueira dono de algumas terras, de um analfabetismo monstruoso, de uma inteligência arguta e de uma alma nobre. Esse desabafo é de sua lavra, mas, bem poderia ser do “Sô” Juca da Belmira, do “Seu” Benedito Pereira, do “Seu” Hélio Monteiro ou, de centenas de outros homens que dedicaram sua vida a terra plantando, criando e “fazendo fartura”, como eles gostavam de dizer. Vai ai o desabafo de “Padrim” Pedro:

A GENTE AQUI LABUTA,
NUMA LUTA
DISGRAMADA,
COM AS COBRA
E COM OS CACHORRO DOIDO
PRÁ PRANTÁ O MIO,
TIRÁ O LEITE,
INGORDÁ OS PORCO,
ROÇÁ OS PASTO,
CURÁ AS VACA,
TRATÁ DAS VACA NA SECA,
INFIM,
A GENTE LUTA A VIDA INTEIRA
PORQUE TEM VERGONHA NA CARA
E MEDO
DE MORRÊ NA MISÉRIA.

CRIA FAMIA,
SOFRE CUM AS DOENÇA DOS FIO
QUE DESPOIS VÃO TUDO PRA CIDADE
POIS LÁ É BÃO E OS NETO DELES
VÃO PODER ENTRAR NO
TAL DO MST

JÁ NO FIM DA VIEÍSSE,
QUANDO A GENTE
PASSA A VIVÊ
SÓ A PODÊ
DE INGERÇÀO
É QUE, ÀS VEIS,
A GENTE ACABA DE PAGÁ AS DÍVIDA
DO PEDACINHO DE TERRA QUE A
GENTE COMPRÔ
(PRÁ BRIGÁ COM AS COBRA
E COM OS CACHORRO DOIDO)
E QUE A GENTE PAGÔ
UMA PORÇÃO DE VEIS
EM IMPOSTO PRÔ GOVERNO,
AS DIFICULIDADE NÃO ACABA.
É QUE OS OUTRO VEM DIZÊ
QUE NÓS É
“LARTINFUNDIÁRO,
FAZENDEIRÃO RICO
E PODEROSO”.
ORA, ORA
LARTINFUNDIÁRO

É A   ....   ...   ........

12 - O HOMEM QUE CALCULAVA

    Havia há muitos e muitos anos, na miserável aldeia de Anaihebi, localizada no oásis de El-Badaiahi, no interior da Síria antiga, um homem muito sábio, o venerando Ivel Abdala Cinqüenta e Seis (1). Além de sábio o venerando Cinqüenta e Seis era rico, caridoso (2) e preocupado com o bem estar da comunidade local. 
Em certa ocasião os habitantes de Anaihebi resolveram promover um leilão de camelos em benefício da Santa Casa de Misericórdia local, que estava praticamente falida (3).
   O Venerando Ivel Abdala Cinqüenta e Seis queria muito ajudar, mas, infelizmente, ele não tinha camelos nem instalações para a manutenção dos bichos. O negócio dele era o comércio e não a criação de animais. No dia do evento ele observou que Arrab Ben-Asnam, um importante criador da região, estava muito interessado em uma jovem camela que seria leiloada.
- Que Allah, o Altíssimo, proteja os teus filhos e os filhos dos teus filhos!
- Venerando Cinqüenta e Seis! - Bem-vindo sejas - respondeu Arrab Ben-Asnam - A que devo a honra de merecer a tua saudação.
- Gostaria de saber quanto vale este lindo animal que estás a observar?
- Realmente é um lindo animal. Repare na uniformidade de suas gibas (4). Veio do criatório do generoso Xeque Gui Ben-Lherme. Vale muito. No mínimo três mil dinares-ouro. Até este valor pretendo arrematá-la se Allah, o Altíssimo, assim permitir.
- Quer dizer que por dois mil e quinhentos dinares-ouro seria, para ti, um excelente negócio?
- Claro que seria, mas, no leilão ela vai sair por bem mais do que essa quantia.
- Então vou propor-te que digladiemos (5) pela camela até o valor de três mil e quinhentos dinares-ouro, valor este que jamais seria alcançado em uma situação normal. Quando chegar a este valor tu deve desistir.
- E que ganharás com isto, Venerando Cinqüenta e Seis?
- Receberei de ti dois mil e quinhentos dinares-ouro então minha doação à Santa Casa será de um mil dinares-ouro enquanto, para a comunidade, parecerá três mil e quinhentos dinares-ouro. Ora, mesmo se eu fizesse uma doação desta quantia, sem participar do leilão, a comunidade não ficaria satisfeita. Para ti, que tencionava gastar até três mil dinares-ouro, é um excelente negócio. Para a Santa Casa também, pois irá receber três mil e quinhentos dinares-ouro ao invés de, no máximo, três mil dinares-ouro.
- Que Allah, o Altíssimo, proteja e abençoe o generoso e sábio venerando Ivel Abdala Cinqüenta e Seis!
E todos ficaram muito felizes.

A Seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:

  1. Cinqüenta e seis em romanos: - L e VI
  2. Ele. era caridoso por ser sábio e não por ser rico.
  3. Igualzinho a todas outras Santas Casas.
  4. Gibas: - O mesmo que corcovas. O camelo tem duas enquanto o dromedário tem apenas uma.
  5. No bom sentido.     

13 - O MÉDICO E O MONSTRO

 

      Minhas criancinhas, hoje titio Frasme vai levar vocês a um passeio diferente. Ao invés de aldeolas miseráveis no interior da Índia ou do Gordokidiscão visitaremos a gloriosa Londres da rainha Vitória (24/05/1819 à 22/01/1901) cuja sua honestidade, patriotismo e devoção à vida familiar tornaram-na o símbolo máximo de uma era, a “era Vitoriana”. Mas, paradoxalmente, nesta época Londres era a cidade de todos os vícios, do jogo à prostituição.
O ano: - 1886. Uma madrugada qualquer. O “fog” (1) encobre toda a cidade. Todos os habitantes estão dormindo. Todos? Não. O honorável Dr. Jekill (2), ilustre médico obstetra e cirurgião (ou cirurgião obstetra - como queiram), filantropo respeitado, exemplo de conduta depois de anos e anos de extenuantes pesquisas consegue, finalmente, sintetizar em laboratório, o fabuloso composto “prefeituróxido tributil corruptano bi-nepoteno”.
    Então, minhas criancinhas, com a coragem dos iluminados ele sorveu, de uma golada só, todo o conteúdo da bureta (3). A metamorfose iniciou-se imediatamente. Entre espasmos, estalar de ossos, ranger de dentes, uivos desesperados e raios multicoloridos, o Dr. Jekill, ilustre médico obstetra e cirurgião etc. e tal transformou-se em ..... PREFEITO. Assim ele poderia governar (ou seria prefeiturar) igualzinho a qualquer outro sem ter nenhum remorso. A trapaça passou a valer mais que o acordo, a promessa mais do que o juramento, o hímen mais que o homem.  Poderia ceder bens públicos (escolas desativadas, por exemplo) para servir de moradia a desocupados de plantão (qualquer problema era só dizer que invadiram) e que se danasse qualquer cidadão insatisfeito. Poderia empregar todos os parentes e contra parentes. Poderia se locupletar com as verbas desviadas dos programas de erradicação da malária e da mortandade infantil tudo isso sem comprometer a honra, o caráter e os princípios filosóficos de Hipócrates (4) que sempre nortearam o honorável Dr. Jekill. O médico descobrira a poção mágica do poder, que poderia separar ambos, dando vida a um novo indivíduo, formado unicamente pelas características ruins da dupla personalidade. 
    Mas, oh milagre dos deuses, surge em nossa estória uma princesa, pura, casta, imaculada e super poderosa. Ela vem diretamente do castelo de Walva (ou seria Valva?) (5) (6) e traz na mão esquerda uma espada de fogo e na mão direita uma ampola contendo ... tchan, tchan, thannn ... um poderoso e único antídoto contra composto “prefeituróxido tributil corruptano bi-nepoteno”.
Com a espada de fogo ela imobiliza o monstro/prefeito enquanto, com a delicadeza das fadas, obriga-o a deglutir o conteúdo da ampola revertendo assim os efeitos maléficos do “prefeituróxido” e trazendo de volta o honorável Dr. Jekill.
Depois disso a princesa fica, para sempre, junto dele atenta como um guarda suíço do Vaticano, para que ele jamais volte a cair na tentação de experimentos estranhos e nem abandone sua nobre missão (7).  
Oremos para que ela fique mesmo sempre atenta.
    A seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:
(1)   Fog: - s. m. (ingl) Nevoeiro espesso, característico do clima de Londres. Pron. Fóg.
(2)   Dr. Jekill: - Personagem do livro “O médico e o monstro” do escocês Robert Luis Stevenson- 1850/1894, aquele que escreveu, também, a Ilha do Tesouro que todas as crianças deveriam ler.
(3)   Bureta: - Atenção Bajonas, não é nada disso que você está pensando, “bureta” é apenas um tubo de vidro graduado muito usado em laboratórios.
(4)   Hipócrates: - O patriarca dos hipócritas.
(5)   Castelo de Walva: - Castelo medieval pertencente ao bispado Sulmona, situado perto de Corfínio antigo, atualmente território da Itália. (v/ site www.newadvent.org/cathen/15264c.htm)
(6)   Valva - s.f. sub: - Do Latim valva, batente de porta; Bot: - Cada uma das peças do pericarpo dos frutos deiscentes; Zool: - Peça única ou cada uma das peças, de constituição calcária, que reveste o corpo dos moluscos; Cir: - Instrumento para separar as paredes de qualquer órgão que tem que ser examinado.
(7)   Missão: - Missa comprida, que não termina nunca.

 

14 - O ADVOGADO DO DIABO

 

    Minhas criancinhas, hoje titio Frasme vai contar para vocês a estória de um pobre diabo. Isto mesmo, a estória daquele bicho feio, às vezes pintado com um par de chifres (1) e com pés de bode.
O literalmente “pobre diabo”, deserdado pelo pai, condenado a vagar eternamente pela vastidão do universo, fazendo tudo quanto é falcatrua, cometendo todos os pecados imagináveis precisa mais do que ninguém de um defensor, mais precisamente de um advogado.
Mas, advogado tem uma característica muito específica; - Custam caro, muito caro. Sendo ele um pobre diabo que não tem nem ao menos uma vaca de muitas crias, desdentada e com apenas dois peitos, (2) para dar em pagamento, como arranjar um advogado?
     O Todo Poderoso, no entanto, não desampara ninguém, (nem mesmo o diabo) e em 1587, a própria Igreja Católica (que falava tão mal do “pobre diabo”), passou a pagar um advogado (em latim advocatus diaboli) para defender o dito cujo nos processos de canonização. Isto durou até 1983 quando o já quase santo, João Paulo II, aboliu (3) (ou exorcizou) esta “figuraça” ficando novamente o infeliz diabo ao “Deus dará”.
E agora, onde arranjar outro advogado? Então ele lembrou-se de um lugarejo muito distante, (lá ele até perdera suas botas), onde havia visto um menino brincando de “ferver água benta” na porta da Igreja. O menino colocava o dedinho na pia de água benta e, imediatamente, a água entrava em ebulição. Achando aquilo promissor ele acompanhou, naturalmente à distância, a evolução do menino.
    Viu tudo. Desde a lata amarrada (com arame) na cauda de um infeliz gatinho, até a falsificação de nota no boletim escolar. Desde bolinar (4) com o coleguinha que tinha síndrome de down até a venda de cocaína na faculdade, inclusive para dois ou três viciados do corpo docente. Viu, no dia da formatura, ele “prometer espertamente” enquanto os outros formandos “juravam solenemente” (promessa é muito mais fácil quebrar do que um juramento). E então ali, naquele exato momento, o diabo apontou o dedo para ele e disse: - Este é o cara! Já é meu advogado!
Devidamente empossado, sua carreira de “advocatus diaboli” iniciou-se com a falsificação de documentos para a aposentadoria de desamparados velhinhos, uma atividade – é bom deixar bem claro – ilegal mas, altamente humanitária. De velhinho em velhinho ele angariou fama e ... votos. Vai daí que em pouco tempo foi eleito para a câmara dos comuns da “nomenklatura” local como representante dos velhinhos aposentados e, mais ainda, foi eleito por seus pares “Presidente da Casa”. Era a glória, ou melhor, o início dela pois, protegido pelo manto do “regime especial”, estendeu seu raio de ação a outras áreas além dos velhinhos aposentáveis.     Defendeu bêbados e drogados, traficantes e traficados, seqüestradores e seqüestrados. Afinal, perante a lei todos, sem distinção, tem direito a um advogado.
Lembram-se, criancinhas, da “vaca desdentada” do terceiro parágrafo? Pois a carreira de defensor do “dito cujo” atingiu ao ápice quando ele teve a coragem de aceitar uma rês (5) como aquela em pagamento para defender um arrombador de residências preso em flagrante delito.
     Mas Deus (ou Alá) é grande e tudo pode. Os Americanos invadiram o Iraque e prenderam Sadan Houssein que segundo George Walker Bush é filho legítimo do próprio Satã.
Em assim sendo era mais de que justo e razoável que o pai deslocasse, para o oriente, o advogado de estimação com a finalidade exclusiva de defender seu honorável filho.
O resultado todo mundo sabe. Felizmente para nós e infelizmente para eles, ambos terminaram esta aventura pendurados (pelo pescoço) em uma corda (made in china) (6) com direito a fotos em quase os sites da internet.

A seguir Titio FRASME tenta explicar, para as criancinhas leitoras, algumas coisinhas:
(1)   Antes de tudo o infeliz é corno.
(2)   Por incrível que pareça tem advogados que aceita este tipo de pagamento.
(3) Enquanto foram apenas 98 canonizações desde 1900 até 1983, a partir desta data foram canonizados cerca de 500 indivíduos e beatificados mais de 1300, aí incluída a beatificação de João Paulo II e, para nossa honra e glória, a canonização do primeiro santo genuinamente Brasileiro.
(4)  Bolinar:- v int., marear a bolina.
(5) Recebeu uma rês para defender rés. Tudo quase a mesma coisa.
(6)  Quase tudo no mundo é “made in china”.

COLUNA SOCIAL E CRÔNICAS

 

    A coluna social “FATOS DA SOCIEDADE – FRASME observa” foi publicada nos anos de 1965, 1966, 1967 no saudoso “O MUNICÍPIO”, editado pelos não menos saudosos João Cunha e Max Costa. Mergulhar no passado e fazer uma releitura desta coluna foi, ao mesmo tempo, doloroso e gratificante. Sebastião Trogo, o honorável professor Sebastião Trogo, diretor de “O MUNICÍPIO” não cansava de dizer: - “Nomes, nomes, coluna social não pode economizar nomes. Quem lê não quer saber de notícias quer é ver nomes”. E eles estão lá desfilando - isto fazia parte do contexto - em sua maioria muito bem adjetivados: - “O encanto da srta. Eny Cecílium”; “A elegância da srta.Vânia Augusto”; “A beleza da srta. Laudelina Marinho Jorge”; “A simpatia da srta. Diva Maria Portugal”; “O charme da srta. Gilda Monteiro de Oliveira”. Podia haver coisa mais bonita?
Também ouso incluir aqui algumas crônicas (ou seriam premonições?) publicadas, também, em “O MUNICÍPIO” e nos jornais “RIO PRETO notícias” e “Vale do Rio Preto” entre os anos 1968 e 1990.
Espero que esta releitura, diferente do que foi para mim, seja para todos, apenas, gratificante.
Mesmo aqui é interessante advertir:
- “FATOS, ACONTECIMENTOS, NOMES E SITUAÇÕES QUE APARECEM NESTES ESCRITOS SÃO ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE PRODUTO DA IMAGINAÇÃO (DOENTIA), DO AUTOR. QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS (VIVAS OU MORTAS) E COM INCIDENTES (REAIS OU IMAGINÁRIOS) É MERA COINCIDÊNCIA, PELA QUAL O AUTOR PODE (ATÉ) SER ELOGIADO, MAS JAMAIS DEVE SER RESPONSABILIZADO”.
Apesar de “FATOS, ACONTECIMENTOS, NOMES E SITUAÇÕES” não são frutos “DA IMAGINAÇÃO (DOENTIA), DO AUTOR”. Ou seriam? Quem sabe...

Fatos da Sociedade
                                                       FRASME observa

O Clube Recreativo Rio Preto, fundado em 4 de abril de 1965, já é uma realidade.
Em sua diretoria figura em entre outros nomes os do Sr. Paulo Magalhães (Presidente), Sr. Durval Avelar (Vice-Presidente) Dr. Décio Coelho da Silva (Secretário Geral), Sr. Max Costa (Diretor Social), Sr. Geraldo Cardoso (Tesoureiro). A diretoria está vendendo ações do Clube a 60.000. Sua sede será no largo São Joaquim. A diretoria aguarda somente a planta para dar inicio as obras.

  • Dia 12 de setembro foi o aniversário de nossa rainha da primavera srta. Ednéia Magalhães. Os convidados foram recebidos pelos pais da aniversariante Sr. e Sra. Antônio Magalhães na sede da Lima Santos. Além de todos os colegas de Ednéia estavam presentes: - Sr. e Sra. Guilherme Portugal, Sr. e Sra. Sebastião Trogo, Sr. e Sra. José Marcelino, Sr. e Sra. José Antônio Rosa, srtas. Anita Ferreira e Maria Ferreira. Aproveitamos a oportunidade para entrevistar a Ednéia cuja altura é de 1,57m, calça sapatos no 35, estuda na 4a série ginasial pretende ser professora. Seu prato predileto é a maionese e a cor preferida é o branco. O melhor filme que assistiu foi Céu Vermelho e é fã do artista francês Alain Delon. Em Rio Preto torce pelo Real Madrid e no Rio pelo Vasco. Ednéia não pratica nenhum esporte e gosta de bossa-nova.
  • Dia 9 de outubro, no baile da “Boa Vizinhança”, em Conservatória, a srta. Vânia Augusto, representante de nossa cidade foi coroada “Princesa da Boa Vizinhança”. Vânia, em Rio Preto, “Princesa da Primavera”.
  • Em Juiz de Fora, no dia 11 de outubro, durante o Festival de Arte Musical da Universidade Federal, o Coral de Rio Preto apresentando-se diante de uma grande platéia conseguiu o segundo lugar mas, indiscutivelmente, merecia o primeiro.
  • Do dia 19 ao dia 25 de setembro foi realizada em Rio Preto a Semana da Comunidade, com discursos e apresentações do Grêmio Lítero Esportivo Dermeval Moura de Almeida no Salão Paroquial.
  • “Maria da Graça” é o nome da próxima peça que o TARP levará ao palco possivelmente no início de novembro.
  • Dia 30 no salão da Cooperativa acontecerá um grande baile animado pelo conjunto Democrata, em prol da festa de formatura dos alunos do colégio Dermeval Moura de Almeida.

Pensamento
Se sofres, cala-te. Se choras, não deixe que as lágrimas apareçam em seus olhos. Mas, se amas, proclame aos quatro ventos para que toda humanidade possa participar da alegria de saber que ainda um seu semelhante tem a capacidade de amar.
Desta vez é só. Stop.
Jornal “O MUNICÍPIO” ano L no 254 de 21/10/65

Fatos da Sociedade
                                                       FRASME observa

Estamos no Natal. E Natal não é um acontecimento, é uma epopéia. Não é uma história, é uma cisão de eras. O natal é, ainda, a maior festa de confraternização do mundo. Os franceses dizem “Joyeux Noel”, os ingleses dizem “Merry Cristimas”, os italianos dizem “Fortunato Natale”, os egípcios dizem “Milad Said”. Eu, do fundo de meu coração, digo “Feliz Natal” e “Próspero Ano Novo” a todos os leitores desta coluna.

OS “MAIS” DE 1965
Maior festa religiosa:- Visita de Nossa Senhora Aparecida
Maior festa social:- Cinqüentenário do Dr. Ramalho Pinto.
Maior realização educacional:- Fundação do Científico.
Maior embelezamento da cidade:- Construção do Fórum.
Maior realização social:- Fundação do Clube Recreativo.
Maior realização artística:- Apresentações do TARP.
Maior sucesso:- O coral de Rio Preto em Juiz se Fora.
Maior feito esportivo:- Voltarei a comentar, pois o campeonato interno de futebol ainda está em andamento.


Durante o baile que teve como fundo musical José Luiz e seu Órgão Moderno, realizado dia 13 de novembro, foi coroada “Rainha dos Estudantes” a simpática srta. Regina Célia Machado Guimarães, nossa entrevistada desse número. A maior aspiração de Regininha é conhecer Londres. Ela gosta de cinema, Sofia Loren e Elvis Presley são seus artistas preferidos e Noviça Rebelde foi o melhor filme que assistiu. Gosta de um bom livro, José de Alencar é seu autor preferido, mas ficou muito impressionada com “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Ela adora música moderna e é fã de Jerry Adriani. Sua música predileta é “O Mundo”. Para dançar ela prefere o ritmo de samba. O perfume que usa é o “Jolie Madame”. Em futebol ela é rubro-negra e fica triste quando o clube de seu coração perde. Regininha ficou muito satisfeita em ser coroada rainha dos estudantes e gostou muito de ser entrevistada por este jornal.
Fundaram o clube, elegeram a diretoria, arranjaram uma sede provisória, mas faltava o nome. Depois de muitos prós e contras “Gente Nova” foi o nome escolhido. “Gente Nova” funcionará, provisoriamente, no segundo pavimento do Salão Paroquial. Possivelmente estreará na passagem do ano.
Na noite do dia 12 de dezembro, representando os Estados do Brasil, com trajes típicos de cada Estado, desfilaram no palco do Salão Paroquial as srtas. Laércia, Maria de Oliveira, Ana Maria, Vera Regina, Heleni Carneiro, Cecília Terra, Vera Lúcia, Leda Maria, Aparecida de Souza, Carmen Lúcia, Vilma Helena, Maria Antonieta, Suely Cunha, Ednéia Magalhães, Maria do Carmo e Virgínia de Almeida.             O desfile foi uma organização das srtas. Vilma Helena e Virgínia de Almeida e apresentação de Acyr Stávola.
Dia 11 do corrente, Alberto Portugal (Betinho) recebeu na luxuosa residência de seus pais, colegas e amigos para uma brincadeira dançante que por sinal estava ótima. Entre os presentes notou-se a elegância da srta. Vânia Augusto, a simpatia da srta. Diva Maria, a beleza da srta. Laudelina Jorge e o charme da srta. Gilda Monteiro.
Dia 12, na casa do Dr. Leovegildo Augusto de Oliveira, Juiz desta Comarca, aconteceu outra sensacional brincadeira dançante. Como acontece sempre que os “hosts” é a simpática família tudo esteve certinho e animado. Além do comparecimento de quase toda juventude riopretana assinalamos, também, a presenças da Sra. Tereza Rosa.
O coral de Rio Preto continua afinadinho. Dá gosto ouvir os rouxinóis do Pe. Martinho.

A tradicional festa de formatura dos alunos do Colégio Dermeval Moura de Almeida será dia 8 de janeiro. O baile possivelmente terá como fundo musical ou “Steel Boys” ou “Democrata”.

Pensamento
É na pedra da ingratidão que o amor afia suas setas e quanto maior é a dureza mais as afia. (Pe. Vieira.)
Desta vez é só. Stop. Pifau.
Jornal “O MUNICÍPIO” ano LI no 256 de 18/12/65

Fatos da Sociedade
                                                       FRASME observa
Clube Gente Nova
Foi inaugurado dia 9 de janeiro. Uma vitória inédita desta nossa juventude. Presentes ao evento o Pe. Martinho Gaio (a quem devemos a sede do clube) Sr. e Sra. Guilherme Portugal, Sr. e Sra. José Marcelino, Sr. e Sra. Miguel Barbosa Filho, Sr. e Sra. José Barbosa, Sr. e Sra. Francisco Reis, Sra. Joaquim Claro.
Rainha do Clube
Agora que temos um clube precisamos de uma rainha para este clube. A diretoria do “Gente Nova” e esta coluna contam com a colaboração de todos os leitores para a eleição de “Miss Gente Nova”. Cada leitor votará em quem julgar merecer este título e depositará seu voto em uma urna na Casa Levi. Depois faremos a apuração e divulgaremos o nome da vencedora no próximo número bem como o dia da festa de coroação da eleita.
Entrevista
A entrevistada deste número é a simpática Srta. Selma Maria Vieira de Mello, uma das “10 mais certinhas de 1965”. Selminha geralmente passa suas feris no campo. Seu hoby é a leitura, o gênero é o realismo e o autor é Morris West. O melhor filme que assistiu foi Um Corpo Que Cai e, em sua opinião, os melhores artistas são Burt Lancaster e Sophia Loren. Não gosta muito de TV, apenas de alguns programas para a juventude. Seu esporte preferido é a equitação e a cor de preferência é o azul. Ela é estudante e não se preocupa com o futuro, vive o presente e acha que já é muito. A música que gosta de ouvir é “From Russiam With Love”, e o ritmo que aprecia dançar é o fox. Flamengo no Rio e Cruzeiro em Rio Preto são seus clubes do coração. Seu traje preferido é o Blue-Jeans e o perfume que usa é Amour-Amour. Selminha gostou muito de ser entrevistada por esta coluna social e acha que a mesma tem prestigiado a juventude Riopretana. Obrigado pelo “prestigiado”.
Drops Sociais

  • Como acontece todos os anos, o baile de formatura “abafou”. O Democrata agradou imensamente. Fernando Freitas, o melhor crooner de Valença, animou o baile.
  • Pela passagem do Natal ficaram noivos os jovens José Geraldo Duque e Selma Marques Mello.
  • Também ficaram noivos no dia 26 de dezembro, em Aparecida do Norte, aproveitando as bodas de prata dos pais da nubente, Sr. Jarbas de Oliveira e Sra. Margarida Valle de Oliveira, os jovens Marley Antônio Marinho e Aparecida Valle de Oliveira.
  • No dia 9 de janeiro contrataram casamento os jovens Nelson Lívio Rosa e Eliane Borges Lima, durante as bodas de prata do Sr. Nelson Rosa e Sra. Aurora Campos Rosa, pais de Nelsinho. Parabéns.
  • Parece que “pegou” mesmo a mania de resolver quebra-cabeça em bailes. Desta vez foi o Paulo César quem resolvia um dos mais intrincados durante o baile de formatura.
  • No dia 31, quando a cidade estava às escuras, um misterioso cavaleiro agrediu, brutalmente, o professor Cláudio Rosa, na Rua Dr. Esperidião.
  • Uma boa pedida seria música mais suave para o clube. Este negócio de Rock-And-Roll já está fora de moda.
  • O pessoal que trabalhou no IBRA ainda não viu nem o cheiro do “vil metal”.
  • Aguardem, brevemente, uma inovação nesta coluna.
  • Tantos açougues em Rio Preto e ainda não mataram o boi da Escola de Samba do Buraco Quente. O fato é que aquele boi simboliza todo espírito alegre do pessoal que mantém viva a tradição do bloco. Aquele boi é imorredouro.
  • A bossa agora é falar da remodelação do Ginásio. Quando não é o “Diário de Noticias” é o “Valenciano”. Eu também vou mandar, quando não uma “brasa mora” pelo menos um “carvãozinho quente”: - Vocês sabiam que o construtor que pegou a tão discutida obra é um cartomante?  Ele anda por aí a ler a sorte das pessoas pelo módico preço de R$300.
  • Uma leitoa regada a whisky escocês (legítimo) e uma sensacional brincadeira dançante marcaram a passagem da 15a primavera da Srta. Vânia Augusto de Oliveira, no dia 5 de fevereiro. Estavam presentes a festa Dra. Ieda, Sra. Dulce, Sr. e Sra. Dolor de Paiva além de colegas de Vânia.
  • Pensamento

A nudez principia no rosto e a obscenidade principia com a palavra. (Simone de Beauvoir)
Esta coluna deveria ter sido publicada no número anterior, mas (este “mas” é eterno) não pode ser devido à “fatores de ordem superior”.

  • Desta vez é só. Stop. Saio do ar. Clik.

Jornal “O MUNICÍPIO” ano LI no 259, de 17/02/66.

Fatos da Sociedade
                                                       FRASME observa

  • Acontecerá sai 29 de outubro, no esplendido salão da Cooperativa, o espetacular Baile da Boa vizinhança. Uma mesa ao lado da janela custará quinze mil cruzeiros. Outras quaisquer dez mil. A entrada será cinco mil cruzeiros. O conjunto, já contratado, será o “Magna Som” de Barra do Piraí. Ainda não foi escolhida a representante de Rio Preto. Estão sendo cogitados os nomes das Srtas. Haidée Augusto de Oliveira e Ednéia Passos Magalhães.
  • Está aberta a inscrição para Rainha dos Músicos. Já se inscreveram as Srtas. Ednéia Magalhães, Leda Passos, Iris Matos, Janete Duarte, Vera Ferreira. A escolha será ainda este mês em das animadíssimas brincadeiras de iê-iê-iê. O baile da coroação da Rainha será em novembro.
  • Seria dia 29 de outubro o baile em prol dos formandos de 1966 do colégio Dermeval Moura de Almeida. A presidente da comissão, Srta. Lúcia Bastos, transferiu o baile para o dia 22 p.f., a pedido do presidente do Esporte Clube Rio Preto Sr. Levi Flutt. O baile será animado pelo melodioso Democrata.

Fofocas Sociais

  • Outro dia apareceram em Rio Preto, em uma reluzente Kombi, três cabeludinhos, naquela base camisa verde-claro, calça saint-tropez. Como sempre acontece, quando o material é de fora, ficaram logo rodeados de garotas, muito mais do que um “Jerry Adriani”. À tarde a polícia os surpreendeu, “nuzinhos da silva”, tomando banho no rio, lá perto do matadouro. Efetuada a prisão verificou-se que os cabeludinhos não tinham documentos de identidade, a kombi era roubada e que portavam algumas trouxinhas da “doce” marijuana. Estavam eles igual a tico-tico quando leva pedrada:        - Quem sou? De onde sou? Para onde vou? Onde estou? Depois de eficiente interrogatório nossa eficaz (e brilhante) polícia conseguiu descobrir que eles eram da progressista cidade Barra Mansa, para onde foram devidamente remetidos no dia seguinte. Dona Falinha, quando soube da ação, diríamos “contundente”, da nossa amada polícia gritou euforicamente:- Viva, viva, viva a nossa Scotland Yard!
  • Por falar em Dona Falinha lembrei que ela está receitando meio comprimido de melhoral infantil para quem pensa que o Ginásio vai mesmo para a próspera cidade de Santa Rita do Jacutinga. Ela esclarece que ouviu isso das “más línguas” e acredita que a intenção seja apenas de fazer com que terminem a reforma (que se arrasta por uma eternidade) do prédio do nosso ginásio. Se isto for “intenção espúria” ela pede desculpas...
  • Alguns alunos do curso científico aderiram à greve dos estudantes universitários. Houve suspensões, mas depois tudo voltou ao normal.  Suspeita-se que houve incentivo de gente estranha ao meio estudantil.
  • Como tudo mundo sabe, só existe ARENA em Rio Preto. Seus candidatos são os Srs. José Frederico de Almeida e Manuel Macedo Reis, respectivamente, a Prefeito e a Vice. Candidataram-se agora pela sublegenda desta mesma ARENA, os Srs. Germano Darcy Reis e Antônio Carlos Ferreira. Dona Falinha, que andava triste com a pasmaceira política, exultou: - Ôba, isto agora vai pegar fogo!

Pensamento “L´habit ne fait pás le moine” (maxime français) Desta vez é só. Adieu.

Jornal “O MUNICÍPIO” ano LII no 299, de 12/10/66

Fatos da Sociedade
                                                       FRASME observa
Três Perguntas
Três Perguntas é a nova “brasa” desta coluna. Uma entrevista de apenas três pergunta com uma pessoa importante da cidade. O leitor poderá (e deverá) opinar quanto a entrevista e quanto ao entrevistado escrevendo para a redação de “O Município”. Se V. Sa. Deve alguma coisa à cidade ou a cidade lhe deve alguma coisa vá se preparando, pois poderá ser o próximo convidado a responder as Três Perguntas.
Devido ao profundo sentimento religioso de Rio Preto resolvemos começar pelo nosso guia espiritual. No momento em que foi entrevistado o Pe. Magalhães estava “dando duro” lá no Salão Paroquial.
P. O que o Sr. acha da juventude?
R. Se coloco uma esperança na juventude para construir um mundo novo será que esta juventude me responderá com um testemunho autêntico cristão ou me responderá com a força da irresponsabilidade arraigada no mundo atual?
P. Contra ou a favor do carnaval?
R. Se não aconselho também não condeno. Acho que para ser freqüentado exigi-se o senso de responsabilidade e o amor de Deus. No “Ama e faça o que quiseres” de Santo Agostinho deve-se se encontrar no “Ama” toda a força da lei do amor, com todas suas exigências. Poderíamos fazer um carnaval mais Cristão?
P. O que é mais importante para Rio Preto o Salão Paroquial ou o Ginásio?
R. Um e outro são importantes. Como chefe e orientador de uma comunidade cristã meu dever era desempenhar o trabalho há muito começado que mais estritamente ligado está a minha responsabilidade.
E assim foram as três perguntas feitas ao Pe. Magalhães e suas respostas.
Como serão as três perguntas do próximo número e a quem serão dirigidas?

No dia 31 tomaram posse os novos dirigentes da cidade, eleitos “democraticamente pelo povo e para o povo”. Apareceram nomes novos no cenário político de Rio Preto: - Sr. José Frederico de Almeida Guimarães, Dr.Jair Simões, Sr. Paulo Machado, Sr. Antônio Carlos sintetizam nossas esperanças. A festa de confraternização (houve festa, mas confraternização mesmo... necas) foi movimentadíssima. A noite o Sr. José Frederico recebeu seus amigos íntimos em sua luxuosa residência. Presentes entre outros: - Desembargador José Lourenço, Dr. Henrique Portugal, Dr. Ramalho Pinto, Dr. Guilherme Portugal, Dr. José Moura de Almeida, Pe. Francisco Magalhães, Pe. Inácio Machado, Sr. Domingos Alves Pereira, Sr.José Graça.

Diversas, Diversões e Divergências

  • Muita gente VIP no baile de formatura dos alunos do Colégio Dermeval Moura de Almeida. Presentes Dr. Henrique Portugal, Dr. Raul Barbosa que apresentou sua noiva a sociedade Riopretana (um encanto a Srta. Eny Cecílium). Presente também a Rainha da Boa Vizinhança, Srta. Haidée Augusto de Oliveira. O ponto baixo, infelizmente, foi o conjunto que contrataram. Com certeza o que havia de pior em Juiz de Fora.
  • “Enquanto houver Roberto Carlos em São Paulo e eu em Rio Preto o iê-iê-iê não morre! Mora?” Afirmou, peremptoriamente, o professor Euclides Santos Esteves que não “esteve” no carnaval porque “houve traição de alguns componentes do Conjunto Lima Santos”. É, com isso nós temos mais um conjunto em rio Preto o “The Confusation”.
  • Gilda Monteiro de Oliveira desapareceu de todas as reuniões sócias. Dona Falinha me confidenciou que isto está cheirando a marcha nupcial. Será mesmo?
  • Por falar em Dona Falinha ela ficou impressionadíssima com o forte destacamento policial que veio para garantir a ordem nesta turbulenta “Caxias Mineira”. Tudo que é “marginal” de Rio Preto deu no pé ou foi preso.
  • Ainda relativo à veneranda Senhora: - Segundo sua sacrossanta opinião as maiores realizações de 1996 foram o término das obras do Salão Paroquial e o “acabamento” do Ginásio. Agora não há mais razão para a pergunta “onde funcionará o Ginásio este ano?”.
  • Informação importante: - O éter é usado como solvente nos laboratórios e na indústria. È usado também como anestésico em operações cirúrgicas. Qualquer outro uso que se faça do éter, como por ex. lavagem de lenços ou para desentupimento de nariz, pode ser considerado “transgressão da lei”.
  • Recorte de um hebdomadário, do ano de 1900, de uma cidadezinha perdida no sertão de Alagoas guardado, cuidadosamente, por Dona Falinha: - Água dura em pedra mole Tanto fura até que dá Tanto havemos de pedir Que a luz elétrica virá.
  • Outro recorte de jornal, este do próprio “O Município”, do ano de 1916, também guardado, cuidadosamente, por Dona Falinha: Água dura em pedra mole Tanto fura até que dá Tanto havemos de pedir Que a luz elétrica virá.

É ou não coincidência demais!

Pensamento
A vida é uma espécie de história natural da dor, que se resume assim:- Querer sem motivo, lutar se trégua e, por fim morrer. (Schopehauer).
Desta vez (soluço) é (snif) só. Stop.
Jornal “O MUNICÍPIO” ano LII no 274 de 10/02/1967.

TRÊS ESTÓRIAS DO TEMPO DO TREM


     “A divulgação destes fatos objetiva única e exclusivamente provar a imprescindibilidade do trem”. (Confúcio bem que poderia ter produzido esta máxima)
Primeira estória
Quando a gente fazia o ginásio, no primeiro ano da década passada, ainda havia latim, professor Trogo e trem de ferro.
Latim era conseqüência lógica do professor Trogo (embora a recíproca fosse também verdadeira) tanto que ele, um homem culto e sábio, duvidando do axioma também ministrava aulas de Português, aliás, fazendo isso com a maior facilidade e brilhantismo, talvez pelo fato de ser genro do Sr. Joaquim Simões, um nobre Lusitano de alto gabarito.
Um belo dia (podia estar chovendo, mas eu não lembro) o professor Trogo mandou que fizéssemos uma redação tendo como tema o trem. A Lígia Flutt Magalhães, que repartia a carteira com a Laudelina Marinho Jorge, sacou não sei de que recôndito a brilhante e insofismável frase: - “O trem saindo do túnel era como se fosse um grande charuto na boca de um gigante”.
Se naquele tempo já tivessem acabado com o trem a Ligia teria elaborado uma sentença tão lapidar como essa? Duvido!
Segunda estória 
Um dia, era um domingo, o glorioso time de Furtado viajava em direção a Coronel Cardoso para mais uma monumental peleja com o não menos glorioso time local.
     O chefe da delegação era o abnegado César Melo, o César do “seu” Pinha. Em Parapeúna, trem parado e César comprando guaraná. Campanhinha tocando e César tirando dinheiro do bolso. Trem apitando e César pagando. Trem saindo e César recebendo o troco. Trem perto da casa de tia Isaura e César correndo atrás. Trem no pontilhão e César tentado, perigosamente, subir na plataforma do último vagão. Trem do outro lado do pontilhão (sem o honorável chefe da delegação) e César voltando para a estação, mais desolado do um correligionário de Alziro Zarur. 
Se naquele tempo já tivessem acabado com o trem o César teria passado por este dissabor? Duvido e duvido!
Terceira estória 
    Em 1945 aconteceram três coisas de suma importância no mundo ocidental:
- Terminou a II Grande Guerra, nasceu Augusto Monteiro Pereira (o Gut) e deu, em Rio Preto, a maior e mais estapafúrdia enchente que se tem notícia em toda a galáxia central (nada a ver com Central do Brasil). Esta enchente foi estapafúrdia porque aconteceu somente no Estado do Rio. Ainda hoje podemos ver a placa “comemorativa” no muro da estação. No Estado de Minas nem o menor vestígio pode ser vislumbrado.
Se naquele tempo já tivessem acabado com o trem tão admirável evento poderia ter sido registrado? Duvido, duvido e duvido!
Então como Confúcio poderia ter dito: - “Está provado o trem é imprescindível”.
Jornal “O MUNICÍPIO” ano LVI no 374 de 10/08/1970
RETRATINHOS 3X4 DOS MEUS MESTRES
Professor Dinho
Eu me lembro. Eu me lembro. O professor Geraldo Alves Vieira, Professor Dinho, já deve ter esquecido. O José Maria Duque, o “Zezinho” da Dona Zezé, (aquela doce e inesquecível professora de História) também já deve ter esquecido. Mas, eu me lembro, eu me lembro.
Era o ano de 1959, série segundo ginasial, aula de matemática.
- Zezinho, quanto é xis vezes xis?
- É dois xigi, fessô!
- Dois “xigi” é seu “narigi”! Um absurdo destes é que faz com que a gente tenha vontade de mandar tudo isso “as favas”.
    E ele era assim. Às vezes calmo, explícito, outras explosivo, temperamental, mandando tudo “as favas”.
Sobrancelhas hirsutas, porte elegante, paletó de casimira xadrez, de frente ele era professor de matemática, de perfil era advogado. Nas horas ocupadas advogava. Nas horas vagas, vagava, isto é dava aulas. Agora, nas aulas vagas, com certeza ele jogava basquete. Entretanto a recíproca era também verdadeira. Como basquete não dá para jogar sozinho ele organizava sempre um time e tirava uma enorme vantagem disso. Jamais ficava no banco de reservas.
No futebol mais sério do mundo, o “futebol” do Millôr Fernandes, ele atuava muito bem e marcava muitos gols. Às vezes pró, às vezes contra, (isto não tinha a menor importância) mas, eram sempre “golaços” memoráveis.
Ele tinha muitos amigos, mas era prisioneiro do seu tempo. Um dia, sabe-se lá por quais desígnios, resolveu libertar-se para, paradoxalmente, fazer prisioneiros.
Mandou, definitivamente, tudo isso “as favas” e foi embora ser o Delegado Dr. Geraldo Alves Vieira.
Hoje, cheio de saudades daqueles tempos ginasianos, percebo, com toda clareza, que o professor Dinho era, exatamente, “o quadrado do primeiro, mais duas vezes o produto do primeiro pelo segundo, mais o quadrado do segundo”.  Em suma, ele era um “produto notável”. 
Jornal “O MUNICÍPIO” ano LII no 359, de 14/06/1971.

CRÔNICA DEFINITIVA SOBRE O ASFALTAMENTO DA ESTRADA RIO PRETO/VALENÇA

FRASME
O primeiro foi o último. O deputado Último de Carvalho através de uma gorda-mãe-de-santo, que babava como uma personagem Nelsonrodrigueana, sentenciou:
- Mi zim fio, é verdade!
Depois foi o Magalhães Pinto, que com aquele jeitão de inconfidente mineiro, confidenciou para a Vera Fischer:
- Meu amor, é a mais pura verdade!
Tancredo trancou-se com seus pares e após ouvir a cúpula do partido disse com voz embargada e sorriso enigmático:
- Meus amigos, é verdade!
O Dr. Nilton Salles, exibindo uma lista de dois metros, contendo mais de cinco mil assinaturas exultou:
- Não existem mais dúvidas, é verdade!
O Dr. Marcelo Reis, encarapitado no alto do Edifício Menezes Cortes, deu um salto da sua cadeira de Diretor do Detran e gritou:
- Tá legal, é na cabeça, é verdade!
O Deputado João Navarro, em Belo Horizonte, diretamente da Assembléia Legislativa, mandou mais um telegrama:
- “Definitivo pt Agora sem dúvidas pt É verdade pt”
O Deputado Paulo Duque retirou uma madeixa (de sua vasta cabeleira) que teimava em cair sobre seus olhos e disse:
- Missão cumprida, é verdade.
O Luiz Antônio piscou um olho para o outro (à la Carlos Langonni) e repetiu:
- Missão cumprida, é verdade.
O Aureliano Chaves interrompeu o reconfortante descanso que fazia, em Três Pontas, na aprazível fazenda de seu dileto afilhado Clovis Duque, para curto e decisivo pronunciamento:
- Meus amigos é verdade!
Então, mediante a todas estas insofismáveis e definitivas afirmativas, nosso admirável Alcaide, (e guia maior) José Geraldo Duque, mandou providenciar, para o deleite da galera, um monumental churrasco, regado a Chopp da Brahma e ainda com direito a concorrer ao sorteio de dez fuscas (movidos a álcool) zero km. Afinal o evento merecia comemoração. Não havia mais dúvidas. Todos haviam sido unânimes. Era definitivo

- A ESTRADA VALENÇA/RIO PRETO JAMAIS SERÁ ASFALTADA!

Esta crônica foi publicada em “O MUNICÍPIO” no 512 de do mês de outubro de 1983. Por esquecimento nosso ou falha de revisão, saiu sem a identificação do autor. Na ocasião cansei de ouvir:
-“Só um canalha covarde se esconde atrás do anonimato para dizer uma sandice destas”
E não era nada disso, mas deixa para lá... O importante e que hoje sete anos após o incidente, esta mesma crônica, devidamente assinada, está sendo republicada neste jornal apenas para podermos, com imenso rejúbilo, acrescentar:
- O Prefeito Fernando Graça, coçou discretamente a barriga, e com um sorriso tão enigmático como o de Mona Lisa determinou:
- É MENTIRA, É MENTIRA, A ESTRADA FOI ASFALTADA!
Jornal “Rio Preto Notícias” ano IV no 29, de agosto de 1990.

SÃO CRISTÓVÃO


    Não. Não enterrem meu coração na curva do rio, como pediu aquele velho índio Sioux. Enterrem-no ao sopé da Serra de São Lourenço, do lado da Igrejinha de Nossa Senhora das Dores, no Arraial de São Cristóvão, Município de Rio Preto. Este é o endereço que quero ter quando for chegado à hora.
Nada neste mundo (ou fora dele) é igual a São Cristóvão. Nem mesmo a exuberante e fantástica Passárgada onde Manuel Bandeira é amigo do Rei. O crepúsculo de Júpiter e o alvorecer na constelação de Siro são meros efeitos especiais se comparados a um simples arco-íris visto por sobre a Serra de São Lourenço.
São Cristóvão... Rua Baixo... Rua Cima... Macondo da minha infância... Quero rever aquele povo mágico que sendo onipotente e onipresente podia, na força de sua inocência, mover montanhas e conquistar os céus. Teté, Brás-o-Funileiro, Domingo-da-Cota, Viúva-do-Nezinho, Rosa-do-Nepumuceno, Tião-da-Rita, Sá Maria eram anjos brincando de mortais.
    Quero rever o “Seu” Imídio. Imídio Teixeira Lopes alguém sabe quem foi? Eu sei. Foi quem deu meu primeiro cigarro e a minha primeira pinga. Foi quem, primeiro, me explicou (ou tentou explicar) como eram as mulheres. Foi um “meio” pai que “quase” não tive. Quero vê-lo sentado, com as magras pernas cruzadas, pés descalços, dedos encaixados no calcanhar, dando aquela risada gostosa, com a cabeça virada para trás. O doutor Juiz de Direito João Lopes (único filho desta terra a galgar este posto), também deve saber quem foi o “Seu” Imídio, pois ele é o seu avô.
    Quero rever “Sá” Rita Marciano, mulher do “Seu” Chico Marciano, aquele que numa das missas mensais do arraial (missas de 15 minutos celebrada pelo Padre Correia), no adro da igreja, fulminou os argumentos da Dona Maria - mulher do Tião Pedreiro - que o desacatava perante toda a comunidade, acusando-o de comer os ovos da sua galinha (que teimosamente “botava” no ninho da galinha do “Seu” Chico) decretando sem piedade: - “Pois se não quer que a galinha bote, pois cose o c.. dela”.
Quero conhecer aqueles que partiram antes de minha chegada. Em particular quero conhecer minha “velha vó”, Maria do Carmo de Jesus, que morreu com pouco mais de 50 anos, mãe-maior dos Pereiras, Machados, Belmiras, Alves, Vieiras, Menezes, et caterva. Quero ouvir de sua boca as estórias, que ouvi da boca de minha mãe, sobre como ela cardava a lã e manobrava o fuso, para fazer o tecido que era usado no casaco de inverno do velho Chico Trombadanta, seu marido.
Sobretudo quero descansar do Jornal Nacional, do NewsWeek, do Zagallo, das Seguradoras, do Imposto de Renda, da Rainha da Inglaterra, do factory feroz, da Vera Fisher, do mercado de commodities, do Doutor Pitanguy, do Antônio Carlos Magalhães, dos cheques estornados............... 

   

A BANDA

    A maior frustração da minha vida é não saber tocar nenhum instrumento. Nem surdo sei tocar. Fui até mesmo reprovado em Canto Orfeônico, no exame final daquela matéria, lá pelos idos de 1959. A Catedrática Professora, digníssima Dona Rosa Barbosa, graças a Deus ainda pela aí, mas felizmente, não se lembra deste lamentável (e único) incidente em sua brilhante carreira de Mestra.
Mas, como cantou Gonzaguinha “isso não impede que eu repita: - era bonita, era bonita, e era bonita”. A nossa Banda era bonita.
Quando ela passava todo mundo espiava, não para a farda tão bela e formosa, mas para a tuba, o saxofone, o clarinete o pistão, a flauta, o bombardine e ... o espírito da banda.
    Quando ela passava estando à toa ou não, tocando coisas de amor ou não, marchas fúnebres ou não, todo mundo espiava. Espiava e esquecia todas as outras bandas.
A banda corrupta do Congresso Nacional. A banda podre da polícia. A banda vermelha da maçã. A banda nojenta da política. A banda retrógrada da Igreja.
A Lima Santos não era apenas uma “banda”. Era muito mais, era a campeã da Lira do Xopotó. Título que ela conquistou brilhantemente no concurso promovido Pela Rádio Nacional.
    A banda de lá não tinha banda. A banda de lá era Parapeúna, ou melhor, era o “Estado do Rio”. Mas, de lá vinha a maioria dos músicos inclusive ele, “sô” Geraldo Parafuso, com bigodões imensos escondendo a embocadura bem treinada, o andar de pato malandro, e o bombardine brilhando como um sol.
Daquele dia eu jamais esquecerei. “Sô” Geraldo Parafuso arrancando do bombardine as notas do dobrado mais triste e ao mesmo tempo mais bonito que eu jamais ouvira e que certamente jamais irei ouvir. Mistura de terror e êxtase como, muito tempo depois, li em uma crônica do Carlinhos de Oliveira. Era o cortejo fúnebre de D. Aparecida, sua companheira de muitos anos. Ele, naquele dia, tocava com a alma despedaçada a música mais bela e ao mesmo tempo mais trágica e talvez nem tivesse consciência disso. Era o espírito da banda.
A nossa banda era bonita, era bonita e era bonita. E o incompetente aqui não sabe tocar nem um surdo!

JOÃO BEM-BEM


Eles estão indo embora. Chamados e/ou guiados por forças desconhecidas par

a nós, ainda desterrados neste vale de lágrimas, eles estão indo embora. Cumpriram aqui sua árdua missão e retornaram agora, cobertos de glória, ao seio do Criador.
Outro dia mesmo foi embora o “seu” João Bem-Bem. Alguns meses antes de sua partida fui visitá-lo lá nas alturas onde morava, parece que já adivinhando, sempre com o seu senso prático, a proximidade da viagem que teria de empreender. Naquele dia impressionou-me, sobretudo, a sua lucidez.
Fazia cerca de vinte e cinco anos que não nos víamos, no entanto ele lembrou-se perfeitamente de mim e mais, lembrou dos doces roubados (que fingia não ver), do cafezinho da hora do recreio, dos professores, das suspensões e, para a minha infelicidade, da maldita blusa que sua filha esquecera, após a ginástica, e que o babaquara aqui vestiu para “fazer graça”. Foi o único dia, de toda nossa convivência, que o vi irritado. Os demais dias esteve sempre com aquele bendito sorriso que alguém do diretório estudantil (acho que foi o Renato Mirandinha) chamou de “sorriso mais bonito do ginásio”: - Imenso desdentado e sonoro.
Lembrou também da reforma do Ginásio, lá pelo finalzinho da década de 50, quando ele fez uma nova cantina. Era de “compensado” autêntico, um palácio se comparado com o velho barraco feito de tábuas de caixote. O Quincas Delgado (meu Deus o Quincas também já foi para o andar de cima!!) pintou com capricho e esmero uma bela paisagem sobre a porta da cantina. Era o Pão-de-Açucar com bondinho e tudo mais. Ficou lindo e “Seu” Bem-Bem ficou todo orgulhoso. Hoje tenho certeza que seu orgulho e satisfação era muito mais pela paisagem do que pela cantina nova.
Pois é, “Seu” Bem-Bem, do sorriso mais bonito, da sineta na hora do recreio, foi embora. O Quincas Delgado deve ter pintado uma paisagem em sua nova cantina e os dois estão lá eternamente em recreio, que sem dúvida é a melhor parte da aula da vida.

 

UM POUCO DE POESIA
OU QUASE

Na pior das hipóteses fornece a tal “liberdade poética”. Tem gente que acredita ser a poesia, depois da Pátria, o último refúgio do canalha. Tem gente que nem acredita na existência da poesia. Eu, no entanto, acredito e fico como cantou Gonzaguinha, com a “pureza das respostas das crianças é a vida, é bonita e é bonita”. Estas aí, algumas publicadas outras não, são todas “sobre Rio Preto”. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! (Carlos Drummond de Andrade).


A PONTE
OUT 1969

PÉS MINEIROS
MÃOS FLUMINENSES
OU VIVE-VERSA
(TANTO FAZ)
ESTICA-SE A PONTE
EM UMA GINÁSTICA
ESTÁTICA
SOBRE AS DUAS MARGENS

EM SEU DORSO
PASSA GENTE
QUE ÀS VEZES PASSA
PARA NUNCA MAIS PASSAR
ENFEITADAS EM SEUS ATAÚDES

COMO NO REFRÃO INFANTIL
“PASSA BOI
PASSA BOIADA
PASSA O QUEIJO
E REQUEIJÃO”
(QUASE TUDO SEM PAGAR IMPOSTO)

PASSAM
RISOS E REMÉDIOS
PASSAM NOTÍCIAS
ÀS VEZES VERÍDICAS
ÀS VEZES MALÉDICAS
PASSAM PROCISSÕES
SANTOS EM SEUS ANDORES
DORES DE SEPARAÇÕES

POR SOBRE A PONTE
TODOS OS DIAS
PASSA O SOL
POR SOB A PONTE,
FLUTUANDO SOBRE AS
ÁGUAS DO VELHO RIO,
ÀS VEZES PASSAM CADÁVERES
SEMI-PUTREFATOS
DE GENTE,
DE BICHOS
E DE SONHOS

SÓ NÃO PASSAM PELA PONTE
NEM POR BAIXO
NEM POR CIMA
ESTRADA ASFALTADA
LUZ
TELEFONE
E VERGONHA NA CARA

MAS, A PONTE
PÉS MINEIROS
MÃOS FLUMINENSES
OU VIVE-VERSA
(TANTO FAZ)
INDIFERENTE A TUDO
ESTICA-SE
EM UMA GINÁSTICA
ESTÁTICA
SOBRE AS DUAS MARGENS
Jornal “O MUNICÍPIO” ano LV no 336 de 30/12/1969.

 

CENTENÁRIO
JUN. 1971

RIO PRETO CIDADE
PERDIDA ENTRE
O PROGRESSO E A PREGUIÇA.
RIO PRETO DE CEM ANOS, PERDIDO EM SUA PRÓPRIA SOLIDÃO.
RIO PRETO,
ONDE O PROGRESSO
CAIU,
LEVANTOU,
BATEU A POEIRA
E DEU A VOLTA POR CIMA.

RIO PRETO, RIO PRETO,
BREST-LITOVSKI
DO ABANDONO E DA DISTÂNCIA

RIO PRETO, RIO PRETO,
TRÁFEGO MÚTUO
DA SOLIDÃO E DA SAUDADE.
RIO PRETO
PARABÉNS PELOS SEUS
CEM ANOS
DE.SOLIDÃO

ANEXAÇÃO
DEZ 1975

NÃO ME IMPORTO MUITO NÃO
COM A PROPALADA ANEXAÇÃO
AFINAL
NÃO TENHO TERRA NATAL
SOU APENAS UM
MEIO POETA
MEIO LOUCO
MEIO CIDADÃO DO MUNDO
MEIO DESCOMPROMISSADO
COM A VIDA

MAS, MEIO MESMO ASSIM
OU POR ISSO MESMO
AINDA TENHO RESQUÍCIOS
DE MINEIRICE
E UM VAGO ORGULHO
DE MINHA NASCENÇA

TALVEZ SEJA ISSO
QUE ME FAÇA XINGAR A MÃE
E AMALDIÇOAR ATÉ A QUINTA
GERAÇÃO
QUEM PROPÕE
A ANEXAÇÃO
ESTES POLÍTICOS SAFADOS
QUE PRECISAM DESPONTAR
NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

NO ENTANTO SEI QUE
SE QUISEREM
ATERRAM O RIO
APAGAM A PONTE
E TUDO VIRA PARAPEÚNA
OU RIO PRETO
POIS AFINAL
É A MESMA COLINA

MANÉ PEREIRA
                              AGO 1975

SERRAS
A  T  R  A  V  E  S  S  A  D  A  S
POENTES CARREGADOS
DE LUZES
DE CHUVAS
DE ESCURIDÃO
BOIADAS CONDUZIDAS
D   O   L   E   N   T   E   M   E   N   T   E
ESTRADAS/ENTRADAS
VARANDO O SERTÃO

NO CURRAL FRIO
O CALOR BOVINO DORME
NO CURRAL FRIO
LONGOS CIGARROS
ENROLADOS PACIENTEMENTE
NA PUREZA DA PALHA
NA PUREZA DA NOITE
SÃO FUMADOS
AO REDOR DO FOGO
TIÇÃO NA MÃO
FACÃO DO LADO
ESTRELA ESPIANDO DO CÉU.
MANÉ PEREIRA É APENAS ISSO
OU TUDO ISSO

O BARÃO DE SANTA CLARA
ACHA QUE ELE É MAIS
ACHA QUE DÁ GUARIDA
A ESCRAVO FUGIDO,
QUE QUER ACABAR COM OS PASTOS
FAZENDO ESTRADAS,
QUE QUER PASSAR A ESTRADA
NO PÁTIO DA SEDE DA FAZENDA.
POR ISSO
MANÉ PEREIRA NÃO PRESTA,
É SUJEITINHO RUIM.
SE PRESTASSE
ASSENTAVA MORADA,
CASAVA COM BOA MOÇA,
NÃO FICAVA POR AÍ,
CARREGANDO AFTOSE NOS
CASCOS DOS BOIS,
ACABANDO COM OS PASTOS,
DANDO GUARIDA A ESCRAVO FUGIDO,
ASSUSTANDO AS CRIANÇAS.
POR ISSO
MANÉ PEREIRA PRECISA MORRER.

ABAIXO DA VILA DE ITABOCA
OS TRAVESSÕES DA PONTE
DO BOQUEIRÃO,
DO RIO PIRAPETINGA
FORAM SERRADOS
NA BRUMA DA MADRUGADA
DE ONDE SAIU A BOIADA
DE MANÉ PEREIRA.
O BOI PASSA
O CAVALO EMPINA
A PONTE ESTALA
A BOIADA ROLA CACHOEIRA ABAIXO
(CACHOEIRA DE BOI)
MANÉ PEREIRA
PERDE A BOIADA
MAS NÃO PERDE A VIDA.
MANÉ PEREIRA
TEM O SANTO FORTE.
É TEMENTE A DEUS.
NOSSA SENHORA ESPANTOU
O CAVALO
COM SEU MANTO AZUL-CELESTE.

NADA,
QUE NADA DISSO.
ELE TEM É PARTE COM
O CAPETA,
COM O DEMO,
QUE ESPANTOU O SEU
CAVALO
MAS DEUS É GRANDE
E MANÉ PEREIRA HÁ DE MORRER
DEBAIXO DA GRANDE FIGUEIRA,
NA CURVA DA ÁGUA FRIA,
NA BEIRA DO RIO PRETO,
NA NOITE DE SEXTA FEIRA.

NA NOITE DE SEXTA FEIRA,
NA CURVA DA ÁGUA FRIA,
UMA ESTRELA SOLITÁRIA
ESPIA
POR ENTRE AS FOLHAS
DA GRANDE FIGUEIRA,
UMA ESTRELA SOLITÁRIA
ESPIA.
VINTE FOICES
REFLETEM NO AÇO
O SEU BRILHO APAGADO.
MANÉ PEREIRA
ESTICA O BRAÇO
PELA ABERTURA
DA CAPA
EM DIREÇÃO AS AMARRAS
DA PORTEIRA.
 
A FOICE SOBE E DESCE
(GUILHOTINA DO MEDO)
COMO UM RAIO.
A MÃO CAI
O SANGUE ESGUICHA
AS FOICES SOBEM E DESCEM
(GUILHOTINAS DO MEDO)
COMO RAIOS.
O CORPO É
RETALHADO.
A ÁGUA FRIA
DA CURVA DA ÁGUA FRIA
NÃO É MAIS TÃO FRIA
MAS SIM
VERMELHA.

DEZ ARROBAS DE CORRENTES,
DAS DE ARRASTAR ZORRAS,
NÃO PRENDEM
O CORPO DE MANÉ PEREIRA
NO FUNDO DO RIO PRETO.
E O CORPO DE MANÉ PEREIRA
FLUTUA.
AMARRADO COM
DEZ ARROBAS DE CORRENTES,
DAS DE ARRASTAR ZORRAS,
O CORPO DE MANÉ PEREIRA
FLUTUA.
COMO FLUTUA
SUA ALMA
PELAS SERRAS
A  T  R  A  V  E  S  S  A  D  A  S
PELOS POENTES CARREGADOS
DE LUZES
DE CHUVAS
DE ESCURIDÃO
PELAS BOIADAS CONDUZIDAS
D   O   L   E   N   T   E   M   E   N   T   E
PELAS ESTRADAS/ENTRADAS.
AJUDANDO
ESCRAVOS FUGIDOS,
ABRINDO ESTRADAS DE ESPERANÇA,
NO HORIZONTE DOS DESGRAÇADOS,
ACALENTANDO CRIANÇAS,
FAZENDO MILAGRES.

NA CURVA DA ÁGUA FRIA,
(VERMELHA/FRIA),
DEBAIXO DE UMA FIGUEIRA
NA BEIRA DO RIO PRETO,
PRÁ LÁ DA FAZENDA DE
SANTA CLARA,
EXISTE HOJE UMA CRUZ
SEMPRE COM VELAS
E FLORES,
À NOITE
A ESTRELA SOLITÁRIA
SEMPRE VEM ESPIAR
POR ENTRE AS FOLHAS DA
FIGUEIRA......

RÉQUIEM A UM RIO
(OU A MIM MESMO)

NOV 1988

SEMPRE TIVE PENA
DOS JOÕES CABRAL DE MELLO NETO
DOS MÁRIOS DE ANDRADE
DOS CARLOS DRUMONND DE ANDRADE
POBRES POETAS
CONDENADOS A CANTAR
SUJOS CAPIBARIBES
POLUÍDOS TITÊS
ENVENENADOS RIO DAS VELHAS

NUNCA OS ENTENDI
POETAS LOUCOS CANTANDO
RIOS MORTOS
TENTANDO DESCOBRIR BELEZAS
EM ESGOTOS
CLOACAS DE GRANDES CIDADES

EU NUNCA PUDE ENTENDÊ-LOS
POIS TINHA UM RIO DE VERDADE
COM CHEIRO DE RIO
GOSTO DE RIO
PEIXE DE RIO
JEITO DE RIO
O “MEU” RIO PRETO

UM RIO QUE
CANTAVA EM CADA CORREDEIRA
DANÇAVA EM CADA REBOJO
FESTEJAVA CADA PIRACEMA
EMBEBEDAVA COM AS ÁGUAS DE MARÇO
DORMIA O INVERNO
VERDE ESCURO (PRETO)
COMO UM URSO POLAR (BRANCO)

ENTRETANTO AGORA
ASSIM DE REPENTE
COMO O TIMBURÉ
ROUBAVA A ISCA
LÁ ESTÁ O “MEU” RIO PRETO
CHORANDO EM CADA CORREDEIRA
CAMBALEANDO EM CADA REBOJO
SEM PIRACEMA PARA FESTEJAR
VENDIDO POR TRINTA-QUALQUER-COISA
(DINHEIROS, VOTOS, GRAMAS DE OURO
OU OTN´S, PODEM ESCOLHER A VONTADE)
ENFIM UM RIO CLOACA
QUE NÃO MAIS RESPIRA E
A RESPIRAÇÃO É O HÁLITO DE DEUS.
NÃO TENHO MAIS PENA
AGORA OS ENTENDO
JOÕES, MÁRIOS, CARLOS
CANTANDO FÉTIDAS CLOACAS

TENHO PENA DE MIM MESMO
COM MINHAS RAÍZES
FINCADAS NA (AGORA)
FOSSA IMUNDA
EX-RIO PRETO (QUE TINHA
CHEIRO DE RIO)
O MERCÚRIO QUE POLUI
SUAS ÁGUAS
CORRE TAMBÉM NAS MINHAS VEIAS
PEIXES MORTOS FLUTUAM NO MEU CORAÇÃO

TAMBÉM FUI VENDIDO
COMO (E COM) O “MEU” RIO
TAMBÉM ESTOU MORTO

JORNAL “RIO PRETO - NOTÍCIAS” ANO II NO 08/09 DE DEZ/88

GOL NA COPA DO MUNDO
(FRASME*)
ENQUANTO ISSO
A HECATOMBE NUCLEAR
MEDE SEUS PASSOS,
(MANUEL PASSOS ERA, ENTRE OUTRAS COISAS,
O DONO DA SINUCA),
CAUTELOSAMENTE.
NOSSAS CABEÇAS VÃO ROLAR
E TUDO VAI EXPLODIR NUMA
IMENSA ROSA,
 (A ROSA DO LICO
MORAVA EM SÃO CRISTÓVÃO),
RADIOATIVA.
DE NÓS NADA RESTARÁ
E NÃO SEREMOS SOZINHOS,
(DÁ, ZINHO E SOICINHO ERAM OS IRMÃOS
ROSA DO ANTIGO SPORT),
NA MORTE.
TALVEZ, DAS PESSOAS QUE ESTEJAM
EM LUGARES ALTOS,
(VOU PARA O FUNIL VIVER COMO O DICO), 
ALGUMAS CONSIGAM SOBREVIVER E,
 QUEM SABE, TENHAM DESCENDENTES,
(JAIR E GERSON ERAM DENTISTAS E
NÃO JOGADORES DE FUTEBOL),
SADIOS.
TALVEZ UMA BÍBLIA,TALVEZ O TALMUDE,
(O RONALDO PEROTE ERA O TAL),
TALVEZ AS RUBAYATS DE
OMAR IBRAHIM AL KHAYYÁM,
TALVEZ UM TALVEZ, E TEREMOS,
 NOVAMENTE, O COMEÇO DE TUDO.
ENTÃO OUVIREMOS, OUTRA VEZ,
O LIZIÁRIO FORMIGUEIRO
GRITANDO NA RUA SANTA CLARA:
“APRACA APISCA!
ISCA ELE,
ISCA ELE!!!!!
GOOOL DO BRASIL!!!!!”
                                                                                        *FRASME VIVE NA GRUTA DO FUNIL HÁ 37 ANOS

 

RECUERDOS
                                                 AGO 1997

NÃO ERA APENAS UMA CIDADE.
 ERA UMA CIDADE COM COISAS FANTÁSTICAS
E EXTRAORDINÁRIAS.
 HAVIA MISSAS TODOS OS DIAS.
UMA, DUAS, TRÊS, E ÀS VEZES,
 ATÉ QUATRO MISSAS POR DIA.
HAVIA PROCISSÕES INFINITAS
NA SEMANA SANTA.
 HAVIA UM RIO E ALGUNS PEIXES.
HAVIA SEMPRE UM JUIZ DE DIREITO
NA PONTE
TENTANDO INUTILMENTE PESCAR.
HAVIA ENCHENTES MONUMENTAIS
E CASAS MAL-ASSOMBRADAS
HAVIA UM POSTO FISCAL
E, BEM NAS BARBAS (JARBAS) DO
SALABERT, CAPITÃO.
BRENO, JORME, RAIMUNDO
E CIA. LTDA.
O “SÔ” JOÃO RAIMUNDO
PASSAVA,
SEM NOTA FISCAL, É CLARO,
QUILOS E MAIS QUILOS
DE LINGÜIÇA,
DO ESTADO DE MINAS
PARA O ESTADO DO RIO.
TAMBÉM, SEM NOTA FISCAL,
PASSAVAM BOIS E BOIADAS
DO JOÃO LAGOA,
DO PAULO TERRA,
DO TIDINHO FERREIRA,
DO LILI JORGE
E DO MANÉ DE ALMEIDA.
EM SENTIDO CONTRÁRIO
PASSAVAM
BICICLETAS NOVINHAS
(MONTADAS ALI MESMO NA ESTAÇÃO)
“PILOTADAS” POR MENINOS INOCENTES
A SERVIÇO DE, ATÉ HOJE,
“NÃO SEI QUEM”
HAVIA UM TIME DE FUTEBOL
QUE DISPUTAVA O CAMPEONATO
 DA TODA PODEROSA LIGA VALENCIANA.
 MEMORÁVEIS PELEJAS COM “OS COROADOS”
 NO CAMPO DO DIVINO,
SEMPRE AOS DOMINGOS.
HAVIA, SOBRETUDO, OS TRENS.
 DAS CINCO, DAS SETE,
DAS DEZ E TRINTA,
DO MEIO DIA E MEIA,
DAS DEZESSEIS
E DAS VINTE HORAS.
HAVIA A DONA MARIA-DA-ESTAÇÃO
E SUA CACHORRADA.
O LIZIÁRIO FORMIGUEIRO
E SUA CADELA:
“A PRACA APISCA!”
O PEDRO ANÃO E SUA
ETERNA BENGALA
O CHIQUINHO QUIRUBINA
E SUA INDUMENTÁRIA ENFEITADA
COM O “SANGUE DAS PULGAS”.
O “ORELO”
TENTANDO COMPRAR NOTAS
DE DOIS CRUZEIROS
(AQUELAS COR DE ABÓBORA)
COM SEUS DOIS POLEGARES
SEMPRE APONTANDO
O CAMINHO A SEGUIR
HAVIA TAMBÉM
O BENEDITO COMEDOR,
                                                                 O NEGUINHO
O MARÇAL BODE PRETO,
A BONECA COBIÇADA,
E O TATU-A-JATO.
TODOS ELES ANJOS
DISFARÇADOS DE POBRES MORTAIS OU,
QUEM SABE,
ET’S ESPIONANDO A TERRA
PARA UMA FUTURA INVASÃO.
HAVIA A IRMÃ VENTURA
E SEU ORFANATO.
HAVIA O PADRE RICARDO SHAUF
E SEU IMPAGÁVEL ALTO FALANTE
A BERRAR A “AVE-MARIA DE GNOUD”
E A “SANTA LUZIA” DE NÃO SEI QUEM.
HAVIA “SEU” JOAQUIM SIMÕES,
PROVEDOR DA SANTA CASA,
CONTANDO PIADAS EM QUE O “PATRÍCIO”
SEMPRE LEVAVA VANTAGEM
HAVIA NA COOPERATIVA UMA
VACA MECÂNICA QUE
“SEU” ILÍDIO ORDENHAVA
ENTRE PRAGAS E IMPROPÉRIOS.
ALIÁS, HAVIA UMA COOPERATIVA.
HAVIA O JOGO CARTEADO
DO SEU MANUEL PAÇO
E A BEBIDA PURPÚREA SOCIALISTA E ATÉIA
DO BOTEQUIM DO PRIMO PASTEL.
HAVIA UMA PREFEITURA,
E NELA UMA BIBLIOTECA.
NA BIBLIOTECA
LIVROS, LIVROS E LIVROS.
ERA UMA CIDADE COM
COISAS FANTÁSTICAS E EXTRAORDINÁRIAS.
HAVIA O FELIPINHO ABIB
SEMPRE OFERECENDO
“UM BOM NEGÓCIO”
HAVIA “SEU” WANDINHO,
 DE PÉ
NA PORTA DA ALFAIATARIA
VIGIANDO O MOVIMENTO DA RUA
HAVIA A DONA ROSINHA
QUE ANTES DE FECHAR
QUALQUER NEGÓCIO DISCUTIA
COM “SEU” FELIPE FLUT,
NA SUA LÍNGUA NATAL,
O PREÇO FINAL DA MERCADORIA.
NA VERDADE
 NÃO DISCUTIAM NADA,
 APENAS USAVAM DA SABEDORIA MILENAR
 DOS FENÍCIOS
HAVIA “MISTER” VICENTE DE OLIVEIRA
E SEU TALONÁRIO DO JOGO-DE-BICHO. 
HAVIA O DOUTOR DOLOR,
MILAGREIRO AFAMADO,
QUE CURAVA QUALQUER DOENÇA
 DESDE TUBERCULOSE A ESPINHELA CAÍDA.
 ERA TÃO BOM QUE REENCARNOU NO OUTRO
 E CONTINUA POR AÍ
FAZENDO AS MESMAS COISAS QUE FAZIA ANTES,
(E ATÉ SURDO COMO ERA ANTES).
 NÃO HAVIA MACUMBEIROS,
NEM CLUBES,
NEM CASA DE MERETRÍCIO.
O PE. CORREIA NÃO DEIXAVA.
ALIÁS, NEM DAVA A “BENÇÃO DAS CINZAS”
PARA QUEM OUSASSE BRINCAR O CARNAVAL.
HAVIA SESSÕES DE CINEMA
 NO CINE ELPÍDIO
DUAS VEZES POR SEMANA E,
ANTES DE CADA SESSÃO,
O SERIADO DO ZORRO OU DO
“DOM D’EL ORO”.
ERA UMA CIDADE COM
COISAS FANTÁSTICAS E EXTRAORDINÁRIAS.
HAVIA UMA LADEIRA
E UM GINÁSIO,
(HOJE É APENAS SEGUNDO GRAU).
NAQUELE TEMPO ERA GINÁSIO COM DIREITO A
GRANDIOSOS BAILES DE FORMATURA.
HAVIA O CAVACO,
A SAFIRA E O LAZARETO.
NÃO, NÃO HAVIA
FAVELAS.
HAVIA A PRAÇA,
(SEM AS HORRÍVEIS BARRACAS),
A PONTE E A BARBEARIA DO TIÃOZINHO ROCHA
 (QUE ERA NO ESTADO DO RIO).
ALIÁS, HAVIA, TAMBÉM, O ESTADO DO RIO.
ÀS VEZES PARAPEÚNA.
E HAVIA UM MENINO, DESCALÇO E FELIZ,
NUMA BICICLETA VERDE,
RODANDO DESPREOCUPADO
DA VIDA PELAS RUAS
(QUASE TODAS SEM CALÇAMENTO)
DE UMA CIDADE MÍTICA
(MACONDO DE SUA INFÂNCIA)
COM COISAS FANTÁSTICAS
E EXTRAORDINÁRIAS

    

FIM

 

 

 

 

 

 

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